Aviron Pictures
Aviron Pictures

Heroínas esquecidas de Hollywood: correspondentes de guerra

Filme 'A Private War', sobre a jornalista Marie Colvin, é um dos poucos a se concentrar em mulheres que atuam nessa área

Melena Ryzik, The New York Times

02 Novembro 2018 | 06h00

Aquela voz ficou marcada em Rosamund Pike. Para o novo filme “A Private War” (Uma Guerra Particular, em tradução livre), a atriz britânica transformou seu sotaque esnobe de bocas arredondadas com os inconfundíveis erres americanos para encarnar Marie Colvin, uma jornalista criada em Long Island que vivia em Londres e foi morta na Síria, em 2012. Em situações difíceis, Rosamund ainda imagina como seria se ela usasse o mesmo tom da personagem, que sugere uma mulher realizadora.

Aquela voz, juntamente com o tapa-olho que Marie usava após perder um olho na explosão de uma granada, no Sri Lanka, se tornou seu cartão de visitas quando ela era enviada para zonas de guerra em todo o mundo, escrevendo corajosas reportagens para o Sunday Times, de Londres. “A Private War”, atualmente em fase de lançamento limitado, tem o objetivo de retratar, com realismo, as lutas dela e explicar por que ela persistiu.

De certas maneiras, a história de Marie é perfeita para a tela do cinema: a ascensão até se tornar uma correspondente internacional que relatou conflitos no Oriente Médio, nos Bálcãs e outros lugares; a coragem em entrar em territórios hostis para registrar o custo das guerras entre os civis; e, por fim, a morte enquanto cobria uma furiosa batalha em Homs. Ela era inegavelmente destemida, mas sofria de transtorno de estresse pós-traumático e de outras enfermidades por ter testemunhado tanto sofrimento. Era também espirituosa e elegante: uma heroína de cinema natural.

Mulheres como Marie - e as que a precederam, como a correspondente britânica Clare Hollingworth, que revelou a 2.ª Guerra Mundial à Europa, e pioneiras do fotojornalismo como Gerda Taro e Dickey Chapelle - estão na linha de frente de conflitos há mais de um século, produzindo ricos materiais, e têm histórias pessoais fascinantes.

Ainda assim, “A Private War” é uma das poucas produções de Hollywood que colocam o foco diretamente numa mulher correspondente de guerra em campo - talvez somente o terceiro ou quarto filme do tipo em décadas. Por outro lado, dezenas de fitas contaram histórias de homens jornalistas no exterior, afirmou Matthew Ehrlich, autor de “Journalism in the Movies”.

No documentário feito para TV “Bearing Witness”, de 2005, que retrata mulheres jornalistas de guerra, Marie dá um depoimento sobre o idealismo que a movia. A guerra “é o que ninguém quer que aconteça com as pessoas, e ainda assim acontece”, disse ela na ocasião. “É isso que tentamos testemunhar. Isso me faz pensar que podemos, às vezes, fazer a diferença - ou, de algum jeito, tentar”, afirmou.

A autenticidade foi fundamental para o diretor, Matthew Heineman. “Para mim, o filme é tanto uma homenagem à Marie quando uma homenagem ao jornalismo”, disse ele. Heineman ganhou fama com documentários como “City of Ghosts” (2017), a respeito de jornalistas engajados que combatiam o Estado Islâmico na Síria, e “Cartel Land” (2015), indicado ao Oscar, que confrontava o comércio de drogas o México. Atuou como câmera nas produções, filmando em situações por vezes perigosas. Por isso, identificou-se com a maneira com a qual Marie perseguia seu objeto.

“Depois de sentir aquela descarga de adrenalina, aquele mesmo desejo louco e relutante de querer estar naqueles lugares, contar aquelas histórias e, simultaneamente, o sentimento bizarro de voltar para casa”, afirmou e concluiu: “eu tinha de fazer esse filme.”

Ele encontrou um guia em Paul Conroy, fotógrafo de Marie há longa data, que a acompanhava quando ela morreu e ficou, ele mesmo, gravemente ferido na ocasião. Para “A Private War”, Conroy, que é representado por Jamie Dornan (Cinquenta Tons de Cinza), foi diariamente ao set de filmagem atuar como conselheiro.

Nos seis anos que se passaram desde a morte de Marie, pelo menos 500 mil pessoas foram mortas na Síria. Dada a carnificina, é difícil de imaginar que uma única história fizesse diferença. Marie se agarrava à esperança de que faria: em sua reportagem final, para a CNN, horas antes de ser morta, ela contou a história da morte de um bebê sírio.

“Acho que ela acreditava, como eu acredito, que, para fazer com que as pessoas se importem realmente, você tem que contar histórias de pessoas”, afirmou Heineman. “E acho que isso era algo que a atormentava - e me atormenta também: as pessoas se importam? As pessoas se importarão? Isso vale a pena?”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.