Diego Ibarra Sanchez para The New York Times
Diego Ibarra Sanchez para The New York Times

Medo e caça colocam em risco as hienas-riscadas

Envenenado, atropelado e morto a tiros, o animal símbolo do Líbano se vê ameaçado por seres humanos assustados e mitos antigos

Helen Sullivan, The New York Times

15 de novembro de 2019 | 06h00

KFAR TOUN, LÍBANO - Perto da meia-noite, Mounir Abi-Said sentou-se no teto de seu Land Rover e apontou uma lanterna para a escuridão, procurando por hienas-riscadas. Abi-Said, um biólogo conservacionista e especialista em hienas-riscadas, da Universidade Libanesa, em Beirute, estava nas imediações de Kfar Toun, um vilarejo a 40 minutos da fronteira com a Síria. Nas primeiras horas da madrugada, a lanterna iluminou dois pares de olhos de hienas. Mas eles se fecharam quase que imediatamente e não reapareceram.

A hiena-riscada é o animal nacional do Líbano. Menor do que a hiena-malhada, da África Subsaariana, ela possui uma proeminente crina preta e branca. É uma parte importante do ecossistema: um decompositor, equipado com um formidável sistema imunológico que lhe permite consumir com segurança carne podre e evita que se contamine com qualquer doença.

Mas as hienas-riscadas são esquivas, pouco estudadas e não exatamente queridas. No Líbano, as pessoas atiram nelas por medo e as caçam por esporte, apesar de ambas as atividades serem ilegais. No Norte da África e em outros lugares do Oriente Médio, onde as hienas-riscadas também são encontradas, os animais são atropelados, envenenados e usados em medicamentos tradicionais.

Abi-Said passou grande parte de carreira tentando mudar a atitude dos libaneses em relação às hienas. Sua tese de doutorado, publicada uma década atrás, foi o primeiro grande estudo sobre as interações ecológicas das hienas e sua distribuição no Líbano. Ele e a mulher, Diana, mantêm um centro chamado Encontros com Animais, uma reserva de vida selvagem que conta com um pequeno zoológico, próximo a Beirute.

O conflito determinou as vidas desses animais. Riscadinha, uma hiena-riscada fêmea, nasceu na reserva em 2006, mas a guerra naquele ano entre Israel e o Hezbollah evitou que ela fosse solta em ambiente selvagem. Dezenove de seus irmãos, de ninhadas anteriores, foram devolvidos à natureza, mas Riscadinha ficou acostumada demais ao cativeiro e agora é o mascote do centro.

No Líbano, afirmou Abi-Said, pais assustam os filhos batendo as unhas nos criados mudos ao lado das camas, imitando o ruído de garras de hienas caminhando: “A hiena vai te pegar se você não for dormir”. Alguns acreditam que as hienas usam suas listras para nos hipnotizar e atrair para seus covis, para então nos fazer cócegas até nos matar.

Restam menos de 10 mil hienas-riscadas na natureza. A União Internacional para a Conservação da Natureza as classifica como ameaçadas quase globalmente, com os números em queda. A entidade está conduzindo atualmente a maior pesquisa global sobre as quatro espécies de hiena - malhada, riscada, castanha e lobo-da-terra - desde os anos 1990. Os dados são fáceis de obter para todas as espécies, exceto a hiena-riscada.

As hienas-riscadas são especialmente difíceis de monitorar porque são noturnas, vivem sozinhas ou em pares e preferem habitats inacessíveis. Elas raramente matam gado, mas gostam bastante de melões, que utilizam como fonte de água. Agricultores frequentemente acham que hienas em busca de frutas estariam caçando seu gado. Não há estimativas confiáveis sobre o número de hienas-riscadas selvagens no Líbano, mas é provável que seja de poucas centenas.

A organização Animais do Líbano, que luta pelo bem estar animal, estabeleceu como meta proteger hienas selvagens da captura. A entidade tentou recentemente resgatar três hienas-riscadas de um zoológico privado no sul do Líbano. O dono do zoo tinha pago US$ 800 por cada hiena, mas a Animais do Líbano o convenceu a entregar os bichos. As hienas foram examinadas por Ian Sayers, um veterinário recrutado pelo grupo de Abi-Said.

Uma hiena mais velha foi avaliada, recebeu antibióticos e foi deixada no zoo, onde poderá permanecer por mais alguns meses. Por causa dos protestos anticorrupção no país, o governo não emitiu a autorização necessária para que ela fosse levada a uma reserva na França.

Duas hienas jovens, porém, chamadas Liberdade e União, em honra aos protestos, foram colocadas em uma jaula no porta-malas de uma van. Duas horas de estradas esburacadas e sinuosas depois, o veículo chegou à Reserva de Biosfera Shouf, um refúgio no alto das montanhas.

A van foi estacionada, e as hienas foram deixadas sozinhas, para se acalmar depois da jornada. A jaula foi levada para o ar fresco. Quando foi colocada no chão, os filhotes começaram a rosnar e se engalfinhar. Os humanos respiraram fundo, a jaula foi aberta, e Liberdade e União partiram em disparada. Elas não olharam para trás. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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