Spanglish Movies via The New York Times
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História da lenda de um atleta de luta livre dominicano

A trilogia de filmes sobre Jack Veneno, que eletrizou os fãs nos anos 70 e 80, é um passo importante para a cena cinematográfica do país, segundo críticos

Sandra E. Garcia, The New York Times

21 de junho de 2018 | 10h00

O ator dominicano Manny Perez lembra que, aos 8 anos, ele e seus dez irmãos se espremiam na frente da televisão em preto e branco para ver o seu herói: o lutador Jack Veneno.

“As poucas vezes em que tínhamos eletricidade, era em geral nas tardes de sábado”, conta Perez. “Era quando Jack Veneno se apresentava. Nós não tínhamos nada, mas quando eu o via na TV, eu me sentia rico”.

Veneno, um grande lutador da República Dominicana dos anos 70 e 80, eletrizava os fãs e enfrentava o governo. Ele levou o país a apaixonar-se pelo esporte. Agora, interpretado por Perez, ele é o tema de um projeto que um crítico dominicano aplaudiu como um importante salto para a indústria cinematográfica do país.

“Veneno: La Primera Caída: El Relámpago de Jack”, que relata sua ascensão ao ringue, é o primeiro filme de uma trilogia que documenta a vida do lutador Rafael Sánchez. Escrito e dirigido por dominicanos, o filme biográfico, lançado no início deste ano, une um escopo ambicioso a valores da produção hollywoodiana.

“‘Veneno’é um produto sólido que representa um significativo passo para frente da indústria cinematográfica dominicana”, escreveu o crítico de cinema Andy Martinez Nuñez.

A película narra sucessivamente as experiências de Sánchez como um imigrante que não conseguia encontrar trabalho remunerado em Nova York, o lutador que perdeu os amigos à medida que conseguia mais sucesso, e o astro da televisão que se recusou a permitir que os políticos usassem suas exibições para os seus próprios fins.

‘Veneno’ também fala da cultura e do folclore dominicano, das fiestas patronales(dos patronos) a sequências sobre Santeria e corrupção (ele é preso por forças favoráveis o governo). O filme mostra a primeira vez que Joaquín Balaguer é eleito presidente, e a resposta de muitos dominicanos, convencidos de que Balaguer fraudara as eleições para eleger-se, mas sem coragem de falar abertamente.

“Eu fui um grande fã de Jack durante toda a minha vida”, disse Riccardo Bardellino, que produziu o filme. Levou sete anos para concluí-lo, incluindo mais de três durante os quais visitou os circuitos de luta livre.

Tabaré Blanchard, o diretor, quis colocar o povo dominicano no filme não se limitando a mostrar o país como simples ambientação. Por isso, tomou algumas liberdades com a história: mudou o jovem Jack da capital, Santo Domingo, para uma pequena cidade chamada Ocoa, e introduziu no filme as feiras que chegavam à ilha vindas dos Estados Unidos.

Na vida real, o pai de Sánchez levou o menino, então com 11 anos, a um cinema em Santo Domingo para ver um filme sobre o lutador mexicano El Santo. Foi um momento definitivo em sua vida: O filme inspirou Sánchez a tornar-se um lutador.

Jack Veneno (seu nome de batalha) alcançou sucessos nunca vistos na luta dominicana. Em 1982, ele enfrentou Ric Flair, um mega-astro da época, em uma controvertida luta pelo Campeonato Nacional de Pesos Pesados Alliance World. Na República Dominicana, Jack Veneno foi celebrado como vencedor, mas a organização de luta livre não reconhece sua vitória. A disputa intensificou a lenda do menino dominicano que conseguiu chegar tão longe.

Hoje, Veneno, 76, vive na ilha e raramente fala da época em que lutava. Mas viu a película (ele fez uma ponta). “Estou muito orgulhoso deste filme”, declarou.

Blanchard disse que os dois filmes da sequência analisarão a ambição e as realizações de Jack Veneno de maneira estilizada, exaltando também a cultura dominicana. A Parte 2 focalizará especificamente  seu programa de TV sobre luta livre.

“Naquela época esse era o nosso divertimento”, disse Perez. “Agora faz parte da nossa história”.

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