Sergey Ponomarev para The New York Times
Sergey Ponomarev para The New York Times

Hidrelétricas colocam em risco modo de vida de comunidades na Ásia

Enquanto a China avança em seu território, vizinho são inundados

Hannah Beech, The New York Times

01 de novembro de 2019 | 06h00

Quando os chineses chegaram ao vilarejo de Lat Thahae, incrustado em uma curva lamacenta de um afluente do Rio Mekong, eles rabiscaram um caractere chinês nas paredes de residências, escolas e templos budistas.

Ninguém nesta isolada aldeia do norte do Laos conseguia entender o que o aviso queria dizer. Mas o caractere significa “demolição" - o destino de centenas de comunidades ao longo do maior rio da Ásia resumido em uma única palavra estrangeira.

Uma moradora de Lat Thahae, See, que não tem sobrenome, afirmou que não estava satisfeita com a oferta da Sinohydro Corporation, a maior construtora chinesa de hidrelétricas fora da China, de construir para ela uma cabana de bambu a quilômetros dali.

“Tenho que me mudar porque eles disseram para eu me mudar”, afirmou ela. “Nossa vida no rio acabou.”

O Rio Mekong e seus afluentes estão sendo remodelados pelo poder de desenvolvimento de potências estrangeiras como a China. Onze hidrelétricas foram projetadas para o baixo Mekong, além de pelo menos 300 outras em rios de sua bacia.

Para os governos da região, as hidrelétricas supostamente trariam a salvação econômica. Autoridades chinesas e empresas esperam que a construção de novas hidrelétricas e da infraestrutura que as acompanha compense o baixo crescimento da economia da China e confira a esses países um modelo para que consigam sair da pobreza.

Conforme os planos de represamentos no baixo Mekong ganhavam força, no início dos anos 2000, a Comissão do Rio Mekong estimava que seus quatro membros - Laos, Tailândia, Camboja e Vietnã - aufeririam US$ 30 bilhões em benefícios. Mas uma reavaliação feita anos depois pela mesma comissão produziu uma previsão diferente: as economias dos países do baixo Mekong perderiam US$ 7 bilhões se os planos de hidrelétricas fossem adiante.

Com os fluxos de água mudando à medida que as usinas acionam suas turbinas, pescadores, camponeses e ecossistemas locais sofrem. Uma pesquisa da comissão descobriu que, se todas as hidrelétricas planejadas para o Mekong forem feitas, 97% do sedimento que flui na direção da foz do rio poderia ficar bloqueado até 2040, exaurindo a terra dos nutrientes necessários para a agricultura.

Os planos de represamentos no Mekong ocorrem ao mesmo tempo que megaprojetos de infraestrutura se tornam mais raros pelo mundo. Atualmente, cientistas ocidentais consideram as energias solar e eólica fontes mais sustentáveis.

Os cientistas também têm dúvidas a respeito da capacidade da região de consumir toda a energia que o Laos pretende produzir. O país nunca necessitaria de tanta energia, e a vizinha Tailândia já possui abundância de fornecimento. 

Mais do que qualquer outro país, o Camboja se nutre do Mekong. Cerca de 80% da proteína que os 16 milhões de habitantes do país ingerem são produzidos na bacia do rio. 

Uma única hidrelétrica no Mekong proposta para o Camboja, em Sambor, poderia produzir mais energia do que o país consome atualmente.

Mas uma hidrelétrica em Sambor poderia “literalmente matar o Rio Mekong e devastar a economia do Camboja”, de acordo com um estudo encomendado pelo governo cambojano ao Natural Heritage Institute, uma ONG americana de defesa da natureza.

Sessenta por cento do sedimento necessário para nutrir os campos de arroz no delta do Mekong poderiam ser bloqueados pela hidrelétrica em Sambor, alertou o relatório. A barragem “criaria uma barreira total para os peixes migratórios”.

Em vez disso, o instituto recomendou a instalação de painéis solares flutuantes em um reservatório de água já existente para mitigar a escassez de eletricidade no Camboja. 

A hidrelétrica Lower Sesan 2, a maior do Camboja, foi construída em um afluente do Mekong, a um custo de US$ 800 milhões. Suas turbinas, fabricadas na China, começaram a rodar em dezembro, e seu lago inundou cinco vilarejos quando encheu.

Habitantes do vilarejo inundado de Srekor se mudaram, mas suas novas casas ficam longe do rio que os sustentava. No novo local, a escola de ensino médio carece de professores e a clínica carece de médicos. A eletricidade é cara, o que os incomoda, já que eles foram despejados para dar lugar a uma usina de energia, afirmam os moradores. E não há água tratada.

“Nosso rio era como um deus para nós”, afirmou Chin, um dos reassentados. “Fico triste porque o matamos.” Sun Narin colaborou com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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