Meridith Kohut para The New York Times
Meridith Kohut para The New York Times

Com guerra na Síria, mulheres passam a trabalhar (e encontram liberdade)

Em partes do país, as mulheres saíam de suas casas apenas raramente - pelo menos até a guerra chegar. Agora, algumas estão gostando de uma nova independência

Vivian Yee e Hwaida Saad, The New York Times

25 de janeiro de 2020 | 06h00

ALEPO, SÍRIA - As mulheres do leste de Alepo raramente eram vistas antes da guerra, mas, agora, dão forma a uma paz amarga. Nos distritos pobres e conservadores da antiga capital comercial da Síria, poucas mulheres tinham o hábito de sair de casa e, quando o faziam, era na companhia dos maridos. Então teve início a guerra civil.

Já se passaram oito anos de derramamento de sangue, condenando uma geração de homens sírios à morte, à prisão ou a vidas de precariedade enquanto refugiados. Agora, com a maior parte da Síria novamente sob o controle do governo, apesar de irreconhecivelmente dilacerada, a tarefa de seguir adiante recai sobre as mulheres que ficaram.

Em muitos casos, as mulheres estão saindo de casa e trabalhando pela primeira vez. Hábitos antigos estão cedendo diante das circunstâncias extremas trazidas pela guerra e por uma economia em colapso. Isso não é novidade em cidades como Damasco, a capital, mas, em alguns rincões mais tradicionais desse país de sociedade e religião conservadoras, a mudança é notável.

“Antes, as mulheres tinham medo de tudo", disse Fatima Rawass, de 32 anos, que abriu um salão de beleza em maio, três anos após a morte do marido durante a guerra. “Mas, agora, não há mais nada a temer.” Antes da morte do marido, Fatima saía de casa tão raramente que podia usar salto alto o dia inteiro sob a abaya (espécie de vestido comprido). A situação não era diferente em outras regiões conservadoras da Síria, país de maioria sunita: o marido fazia as compras e ia ao centro. Ela cuidava das crianças.

Em 2012, combates entre rebeldes no leste de Alepo e forças do governo no oeste de Alepo dividiram a cidade em duas. Quando o governo retomou o controle, no fim de 2016, o leste de Alepo tinha sido reduzido a ruínas. Fatima implorou para que a família fugisse, mas o marido insistia em ficar para defender sua carpintaria. Recusou-se a entrar para os rebeldes, que o acabaram aprisionando.

Quinze dias mais tarde, as crianças estavam com fome e, hesitante, ela decidiu sair para comprar leite. Bombas e projéteis do governo caíam do lado de fora. Ela se lembra de uma “longa e difícil caminhada". Para comprar a liberdade do marido, ela vendeu tudo que pôde, aceitando trabalho de costureira e fazendo empréstimos. “Espero morrer antes de você", disse-lhe o marido um dia. Mas, em julho de 2016, após a libertação dele, os dois ouviram explosões. Quando ele correu para investigar, estilhaços o mataram.

Fatima disse que se livrou do salto. Foi andando até o mercado. Foi andando até o médico que a tratou quando tinha sintomas de esgotamento e depressão, e foi andando até o instituto de beleza onde começaria a fazer aulas. Poupou dinheiro e obteve um empréstimo da organização humanitária não governamental Crescente Vermelho. Em maio, abriu um salão de beleza no quarto de cima, parcialmente arruinado. “Quando trabalhamos, não temos que pedir nada a ninguém", disse ela. “As mulheres necessitadas estão sujeitas à exploração.”

Ao sul de Alepo, na cidade litorânea Latakia, Lekaa al-Shaekh, de 34 anos, era fotografada com o noivo. Tradicionalmente, os noivos pagam um dote pela noiva: um carro, uma casa e dinheiro vivo em Latakia; em Alepo, o dote é um quilo de joias de ouro. Então começaram os combates, e Latakia, região dominada pela minoria alauíta do presidente Bashar al-Assad, enviou milhares de homens à batalha. A economia ruiu.

“O problema agora é que restaram poucos homens", explicou ela. “Algumas de minhas amigas esperam por homens que possam lhes dar tudo, mas é difícil. Estamos em guerra, afinal.” É raro encontrar uma mulher que não se sinta aflita com alguma coisa. “Não há mais homens na Síria", disse Afraa Dagher, de 36 anos, de Latakia. “Com a minha idade, os que não são soldados viraram mártires.”

Nos fundos da loja de roupas Paro, as funcionárias conversavam a respeito dos problemas enquanto trabalhavam. O marido de Hayat Kashkash a tinha proibido de trabalhar, mas, quando o salário dele foi engolido pela inflação no ano passado, Hayat, de 53 anos, arrumou um trabalho sem pedir permissão a ele. Com dois filhos no exército, ela queria se manter ocupada. “Venho para fugir", disse ela. “Estou aqui para fugir dos meus filhos", brincou Fatima Kelzy.  

Casada aos 11 anos, agora, aos 44, estava viúva, com seis filhas solteiras para alimentar. “Na verdade, trabalho por minhas filhas", disse ela, agora em tom sério, “pois sou mãe e pai". Samia Hanuf, de 39 anos, se casou aos 19, vindo morar em Latakia. Teve três filhos com o marido, soldado do governo, antes de ele ser morto por um atirador de elite em 2013.

Ela ainda conversava com a fotografia dele: contava que, sem a creche para deixar as crianças quando começar o trabalho em uma fábrica de laticínios, o plano era fazer o café da manhã para elas, trancá-las em casa e torcer para tudo dar certo. Ela prometeu que as filhas vão trabalhar tão logo terminem os estudos. “Não quero que sejam como eu”, disse, “incapazes de cuidar de si mesmas". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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