Carla Ciuffo for The New York Times
Carla Ciuffo for The New York Times

Há uma cura para a ansiedade causada pelo e-mail: Começa com uma caneta

Não mantive minha decisão de escrever uma carta a cada dia deste ano, mas aprendi muito tentando

Margaret Renkl, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2021 | 05h00

Quando eu era criança, adorava ficar ao lado da minha avó enquanto ela escrevia notas. Sua escrivaninha era uma pequena secretária, o equivalente em móveis a um casamento arranjado entre uma cômoda e uma estante com porta de vidro. Havia um par de criaturas parecidas com gárgulas gritando em baixo-relevo esculpidas nos cantos, suas barbas grosseiras feitas de marcas negras profundas.

Você poderia pensar que uma criança muito jovem para ler também seria muito jovem para observar aquelas gárgulas com tranquilidade. Não fui uma criança particularmente corajosa, mas os rostos assustadores nunca me incomodaram. A secretária da minha avó foi a primeira da minha bisavó e agora é minha. Às vezes olho para aquelas gárgulas, surpresa por não terem me causado pesadelos quando criança.

Talvez eu nunca as tenha notado gritando acima da minha cabeça. Eu não estava interessada em nada da secretária de Mimi, com exceção da mesa escondida atrás de um painel que descia de uma prateleira acima das gavetas. Eu adorava os cubículos nos fundos, onde Mimi guardava selos, clipes de papel, um grampeador e fita, algum tipo de livro de registros. Eu adorava os papéis de carta e as canetas tinteiro. Um esconderijo só para escrever!

A linguagem escrita era um truque de mágica. A caligrafia de minha avó não se parecia em nada com a de minha mãe ou com a de minha bisavó, mas qualquer  coisa que escrevessem poderia ser entendida por qualquer pessoa que soubesse ler. Havia algo mais misterioso ou mais profundo? Para uma criança apaixonada pela linguagem, a secretária era um altar, seu compartimento oculto um tabernáculo.

Um dia, quando eu tinha 12 ou 13 anos, Mimi olhou por cima de seu texto. “Um dia esta será a sua mesa”, ela me disse. “Você é a escritora da família e, um dia, isso será seu.”

Minha avó viveu até seus 90 anos, então “um dia” era muito para esperar e, a essa altura, eu quase já havia parado de escrever qualquer coisa à mão. Até perder a visão, Mimi escreveu fielmente a muitos amigos e familiares, um hábito que ela certamente desenvolveu ao viver grande parte de sua vida durante um tempo e em um lugar sem serviço de telefone. Comigo foi o oposto. Em seu funeral, eu tinha um telefone em minha bolsa. Mesmo enquanto cantávamos Amazing Grace, os e-mails não respondidos acumulavam-se no éter.

O e-mail é uma hidra, gerando novas mensagens com cabeça de cobra a cada resposta. Você responde a uma mensagem de uma pessoa e uma dúzia de e-mails de resposta a todos voltam voando. No momento em que a secretária da minha avó encontrou o caminho para minha casa, o e-mail monopolizava tanto do dia que sobrou pouco para o tipo de escrita cuidadosa que uma mesa construída apenas para correspondência exigia.

A rebelião contra o e-mail que me acorrenta ao meu computador pode explicar minha decisão de Ano Novo em 2021 de escrever uma nota, à mão, todos os dias deste ano. Ou talvez fossem os selos que meu sogro nos dava sempre que trabalhava na coleção que mantinha desde a infância. Ou os lindos cartões feitos de papel reciclado aos quais nunca resisto, mesmo que os tenha usado apenas raramente. A decisão de escrever uma carta todos os dias me ajudaria a usar os selos e cartões acumulados ao longo de muitos anos, repudiar todo o mundo virtual e homenagear minha avó ao mesmo tempo. É uma das melhores decisões que já tomei.

Mimi manteve sua coleção de copos nas prateleiras da secretária, mas eu os transformei em um Wunderkammer, um gabinete de curiosidades, onde pequenos tesouros da natureza podem ser guardados com segurança e ainda permanecerem totalmente visíveis: cascas de ovos, ninhos de vespas e sacos de ovos de louva-a-deus , insetos mortos, conchas e fósseis de crinoides, peles de cobra e um velho casco de tartaruga descolorido pelo tempo até a cor de um osso. Há uma segurança que surge ao escrever em uma antiga mesa de família cercada por lembretes do mundo dos vivos e seus ciclos intermináveis.

Entre esses lembretes e a própria escrita, posso me sentir desacelerar. Essa não é o tipo de escrita que eu possa executar em uma velocidade confusa, corrigindo mais tarde. Esse tipo de escrita requer uma ponderação que quase nenhuma outra coisa em minha vida requer: um pensamento, uma palavra, uma frase de cada vez.

Nesse sentido, as cartas são tanto para mim como para os seus destinatários: um fio fino e rabiscado que nos liga através das milhas, ligando a dor deles à minha dor, a sua alegria à minha alegria, a sua generosidade ao meu agradecimento. Às vezes, essa prática me lembra de agir com  generosidade, uma forma de dizer às pessoas que amo ou admiro que estou pensando nelas. Gosto de imaginar como eles ficarão surpresos ao encontrar uma carta manuscrita entre as contas e os anúncios que nunca olham de produtos que nunca vão precisar.

Arrumar tempo não é fácil. Pode ter sido um erro criar um projeto tão ambicioso durante uma pandemia que torna quase tudo mais difícil. Mas eu não me arrependo. Apesar de um revés após o outro - a morte do meu amado sogro, problemas de saúde na família, uma grande cirurgia - este projeto me recompensa, então eu continuo voltando a ele e para a secretária da minha avó.

Encontrar tempo para qualquer coisa que importe sempre será um desafio, mas as notas em si não são difíceis. Todo aquele pavor, durante anos, sempre adiando e adiando a obrigação de uma nota de agradecimento ou o dever de uma carta de condolências - por que perdi tanto tempo com esse pavor?

A cada esforço renovado, fico maravilhada com essa facilidade. Como não é preciso quase nada para escrever apenas algumas linhas, nada para colar um selo no canto, para levar a carta até a caixa de correio e levantar a bandeirinha de metal para dizer ao carteiro que pare nesta casa. Eu gostaria de ter sabido há muito tempo quanto prazer teria em levantar aquela bandeirinha vermelha. Eu gostaria de ter lembrado o quanto amo o cheiro de papel e tinta e a memória da minha avó, sentada nesta mesma secretária, a forma como ela disse, "Você é a escritora da família" e tornou isso real.

Este é o 326º dia do ano, e está claro agora que não chegarei nem remotamente perto de minha meta de 365 notas manuscritas. Na melhor das hipóteses, vou conseguir 200. Ainda assim, passei este ano difícil sendo lembrada, repetidamente, da magia que reconheci quando criança ao lado de minha avó. Com a aproximação do Dia de Ação de Graças, estou cheia de gratidão pelas pessoas que desejo saudar, que espero consolar, a quem preciso agradecer. E todas estão a apenas uma caixa de correio de distância. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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