Adam Glanzman para The New York Times
Adam Glanzman para The New York Times

Haverá empatia em um mundo habitado pela inteligência artificial?

As fronteiras entre o ser humano e a máquina estão pouco claras

Robb Todd, The New York Times

09 Setembro 2018 | 10h00

É difícil saber se a tecnologia está contribuindo para o progresso da nossa humanidade, se está tornando-a algo indefinido ou arrancando-a de nós. Ou talvez as três coisas juntas.

Andy Clark, professor de Lógica e Metafísica na Universidade de Edimburgo na Escócia, escreveu no jornal “The Times” que nós chegamos a “um momento que deve ser aproveitado, embora possamos distinguir novos sinais de alerta e cautela no que se refere à rapidez, à natureza e à abrangência destas mudanças.”

Tais mudanças, ele disse, incluem a inteligência artificial (I.A.) que suplanta o ser humano, dispositivos que ajudam a superar os danos e robôs que oferecem companheirismo e sexo.

“Tudo isto torna indistintas as fronteiras entre o corpo e a máquina, entre a mente e o mundo, entre realidades comuns, ampliadas e virtuais, e entre o humano e o pós-humano”, escreveu. Habitar este mundo, acrescentou, significa viver em um ambiente mais “marcado pela possibilidade, pela fluidez, pela mudança e pela capacidade de negociar do que por imagens ultrapassadas de naturezas e capacidades fixas”.

Entretanto, esta tecnologia nos obriga a examinar nossos valores humanos, escreveu Sherry Turkle, professora do Massachusetts Institute of Technology (MIT), no “The Times”, que vê com ceticismo a I.A. - não a inteligência artificial, mas a intimidade artificial. Segundo ela, ensinar as pessoas a interagirem emocionalmente com as máquinas produzirá consequências, porque elas não podem corresponder autenticamente.

“Estes robôs podem apresentar empatia em uma conversa sobre seu amigo, sua mãe, seu filho ou seu amante, mas não têm nenhuma experiência com qualquer uma destas relações”, afirmou Sherry. “As máquinas não conheceram o arco de uma vida humana. Nada sentem a respeito da perda ou do amor humano que descrevemos para elas”.

Como elas são programadas para parecerem mais enfáticas, prosseguiu, as crianças perderão sua capacidade de se identificarem se interagirem com elas com maior frequência, porque elas constituem “um beco sem saída em termos de empatia”.

“Nós diminuímos enquanto a aparente empatia da máquina cresce”, acredita. “É a tecnologia nos obrigando a esquecer o que conhecemos a respeito da vida”. Sermos humanos hoje, acrescentou, “tem a ver com a nossa luta para nós permanecermos sensíveis”.

É uma luta que vale a pena travar, segundo Dan Ariely, autor e professor de Psicologia na Duke University, na Carolina do Norte. A empatia é um dos traços que nos definem. Mas ela tem também um lado obscuro.

“Como a nossa capacidade de nos preocuparmos com os outros se revela quando estamos expostos ao sofrimento, e como por instinto procuramos evitar a dor, somos frequentemente tentados a fugir justamente da característica que nos torna humanos: a preocupação com o outro”, afirmou Ariely no “The Times”.

Abandonar a empatia para evitar o sofrimento é uma reação bastante comum, que alguns buscam no que não é humano, uma clara contradição. Sherry Turkle contou a história de uma menina de 16 anos que achou os outros tão decepcionantes a ponto de ver em um robô uma alternativa melhor.

“Há pessoas que tentaram fazer amigos, mas sofreram tanto que desistiram”, ela disse a Sherry. “Por isso, quando ouvem falar da possibilidade de um robô como companheiro, é porque um robô simplesmente não vai embora, não nos deixa ou coisas assim”.

A história da menina tem a ver com as consequências quando renunciamos à empatia, que Ariely chama de nosso “fantástico superpoder”.

“Que versão da humanidade iremos escolher individualmente ou coletivamente?” perguntou. “Abriremos os nossos olhos para a dor dos outros, e com isto sentiremos a necessidade de fazer algo para ajudar? Ou simplesmente nos sentiremos melhor se desviarmos o nosso olhar?”

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