Fadel Senna/Agence France-Presse - Getty Images
Fadel Senna/Agence France-Presse - Getty Images

Jornalista é detida por reportagens críticas ao governo marroquino

'Fui vítima não apenas de leis injustas, mas de autoridades injustas', afirma a jornalista investigativa Hajar Raissouni

Aida Alami, The New York Times

27 de novembro de 2019 | 06h00

RABAT, MARROCOS - Quando a jornalista investigativa Hajar Raissouni, que trabalha para um dos únicos veículos de notícias independentes do Marrocos, foi ao consultório do seu médico em agosto buscando tratamento para uma hemorragia vaginal, ela não esperava se tornar o centro de um debate nacional a respeito da liberdade de imprensa, direito ao aborto e aquilo que os críticos descrevem como um código penal antiquado.

Mas, no dia 31 de agosto, minutos depois de receber o tratamento, Hajar e o noivo, Rifaat al-Amin, foram detidos. Ela logo percebeu que estava sendo detida por causa de suas reportagens críticas às autoridades marroquinas. O casal acabaria acusado de manter relações sexuais fora do matrimônio e de realizar um aborto, considerados crimes no Marrocos, ainda que a lei do aborto raramente seja policiada.

O médico dela, Jamal Belkeziz, outro médico e um assistente também foram detidos, acusados de violar as leis do aborto. O julgamento deles, em setembro, causou sensação. A decisão do tribunal de condenar os cinco e sentenciar Hajar, que nega veementemente ter realizado um aborto, e al-Amin, agora marido dela, a um ano de prisão provocou uma indignação que só arrefeceu depois do anúncio de um perdão real para todos os réus no dia 16 de outubro.

Hajar ainda está lidando com as consequências de ter a vida privada debatida durante semanas no noticiário. Mas está determinada a usar seu novo status de celebridade para pressionar por um sistema político com instituições independentes e uma imprensa livre. “Fui vítima não apenas de leis injustas, mas de autoridades injustas,” disse ela.

“Meu caso não surgiu com um aborto inexistente, e sim com as políticas arbitrárias do estado.” Hajar parecia quase destinada a chamar a atenção das autoridades marroquinas. Nasceu em uma família de conhecidos donos de terras, guerreiros, intelectuais e dissidentes políticos do norte do Marrocos, ensinada desde pequena a cobrar responsabilidade dos poderosos.

É também sobrinha de duas vozes dissidentes conhecidas: Soulaimane Raissouni, editor do Akhbar Al Yaoum, um dos poucos veículos independentes de notícias no Marrocos, onde ela trabalhava; e Ahmed Raissouni, islamista e crítico constante do governo. Mas a família pagou um alto preço por sua resistência aos poderosos.

Dois anos atrás, o pai de Hajar foi apedrejado até a morte em uma disputa com outros proprietários de terras. Enquanto estudava engenharia para agradar o pai, Hajar tentava secretamente uma carreira no jornalismo. Ela começou a contribuir com o Akhbar Al Yaoum em 2016 e agora escreve a respeito de direitos humanos e política.

No ano passado, o fundador e editor do jornal, Taoufik Bouachrine, foi sentenciado a 12 anos de prisão por acusações de abuso sexual, em um processo que as Nações Unidas descreveram como motivado por questões políticas. A sentença foi ampliada para 15 anos no julgamento de uma apelação em outubro. Hajar mantém a compostura característica que demonstrou durante o julgamento: relaxada, divertida e sarcástica. E diz que continua determinada a denunciar abusos contra os direitos humanos. Ela diz que a experiência a aproximou do marido.

Os dois debatem uma citação de Gandhi que eles têm na parede de casa: “Uma vitória alcançada pela violência equivale a uma derrota, pois é momentânea”. “Discordamos em relação a Gandhi”, disse ela. “Não estou dizendo que a violência deve ser a resposta para a violência. Mas não podemos sorrir e escrever artigos. Temos que ir às ruas e protestar.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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