Caroline Chou/@chaoticarolina
Caroline Chou/@chaoticarolina

‘Harry Potter’ e os Prisioneiros da Quarentena

No TikTok, fãs de ‘Harry Potter’ da Geração Z se inserem nos filmes em busca de escapismo, representação e sensação de comunidade

Lena Wilson, The New York Times - Life/Style

24 de dezembro de 2020 | 05h00

Caroline Chou, 19 anos, pendura uma tela verde nas paredes douradas do quarto de sua infância em San José, Califórnia. Ela já vestiu o uniforme: camisa branca de botões, saia plissada e gravata verde listrada. Uma varinha e um livro pesado estão em cima da cama, caso ela precise de acessórios. Chou, que normalmente estaria no campus da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, se ajustou a um novo normal durante a pandemia do coronavírus.

Ela passa semanas entre cursos universitários on-line e dois empregos remotos de meio período. E, nos fins de semana, ela foge para Hogwarts. Chou é uma das muitas jovens da Geração Z que encontrou seu lugar no TikTok Harry Potter, um canto do aplicativo dedicado a remixar, reencenar e carinhosamente se apropriar dessa tão querida saga. Harry Potter TikTokers produzem e devoram seus próprios vídeos, memes, danças e tendências.

Mas milhões de visualizações vão para vídeos como os de Chou, nos quais fãs – principalmente meninas e mulheres – estão se inserindo nos filmes. Essas edições muitas vezes dão aos criadores e criadoras a chance fazer cenas de romance com seus personagens favoritos, como as fanfic do Wattpad. Com cortes estratégicos ou edições mais avançadas, as usuárias podem estrelar como protagonistas cujos interesses amorosos incluem todos os personagens, desde os gêmeos Weasley a Luna Lovegood até – numa proporção esmagadora – Draco Malfoy.

As inserções nos vídeos também oferecem às jovens fãs, muitos das quais cresceram com Harry Potter, um pouco de conforto e escapismo durante a pandemia. Depois das aulas on-line, elas podem assistir a uma aula de poções. Afastadas de suas vidas sociais normais, podem fazer amizade com outros Potterheads no TikTok. E as pessoas LGBTQ e não brancas, notavelmente marginalizadas no universo de Harry Potter, podem finalmente se tornar protagonistas das histórias que tanto adoram. O cenário e o figurino são apenas duas etapas da produção de Chou.

Explicando seu universo por uma entrevista por Zoom, a aluna da Sonserina diz que vasculha o YouTube em busca de clipes dos filmes Harry Potter, coreografa suas cenas e filma a si mesma. Depois ela usa o Adobe Premiere Pro para sair de seu quarto com tela verde e entrar no campus de Hogwarts por meio de chroma key, efeito de máscara e correção de cores. O resultado final é uma montagem de 12 segundos de Chou paquerando cinco meninos de Harry Potter. Todo o processo leva cerca de duas horas, mas alguns de seus vídeos – que chegam a ter 60 segundos – podem levar até dez.

Marjorie Law, da Sonserina, é igualmente meticulosa. Em outubro, ela passou cerca de dez horas se editando no lugar de Harry em uma das primeiras cenas de Enigma do Príncipe, com capa de invisibilidade e tudo. Para Chou e Law, editar Harry Potter vale como realização de desejo e também como treino profissional.

@dovemalfoy

#pov : harry’s sister spies on draco on the train #dracotok ♬ Harry Potter - The Intermezzo Orchestra

Chou, estudante de cinema que quer ser diretora, entrou no TikTok depois que um de seus professores a encorajou a continuar criativa durante a quarentena. Ela estuda mídia digital na Otis College of Art and Design em Los Angeles e quer trabalhar com efeitos visuais. Como a maioria dos fãs de Harry Potter, as duas cresceram desejando estudar em Hogwarts. “Agora que estou mais velha, posso me ver lá, com a magia da tecnologia”, disse Law.

Criadoras como Chou, que é taiwanesa-americana, e Law, que é chinesa-americana, também adicionam mais diversidade racial aos filmes. “É uma grande oportunidade para qualquer pessoa não branca”, disse Belle Miranda, TikToker de 19 anos e uma das quase 80 mil seguidoras de Law. “Posso escrever minha própria spinoff: e se tivesse uma Ravenclaw latina na franquia?”. Quando começou a se editar nos filmes, Emelee Chanthabury, 22 anos, recebeu vários comentários que a comparavam a Cho Chang, a única personagem asiática em Harry Potter.

Chanthabury, assim como Cho Chang, é uma Ravenclaw que gosta de Cedric Diggory. Mas as duas não se parecem em nada: Chang é descendente de chineses, enquanto Chanthabury é laosiana e branca. “Foi estranho, porque nunca me vi como alguém diferente. Nunca me vi como uma personagem secundária”, explicou Chanthaburi. “Estou me vendo como uma personagem principal da história”. A experiência apresentou Chanthabury a uma comunidade de fãs como ela. “Quando passo os olhos nos seguidores e nos comentários, vejo que são todas mulheres asiáticas, e isso me traz muita alegria”, disse ela.

Erin McDonald, 19 anos, se apoiou muito nessas amizades nos últimos meses. Seus pais se mudaram de seu estado natal, Virgínia, para San Luis Obispo, Califórnia, durante seu primeiro semestre de faculdade. Então, quando a quarentena forçou McDonald a voltar para casa, ela se viu longe de seus amigos de infância, do outro lado do país. McDonald encontrou consolo no TikTok, ganhando rapidamente mais de 120 mil seguidores por seus vídeos de romance com o capitão de quadribol Oliver Wood. Ela e Chanthabury têm uma série de vídeos em produção com sua amiga, Mia Oberholzer, 19 anos, uma sonserina de Saskatoon, Saskatchewan. Outro grupo de amigas de TikTok de McDonald, o ‘Harry Potheads’, é formado principalmente por adolescentes mais jovens.

Elas a chamam de Papa Ernie, e o grupo se encontra no Zoom todas as noites. Sempre Lufa-Lufa, McDonald disse que sua coisa favorita no TikTok do Harry Potter era sua avassaladora positividade. Quando ela se viu involuntariamente no centro de uma polêmica entre fãs em outubro, a questão foi resolvida sem ressentimentos. Em outra conta, ela publica edições de cenas de Harry Potter nas quais vários personagens a encorajam a se recuperar de um distúrbio alimentar.

Como bissexual, McDonald disse que também queria criar mais espaço para fãs como ela, especialmente diante do que alguns veem como tentativas fracas de representação gay da autora de Harry Potter, JK Rowling. Os comentários recentes de Rowling sobre pessoas transgênero também estimularam legiões de fãs a se apropriarem de Harry Potter.

@ernmcnugget

lowkey simp for draco n oliver but hadnt seen a wlw version yet and emma watson is#wlw #hermione #draco #harrypotter ♬ give ur fav couple the hype - WOWBREY

Se muitas outras fãs se derretem por Malfoy, McDonald foi uma das primeiras usuárias a editar as cenas para narrar um relacionamento com Hermione Granger. Várias criadoras seguiram o exemplo, entre elas Beth McAlpine, uma Lufa-Lufa de 16 anos de Londres. “É tipo consertar uma parte da sua infância que estava faltando”, disse McAlpine.

A atração dos confortos da infância anda especialmente forte para os jovens americanos de hoje. Diante de incertezas avassaladoras, a Geração Z está fugindo de nosso mundo para a segurança de Harry Potter. De todos os vídeos que Oberholzer fez para seus mais de 226 mil seguidores, o mais visto mostra ela passando o Natal com os Weasleys. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

The New York Times Licensing Group - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito do The New York Times

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.