Hans Haacke/Artists Rights Society (ARS), Nova York
Hans Haacke/Artists Rights Society (ARS), Nova York

Curadores americanos trazem de volta Hans Haacke após 33 anos

New Museum de Nova York está repleto em seus quatro andares com as obras do artista em uma mostra que irá até 26 de janeiro

Blake Gopnik, The New York Times

24 de novembro de 2019 | 06h00

Para um homem conhecido por sua arte política desafiadora, Hans Haacke mostra-se bastante comum em pessoa: sandálias comportadas, jeans largos e camisa xadrez, e uma maneira afável de responder às perguntas. Apesar de sua enorme reputação na Europa, os curadores americanos em geral o evitavam.

“Antes de tomarem uma iniciativa”, disse o artista de 83 anos, “que sai um pouco da norma, eles precisam considerar (e não os culpo por isso) se ela é boa para a sua carreira”. Em 1971, Haacke estava prestes a ser contemplado com a exposição de uma pesquisa no Museu Guggenheim, mas a mostra foi cancelada. Quando o diretor soube que a arte incluiria uma investigação em transações questionáveis no setor imobiliário, afirmou que seria impossível que o seu museu mostrasse tal “denúncia”. E demitiu também o curador da pesquisa.

A arte conceitual de Haacke, Shapolsky et al. Manhattan Real Estate Holdings, A Real Time Social System, 1º de maio de 1971, constituída por fotografias, gráficos e relatos financeiros de construções em Nova York, permanece uma de suas peças mais famosas. “Apresentar algo que trata do universo político e social em que vivemos - era algo fora de cogitação”, lembra Haacke. “Talvez tenha sido ingenuidade a minha”, acrescentou, “mas não esperava que isto viesse a causar problemas”.

Haacke admite que o furor provocado pelo cancelamento contribuiu para fazer com que ele se tornasse uma força no mundo da arte, mas isto teve um preço elevado para ele. “Não foi fácil. Nós tínhamos um filho de dois anos. Eu tinha um cargo de assistente na Universidade Cooper Union. Não conseguia vender os meus trabalhos - foi duro”. Faz 33 anos desde a última mostra do artista nos Estados Unidos, no New Museum de Nova York. Hoje, o edifício está repleto em seus quatro andares com as obras do artista em uma mostra que irá até 26 de janeiro.

“Nós nos demos conta de que era importante fazer esta exposição”, explicou Massimiliano Gioni, um dos curadores da retrospectiva do New Museum. Ele espera que a pesquisa possa tornar Haacke “o artista que abriu as portas para o mundo exterior”, por fazer arte por algo muito maior do que pelo nome do artista.

Gioni disse que o de Haacke foi um dos mais polêmicos ataques ao sistema que colocou inicialmente o New Museum  no caminho de sua pesquisa. Em 2015, a obra Gift Horse do artista, um enorme esqueleto de um puro-sangue em bronze, ficou instalada por um ano e meio sobre uma coluna em Trafalgar Square em Londres. Uma das patas dianteiras do cavalo estava envolvida em um display de LED com o boletim mais recente da bolsa de Londres. (No New Museum, os números foram substituídos pelos de Wall Street.).

Seth Cameron, que assistiu a um curso de Haacke em 2002, no final da sua carreira de 35 anos no Cooper Union College de Nova York, lembra que ficou impressionado com a determinação do professor de manter o foco sobre a sua arte, a ponto de sempre recusar que o seu rosto aparecesse na imprensa. Ficou surpreso em constatar que a posição política de Haacke estava ausente em geral de suas conversas e das suas aulas.

“Eu me sinto pouco à vontade em ser visto andando por aí com um punho fechado”, disse Haacke. Jason Farago, do New York Times escreveu que a mostra “não pode disfarçar o fato de que Haacke frequentemente foi considerado um ativista melhor do que um artista. Grande parte do seu trabalho recente mostra que a inspiração é escassa e é polêmico se comparado às suas realizações iniciais de crítica às instituições. Entretanto, ainda é valioso para a arte da denúncia de Haacke”.

Um dos andares da exposição é dedicado às obras dos anos 1960 que exploram os sistemas físico e natural e o impacto do ser humano sobre eles. Uma peça de 1966, por exemplo, nos permite ver um pingente de gelo crescer e encolher, dependendo da humidade emitida pelos visitantes na galeria.

Inicialmente, Haacke revelou um compromisso com a exploração dos sistemas sociais em uma palestra que deu em 1968, quando ficou profundamente abalado pela morte de Martin Luther King Jr. Diante disso, observou, os artistas só podem se dar conta da “inadequação das suas realizações para tornar a sociedade mais humana”. Desde então, ele passou a criticar a sociedade.

Em 1970, em sua participação a uma mostra do Museu de Arte Moderna intitulada Information, colocou duas caixas de votação de acrílico transparentes em uma galeria. Sobre elas, uma interrogação: “O fato de o governador Rockefeller não ter denunciado a política do presidente Nixon na Indochina seria um motivo para você não votar nele em novembro?”

Não por acaso, o governador de Nova York da época, Nelson Rockefeller, era um membro do conselho do museu, e o seu irmão mais novo, David, era o seu presidente. Os votos pelo "sim" dos visitantes do museu foram o dobro do "não". Mas a sua obra, ele afirma, ainda é e sempre será arte, não ativismo. “Evidentemente, não acredito que os artistas tenham realmente um poder significativo”, disse certa vez. “Quando muito, podem chamar a atenção”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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