Pete Ryan
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Hiato de partidas levanta debate sobre trapaças no esporte

"Não importa qual seja o jogo. Quando há benefícios ao ganhar, você trapaceia", disse presidente da FIDE, órgão governamental de xadrez

Alan Mattingly, The New York Times

22 de março de 2020 | 06h00

Os estádios estão vazios, assim como as quadras de basquete, as pistas de hóquei e muitos outros lugares onde as pessoas normalmente se reúnem para competir. Mas no mundo dos esportes, como em todos os lugares, hoje não é um dia normal. John Branch, jornalista esportivo do Times, acredita que pode haver um lado bom no hiato. Dado o grande papel na sociedade, ele admite, o esporte se tornou "talvez uma obsessão doentia".

"Talvez isso seja uma reinicialização, uma limpeza para retardar ou recalibrar nosso metabolismo", escreveu Branch. "Talvez, quando tudo acabar, seremos estranhamente gratos à desintoxicação cultural." Uma limpeza ética também pareceria adequada. Nos Estados Unidos, a principal liga de beisebol, a Major League Baseball (MLB), estava programada para abrir sua temporada em 26 de março, mas um adiamento até pelo menos maio dará aos fãs mais tempo para discutir sobre o grande assunto na entressafra: a trapaça pelo Houston Astros quando venceram a World Series em 2017.

As consequências desse escândalo, que envolveu o uso de câmeras para decifrar os gestos de catchers, arremessadores e técnicos adversários, estiveram presente nas conversas sobre beisebol por meses, mas, como Joe Drape escreveu no The Times, o caso dificilmente foi uma exceção.

"Para os adeptos do esporte sem trapaças, isso parecia apenas mais uma arma poderosa que atletas, equipes e organizações usavam para vencer jogos e contornar a política do jogo limpo", escreveu ele, enumerando alguns exemplos dos últimos anos: doping por atletas olímpicos russos, um teste de drogas positivo envolvendo um cavalo vencedor da Triple Crown e diversas "travessuras" pelo seis vezes campeão do Super Bowl, o New England Patriots.

Por mais discreto que seja tudo isso, seria difícil superar a jogada suja no xadrez, onde a trapaça é assumida. Jogadores em torneios ao vivo não podem trazer um telefone e devem passar por detectores de metal. Alguns são revistados após serem solicitados a remover roupas. A suspeita é que alguém esteja assistindo a partida remotamente, executando movimentos pelo computador e enviando sinais para um jogador.

Esquemas elaborados são suspeitos. David Waldstein, em artigo para o The Times, descreveu uma das partidas da Olimpíada de Xadrez de 2012 na Rússia assim: “A equipe francesa foi acusada de enviar mensagens de texto para colegas de equipe, que ficavam em lugares previamente combinados na galeria. A localização deles era supostamente o sinal para um jogador jovem e inexperiente."

“Em 1978, Viktor Korchnoi acusou Anatoly Karpov de trapacear com iogurte de mirtilo. Depois que Karpov recebeu o iogurte roxo de um garçom durante a partida, Korchnoi ficou preocupado que o sabor fosse um sinal de alguém do lado de fora.” Arkady Dvorkovich, presidente da FIDE, órgão governamental de xadrez, disse que esse comportamento era inevitável, seja no xadrez ou no beisebol. "Não importa qual seja o jogo", disse ele, "quando há benefícios ao ganhar, você trapaceia".

Talvez esse seja o caso para adultos, mas pode ser um comportamento aprendido. F. Clark Power, o fundador do Play Like a Champion, um programa americano que promove a educação por meio do esporte, vê algo diferente ao observar crianças brincando de esconde-esconde. "Todos sabem que, para ter um jogo justo, é preciso manter os olhos fechados enquanto se conta", disse ele. "Precisamos entender que, se vamos apoiar a trapaça como um meio para um fim, as crianças estão observando." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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