Jason Henry para The New York Times
Jason Henry para The New York Times

Halterofilismo para crianças e adolescentes ganha força nos Estados Unidos

Não há consenso entre os profissionais de saúde se a atividade é benéfica nesta idade, mas pais afirmam que o segredo está no treinador certo

Nicole Pajer, The New York Times

20 Maio 2018 | 11h00

Um dia, em fevereiro, Etta Nichols entrou toda orgulhosa no Spokane Convention Center de Washington para realizar o seu terceiro levantamento terra, ou peso morto, do dia. Este levantamento tem cinco quilogramas a mais do que “o dobro do peso do seu corpo”, berrou o apresentador no microfone, fazendo a multidão de espectadores explodir em aplausos.

Etta agachou de forma correta, como aprendeu nos exercícios três vezes por semana com o seu trinador, e expirou confiante enquanto levantava o aparelho do chão segurando a barra coberta de gesso com 65 quilos de peso.

Nos sete meses anteriores, Etta se dedicou inteiramente a esta modalidade de esporte e estabeleceu 12 novos recordes para os Estados Unidos. Ela tem 11 anos e pesa 30 quilogramas.

“Não só gosto do levantamento de pesos, eu adoro”, afirmou. “Isto faz com que eu me sinta forte e capaz de qualquer coisa”.

Já Luma Valones pratica levantamento terra, agachamentos e levantamento de pesos desde os três anos de idade. Agora, ela tem cinco. Em sua página particular no Instagram, “HappyLuma”, sua mãe, Nicole Lacanglacang, 36, compartilha vídeos da filha levantando triunfante uma série de pesos cor de rosa sobre o peito. Nicole, também levantadora, começou a treinar a filha com um cano de PVC com 1,5 quilo na garagem de sua casa, em 2016. Hoje, o levantamento terra máximo de Luma é de 24 quilos, 8 acima do seu peso corporal total.

“Ela diz que quer ficar mais musculosa, que não quer ter braços magros – só músculos grandes”, contou Nicole. Luma confirmou declarando que quer “ser a pessoa mais forte do universo”.

Nos últimos anos, o levantamento de pesos para crianças ganhou um destaque maior graças em parte a organizações como a USA Powerlifting, que, desde 2015, realiza competições anuais nacionais para jovens das quais Etta Nichols participou recentemente. “É como o Super Bowl do levantamento de pesos”, explicou.

Outra organização, a United States Powerlifting Association of Irvine, Califórnia, conta com uma equipe de 1,5 mil crianças a partir dos 13 anos, que competem em seus encontros. E a Amateur Athletic Union de Lake Buena Vista, na Flórida, hospeda competidores a partir dos 5 anos em seus eventos de halterofilismo desde 1994, e continua com uma persistente participação de jovens.

Os veteranos do esporte afirmam que este se tornou mais popular graças em parte a uma maior visibilidade na mídia social. Crianças como Etta, que posta suas mais recentes conquistas na academia em sua página pessoal no Instagram, tornaram-se as embaixadoras oficiais dos halterofilistas juvenis.

Priscilla Ripbic, diretora executiva e presidente do comitê feminino da USA Powerlifting, disse que o levantamento de pesos ganhou popularidade entre as meninas, e que a competição USA Powerlifting de 2018 teve uma presença feminina superior a 75%.

Martin Drake, o presidente nacional da Amateur Athletic Union Strength Sports, acredita que houve uma lenta e persistente influência das academias para adultos. “Tornou-se uma verdadeira moda entre moças que querem adquirir um corpo atlético e forte”, ele disse.

Muitos membros do setor enlouquecem com os benefícios potenciais para os jovens participantes. “O halterofilismo ajuda as crianças a desenvolverem o tecido conectivo, como ligamentos e tendões, músculos e ossos, e também ajuda a desenvolver uma força fundamental”, disse Tom DeLong, o diretor  de educação para a ciência do National Council for Certified Personal Trainers e da United States Powerlifting Association.

Mas alguns médicos discordam. “Como ortopedista pediátrica e mãe, esta não seria a minha primeira escolha de uma atividade para a minha filha”, disse a dra. Abigail Allen, diretora da área de cirurgia ortopédica pediátrica do Hospital Mount Sinai em Nova York. Segundo a dra. Allen, os perigos em potencial do esporte incluem “um estresse excessivo nos centros de crescimento e anomalias no crescimento”.

Entretanto, os pais dos jovens halterofilistas afirmam que tomam as devidas precauções para garantir a segurança dos filhos nas academias. “O segredo está no treinador certo”, afirmou Chet Nichols, o pai de Etta.

Etta pretende enfrentar o Campeonato Mundial de Halterofilismo da União de Atletas Amadores, que se realizará em setembro. Mas o seu objetivo maior é inspirar os jovens da sua idade a aderirem ao esporte.

“Às vezes, quando estou fazendo levantamento, vejo uma criança olhando para mim como se eu fosse uma pessoa famosa e depois pedir aos pais se eles deixariam que ela fizesse a mesma coisa que eu”, ela disse. “Muitas pessoas veem um esporte como o halterofilismo como inadequado para meninas e eu quero provar que estão erradas”.

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