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Hipotensão ortostática: tontura ao se levantar pode causar quedas e fraturas

A hipotensão ortostática também é um fator de risco para ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais

Jane E. Brody, The New York Times - Life/Style

12 de setembro de 2020 | 05h00

Hipotensão ortostática: para muitas pessoas, estas são palavras desconhecidas para um problema médico relativamente comum, mas muitas vezes despercebido, que pode ter consequências devastadoras, em especial para adultos mais velhos. Elas se referem a uma queda breve mas abrupta da pressão arterial que causa tontura ou vertigem quando a pessoa se levanta depois de um tempo deitada ou sentada e, às vezes, mesmo depois de algum período em pé.

O problema costuma acometer pessoas de todas as idades que ficaram de cama por causa de alguma lesão, doença ou cirurgia. Também é frequente durante a gravidez. Mas os adultos de meia-idade e mais idosos são os mais afetados. Um número significativo de quedas e fraturas, principalmente entre os idosos, provavelmente resulta da hipotensão ortostática – literalmente, pressão arterial baixa quando de pé.

Muitos idosos caíram e quebraram a bacia ao se levantarem da cama pela manhã ou ainda à noite para usar o banheiro, precipitando um declínio da saúde e uma perda de independência como resultado dessa queda da pressão arterial. A hipotensão ortostática também é um fator de risco para ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais e até acidentes com veículos motorizados.

Pode ser um sinal de alerta para graves distúrbios cardiovasculares ou neurológicos subjacentes, como um problema na válvula cardíaca, cujo curso pode ser alterado se detectado logo no começo. Mas, como observou uma equipe de especialistas, embora a hipotensão ortostática seja um distúrbio “altamente prevalente, muitas vezes não é identificado até o final do percurso clínico”.

Em circunstâncias normais, quando nos levantamos, a gravidade faz com que o sangue se acumule temporariamente na metade inferior do corpo; então, em 20 ou 30 segundos, os receptores no coração e nas artérias carótidas no pescoço acionam um mecanismo de compensação chamado barorreflexo, o qual aumenta a frequência cardíaca e contrai os vasos sanguíneos para aumentar a pressão sanguínea e fornecer um suprimento adequado de sangue ao cérebro.

Em pessoas com hipotensão ortostática, esse mecanismo reflexo é retardado ou insuficiente, resultando em sintomas como tontura, vertigem, palpitações, visão turva, fraqueza, confusão ou desmaio. O distúrbio é definido oficialmente como uma queda na pressão arterial sistólica (o número superior) de mais de 20 milímetros de mercúrio ou uma queda de mais de 10 na pressão diastólica (o número inferior) dentro de 3 minutos depois de a pessoa ficar em pé.

No entanto, um estudo com 11.429 adultos de meia-idade acompanhados por até 23 anos revelou que as medições da pressão arterial feitas durante 1 minuto depois de a pessoa ficar em pé estavam ainda mais fortemente relacionadas a tonturas, quedas, fraturas, acidentes com veículos motorizados e mortes do que os registros feitos depois de três minutos.

“Alguns pacientes se recuperam e você pode perder o problema quando espera 3 minutos para medir a pressão arterial”, disse Stephen P. Juraschek, clínico do Beth Israel Deaconess Medical Center em Boston e professor assistente de medicina na Harvard Medical School, que dirigiu o estudo. Ele disse que, embora a hipotensão ortostática seja comumente considerada um problema neurológico, “ela está associada a muitas patologias cardiovasculares subclínicas, que provavelmente são as que mais contribuem para o problema”.

Por outro lado, os sintomas de hipotensão ortostática às vezes são retardados, aparecendo depois dos 3 minutos em pé. Em um estudo que se desenrolou por mais de dez anos, Christopher H. Gibbons e Roy Freeman, neurologistas do Beth Israel Deaconess Medical Center, descobriram que essa forma retardada e mais branda progride com o tempo e está associada ao desenvolvimento de diabetes, distúrbios neurológicos e aumento da mortalidade.

Em uma entrevista, Gibbons disse que a hipotensão ortostática pode ser “um sinal pré-sintomático do mal de Parkinson, da demência e de outros distúrbios do sistema nervoso autônomo” para os quais estão sendo estudados tratamentos com drogas, na esperança de desacelerar sua progressão. A hipotensão ortostática também pode ter uma causa ocasional menos nefasta, como desidratação ou superaquecimento.

Ou pode ser precipitada por uma queda do açúcar no sangue ou pela ingestão de uma grande refeição, especialmente quando acompanhada de álcool. Mas, se uma doença cardíaca, distúrbio neurológico ou endócrino for a causa subjacente, é provável que a hipotensão ortostática ocorra com mais frequência.

Certos medicamentos, incluindo aqueles usados para tratar de pressão alta, depressão, psicose, disfunção erétil, mal de Parkinson, micção frequente em homens e espasmos musculares, podem aumentar o risco de uma queda abrupta da pressão arterial ao se levantar.

Por exemplo, disse Gibbons, os diuréticos prescritos para tratar a hipertensão às vezes são “problemáticos” e podem ser substituídos por medicamentos com menor probabilidade de causar uma queda no volume sanguíneo que limite a capacidade do corpo de se ajustar à posição em pé.

Lewis A. Lipsitz, geriatra e diretor do Marcus Institute for Aging Research em Boston, disse que pessoas com pressão arterial especialmente alta são mais suscetíveis à hipotensão ortostática, porque a hipertensão prejudica a capacidade do coração de bombear sangue, engrossa os vasos sanguíneos que então não conseguem se contrair e prejudica a função renal. “Quanto mais alto você está, mais você cai”, disse ele. Lipsitz disse: “Todo paciente sob medicação para baixar a pressão arterial deve fazer testes periódicos para hipotensão ortostática durante as visitas de rotina ao consultório”.

Ele sugeriu que os pacientes se deitem por 3 a 5 minutos e, em seguida, passem por verificações repetidas da pressão arterial, nos primeiros 20 a 30 segundos, após 1 minuto e novamente após 3 minutos em pé. Ele explicou que, quando uma pessoa levanta “dois litros de sangue ficam nas pernas e na barriga”, mas, em pessoas mais velhas, o aumento da frequência cardíaca e a constrição dos vasos sanguíneos necessários para compensar o efeito é menos eficaz.

Entre os tratamentos recomendados estão o uso de meias de compressão e de uma cinta abdominal para reduzir o acúmulo de sangue ao se levantar. Se a desidratação for um fator, disse Lipsitz, “pode-se corrigir facilmente o problema apenas bebendo mais água”. Muitos idosos restringem a ingestão de líquidos para diminuir a necessidade de usar o banheiro. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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