Akos Stiller para The New York Times
Akos Stiller para The New York Times

Guiado pela fé, clérigo se opõe a líder da Hungria

'Este governo não tem nada em comum com o cristianismo', diz o reverendo Gabor Ivanyi, opositor de Viktor Orban

Patrick Kingsley, The New York Times

04 de abril de 2019 | 06h00

BUDAPESTE - Em dezembro do ano passado, enquanto milhares de húngaros estavam reunidos na neve em um protesto contra Viktor Orban, o seu autoritário primeiro-ministro, chegou um pastor com uma fluente barba branca.

Era o clérigo que havia realizado o casamento de Orban, e batizado seus dois filhos mais velhos. Mas o pastor, o reverendo Gabor Ivanyi, ficou de pé na neve, distribuindo chá aos adversários do primeiro-ministro, enquanto contestava a afirmação de Orban de que governa segundo valores cristãos. "Este governo não tem nada em comum com o cristianismo", disse Ivanyi, com uma voz suave quase sufocada pelos slogans da multidão.

A vida de Ivanyi, 67, seria notável mesmo sem sua relação, e estranhamento, com o primeiro-ministro. Destacado dissidente durante o comunismo e influente voz moral nos 30 anos que se seguiram à queda do regime, Ivanyi alcançou uma posição quase mítica entre os outros líderes religiosos.

Embora merecidamente reverenciado, sua trajetória revela tanto a figura de Orban, um dos populistas mais destacados do mundo, quanto a dele próprio, Ivanyi. Para críticos de Orban, a maneira como ele se comporta com o pastor é um estudo de como o primeiro-ministro abandonou seus ideais iniciais, comprometeu a democracia húngara e instrumentalizou a religião.

Quando os dois se conheceram, segundo Ivanyi, eles buscavam a mesma coisa. "Mas agora ele é o líder de um partido fascista de extrema-direita, e este é o motivo das nossas divergências".

Eles nunca foram muito próximos, mas frequentemente se esbarravam em comícios políticos no final dos anos 1980. Orban havia acabado de fundar uma importante agremiação de jovens liberais; Ivanyi lembra particularmente do desdém do jovem  político pela religião e de sua ambição indisfarçada. "Ele era alguém que queria muito da vida. As pessoas nem sequer gostavam de jogar futebol com ele, porque se a bola saía de campo, ele insistia  que era o único que deveria recolocá-la em jogo", contou o clérigo.

No entanto, os dois pertenciam à mesma equipe metafórica. Depois da queda do comunismo, em 1989, ambos foram eleitos ao Parlamento como membros de convenções partidárias liberais aliadas, embora Ivanyi nunca tenha se filiado formalmente a nenhum partido político.

Ruptura

Quando Orban de repente pareceu ter encontrado Deus, pediu a Ivanyi para que celebrasse a renovação de seus votos de casamento. E esta foi uma das últimas vezes em que os dois se encontraram.

Ivanyi logo deixou o Parlamento, enquanto Orban aprofundou sua adesão à direita. O pastor se concentrou na criação de uma rede de abrigos para sem-teto, escolas para crianças pobres e lares para aposentados, enquanto Orban se dedicou à conquista do poder.

E o exerceu, de 1998 a 2002, como conservador convencional. Foi então que sua relação com Ivanyi, nunca particularmente calorosa, desandou completamente. Depois de assumir o cargo, Orban enviou a Ivanyi uma mensagem por um intermediário, pedindo seu apoio público. Ivanyi recusou. Orban retornou ao cargo em 2010, desta vez como nacionalista de direita, e seu partido ofereceu novo ramo de oliveira a Ivanyi. O clérigo novamente o rejeitou, desta vez em uma carta aberta.

Um ano mais tarde, Orban se vingou. Retirou de cerca de 200 instituições religiosas - inclusive o ramo da igreja metodista de Ivanyi - o reconhecimento oficial do Estado, negando-lhes subsídios cruciais, o que as deixou praticamente à míngua. Quando Orban sancionou leis que visavam os sem-teto e os que buscavam asilo, as igrejas oficiais da Hungria permaneceram caladas ou apoiaram o primeiro-ministro. 

Mas Ivanyi não calou. Com suas palavras e atos, ele desafiou reiteradamente o primeiro-ministro, continuando a oferecer serviços aos sem-teto e aos refugiados. Chegou a dar a um afegão um quarto em sua própria casa. E frequentemente contestou a afirmação de Orban de que a Hungria era um país de uma só etnia e de que seu governo se pautava em princípios cristãos.

"O que ele faz vai contra os ensinamentos de Cristo", disse Ivanyi recentemente."É exatamente o oposto do que a Bíblia prega a respeito do tratamento aos pobres, da justiça e do serviço responsável". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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