Zoran Marinovic para The New York Times
Zoran Marinovic para The New York Times

Hidrelétricas ameaçam cultivo de ostras nos Bálcãs

A construção de uma barragem no rio Neretva pode afetar drasticamente a colheita na baía de Mali Ston, na Croácia

Marc Santora, The New York Times

12 de janeiro de 2019 | 06h00

MALI STON, CROÁCIA - "A ostra tem uma vida horrível, mas excitante", observou M.F.K. Fisher em seu clássico livro sobre estes moluscos, "cheia de estresse, paixão e perigo”. Em outras palavras, a ostra combina perfeitamente com a conturbada região dos Bálcãs.

Em seus 62 anos nesta tumultuada parte do mundo, a vida de Bode Sare tem sido tão repleta de acontecimentos quanto a de uma ostra. Sare foi membro da resistência, contrabandista de armas, dono de um café e foi para a cadeia (duas vezes). Agora, proprietário de restaurantes de frutos do mar muito respeitado na Croácia, ele defende o cultivo de ostras na região e faz parte de uma cooperativa de 75 criadores que têm fazendas de ostras na baía de Mali Ston, na costa meridional do Mar Adriático.

Durante guerras e revoluções políticas, a colheita de ostras sofreu interrupções, mas nunca cessou. Entretanto, é provável que os criadores logo se defrontem com a ameaça da corrida dos países dos Bálcãs para adotar a energia hidrelétrica. Nesta região, que ainda depende consideravelmente do carvão, a energia hidrelétrica oferece uma alternativa relativamente limpa e barata. Nos Bálcãs ocidentais, estão em andamento, ou em projeto, cerca de 3 mil projetos de usinas hidrelétricas.

Os criadores de ostras da baía estão preocupados com a possibilidade de que alguns desses empreendimentos provoquem o represamento do rio Neretva, que nasce na Bósnia, passa pela Croácia e deságua na baía.

Um plano recente de construção de uma barragem no rio, ainda na Bósnia, foi abandonado, mas muitos temem que a medida seja apenas temporária. A Bósnia ainda está separada em duas partes em razão de divisões étnicas - a República Sérvia e uma Federação muçulmano-croata da Bósnia e Herzegovina. As decisões políticas frequentemente são tomadas de acordo com linhas étnicas, e há escassa preocupação com a nação como um todo.

A mescla peculiar de nutrientes na baía de Mali Ston - o sal do mar misturado com a água doce dos rios - proporciona o sabor fresco, equilibrado das ostras locais, apreciadas desde que os tempos em que os imperadores romanos criaram aqui as primeiras fazendas. A família de Mario Radibratovic, por exemplo, dedica-se à criação de ostras há mais de 500 anos. Atualmente, Mario é membro de uma cooperativa de produtores de ostras, e teme por elas.

"As ostras precisam da água doce do rio", disse.

Mali Ston e a cidade vizinha de Ston foram construídas como fortalezas na Idade Média e tornaram-se renomadas pela Grande Muralha de 5,6 quilômetros de extensão que serpenteia ao seu redor. Nos dias anteriores à guerra, segundo Sare, havia muitos turistas para alimentar.

Seu império começou em 1980, quando ele abriu um café na baía. Logo, ganhou muito dinheiro com um restaurante e chamou a atenção do governo. Mas Sare recusou-se a dar descontos às autoridades, então, acabou na cadeia. 

Anos mais tarde, veio a guerra. Sare pegou em armas e aderiu aos nacionalistas croatas; novamente foi preso por um breve período, por contrabandear armas. Desde então, tornou-se um dos restaurateurs mais bem-sucedidos da Croácia, expandindo seus negócios até Split, Dubrovnik e Zagreb. Mas a sua paixão continuam sendo as ostras.

"As ostras não sabem nada de nacionalidades ou de etnicidades. Mas os políticos? Estes fazem fortunas dividindo o povo", comentou.

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