Jason Henry para The New York Times
Jason Henry para The New York Times

Herdeiro da dinastia Bhutto vive conflito entre a política e o ativismo

Neto de Zulfikar Bhutto, que governou o Paquistão durante os anos 1970, Zulfikar Ali Bhutto explora a relação entre islã e homossexualidade

Saira Khan, The New York Times

11 Março 2018 | 10h00

O vídeo, publicado na internet em meados do ano passado, não fora pensado como a história de quando Zulfikar Ali Bhutto saiu do armário. Começa com a voz de um homem narrando ironicamente um encontro fictício no qual se pede a ele que desembarque de um avião por "falar árabe". As palavras "Queer Muslim Proud" ("muçulmano gay orgulhos, em tradução livre) aparecem na tela, seguidas por uma introdução ao tema. 

Enquanto uma plateia o aplaude numa casa noturna escura, Bhutto aparece num vestido sedoso, dançando ao som do sucesso dos anos 1980, "Disco Deewane", da cantora paquistanesa Nazia Hassan. Ele dança e ensaia diferentes passos, com o cabelo preso num lenço cor de rosa, a maquiagem azul envolvendo os olhos até as sobrancelhas.

O público sul-asiático talvez não tenha reconhecido o rosto de Bhutto, mas certamente conhecia seu nome. Em seu país natal, Paquistão, a imprensa acompanhou com voracidade o lançamento do curta-metragem. O foco (negativo) da reação foi o fato de ele ser um muçulmano homossexual. "Talvez eu tenha sido um pouco ingênuo", disse Bhutto, 27 anos, que vive em San Francisco. "Fazia tanto tempo que eu vivia com discrição que não imaginei que as pessoas se importariam tanto assim".

Boa parte da obra de Bhutto enquanto artista visual e performático explora a interseção entre Islã, sexualidade e masculinidade. Mas a razão pela qual o vídeo continua fomentando controvérsias é o fato de ele ser neto de Zulfikar Ali Bhutto, fundador do Partido Popular do Paquistão, partido de esquerda que governou o país em vários períodos desde 1967.

Depois de comandar o país por boa parte dos anos 1970, o Zulfikar Bhutto avô foi deposto num golpe militar e executado em 1979. Três de seus filhos que participaram da política, principalmente a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, também tiveram posteriormente fins violentos.

Bhutto tinha 6 anos quando o pai, Murtaza, foi morto num caótico tiroteio com a polícia do lado de fora da casa da família em Karachi. Embora diga que a família nunca o pressionou para participar da política, ele é considerado por muitos paquistaneses o sucessor da dinastia da família. Ele, no entanto, diz não ter interesse em voltar ao país.

No Paquistão, o sexo entre pessoas do mesmo gênero é proibido por lei. Não há leis de combate à discriminação para proteger os cidadãos gays e transgênero, embora o senado tenha aprovado recentemente legislação permitindo às pessoas trans o direito de escolher o gênero sem a necessidade de se submeter a um conselho médico.

Quando Bhutto veio aos Estados Unidos em 2014 para conseguir um diploma em belas artes no Instituto de Arte de San Francisco, ficou chocado com uma série de anúncios antimuçulmanos nos ônibus municipais. Mas foi outro ato de ódio que o levou a limitar sua identidade gay à arte.

No dia 12 de junho de 2016, Omar Mateen, um americano muçulmano, matou 49 pessoas numa boate gay em Orlando, Flórida. Rumores segundo os quais Mateen seria secretamente homossexual abriram o debate a respeito do tema no Islã. Ficou claro para Bhutto que "as pessoas pensam que a pessoa não pode ser homossexual e muçulmana ao mesmo tempo, como se essas duas coisas estivessem em oposição uma à outra".

Com o tempo, Bhutto começou a pensar em performances que lidassem com sua bagagem religiosa e cultural. Sua série "Mussalmaan Musclemen", que usa diferentes suportes, busca "criar uma confusão interessante para o espectador", por meio da sobreposição de tecidos baratos do Paquistão com fotos de uma tradução em Urdu de um manual de exercícios.

“Há algumas ideias equivocadas em relação ao que o Islã representa e a ameaça que os homens muçulmanos trazem", disse ele.

A exposição dele no Centro Cultural SOMArts, em San Francisco, "The Third Muslim: Queer and Trans Muslim Narratives of Resistance and Resilience", que ele organizou com Yas Ahmed, também artista, "lida com a representação do Islã e dos muçulmanos em todo o mundo, mas por meio do olhar homossexual", disse Bhutto.

Ao menos nos Estados Unidos, segundo Bhutto, "hoje em dia, identificar-se como muçulmano é ainda mais difícil do que identificar-se como homossexual, por mais engraçado que pareça".

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