Adriana Zehbrauskas para The New York Times
Adriana Zehbrauskas para The New York Times

História da variação do clima é revelada pelas árvores

Pesquisadores estão aprendendo mais sobre padrões históricos de clima e os efeitos em humanos

Jim Robbins, The New York Times

13 de maio de 2019 | 06h00

TUCSON, ARIZONA - A partir do início do século 18 até a década de 1960, a corrente de jato do Atlântico Norte, que afeta as condições climáticas extremas na Europa, manteve um curso relativamente constante. Então, ela se tornou menos previsível. Mas, sozinhos, dados de instrumentos não são capazes de revelar os movimentos da corrente de jato para o estabelecimento de uma comparação entre séculos, considerando que os cientistas começaram a registrar os eventos climáticos com instrumentos somente a partir do fim do século 19.

Mas os anéis nos troncos das árvores oferecem um panorama histórico muito mais completo de tais variações climáticas. Conforme envelhecem, as árvores formam novos anéis a partir do centro, e a cada ano um novo círculo de madeira morta é criado em torno do tronco da maioria das árvores. Cada anel contém informações a respeito da precipitação, temperatura e outros dados. Uma equipe comandada pela dendrocronóloga Valerie Trouet recolheu amostras de 400 árvores nos Bálcãs e outras 200 na Escócia - incluindo aquela que pode ser a árvore mais velha da Europa, um pinheiro bósnio na Grécia chamado Adonis, que teria 1.075 anos.

A corrente de jato flui entre essas duas regiões, e as árvores revelaram a amplitude das temperaturas em seus anéis e a frequência dos incêndios ao longo do tempo, uma narrativa abrangente do comportamento da corrente de jato. “Posições mais extremas criam eventos climáticos mais extremos, especialmente ondas de calor e tempestades" na Europa, disse Trouet. E os anéis mostram que “grandes incêndios acontecem nos Bálcãs quando a corrente está posicionada mais ao sul".

O fato de a corrente de jato ter se tornado mais variável apenas nas décadas mais recentes indica que a mudança seria resultado dos efeitos causados pelo homem no clima, disse Trouet. “O recente aumento nessas variações é algo sem precedentes nos 300 anos anteriores", disse ela. As árvores são gigantescos dispositivos orgânicos de registro que contêm informações a respeito do clima do passado, civilizações antigas, ecossistemas e até eventos galáticos.

O Laboratório de Pesquisas com Anéis de Árvores, da Universidade do Arizona, foi fundado nos anos 1930 pelo astrônomo A.E. Douglass, que se voltou para as árvores para entender o elo entre as manchas solares e o clima. Há atualmente cerca de uma dúzia de laboratórios desse tipo no mundo, com dados de quatro mil lugares de todos os continentes, exceto a Antártida. A informação é armazenada no Banco de Dados Internacional de Anéis de Árvores, um acervo aberto a todos os cientistas.

As pesquisas envolvendo anéis de árvores são divididas em três categorias: dendroclimatologia, a análise dos anéis das árvores em busca de dados a respeito do clima do passado; dendroarqueologia, o estudo dos anéis para compreender como o clima do passado afetou as sociedades humanas; e a dendroecologia, que reconstrói sistemas florestais do passado.

“O período instrumental proporciona um instantâneo” do clima do passado, disse o pesquisador David Meko, do laboratório no Arizona, “mas os anéis de árvores são mais como um panorama". Esta janela para observar o passado profundo do clima se tornou vital em um mundo em rápido aquecimento, para mostrar como o clima dos 50 anos mais recentes está muito fora dos padrões históricos. Observando os anéis das árvores, é difícil negar a ocorrência de imensas mudanças climáticas na atualidade. A mudança vista nas seis ou sete décadas mais recentes é quase sem paralelo no passado, de acordo com os pesquisadores.

As condições em alguns dos anos mais recentes são as mais quentes e secas em séculos. Os pesquisadores também analisam o acúmulo de neve nos anéis das árvores. Em 2015, na Sierra do oeste dos Estados Unidos, o acúmulo de neve foi o menor em 500 anos. As árvores também guardam outras informações valiosas. Análises de isótopos do oxigênio revelaram a fonte da água bebida por uma árvore séculos atrás, determinado assim se ela seria de um furação ou tempestade.

Os anéis nos troncos das árvores também oferecem um vislumbre dos impactos globais da geoengenharia - alguns cientistas propuseram como solução para a mudança climática espalhar sulfato de alumínio na atmosfera, bloqueando o sol e resfriando o planeta. “As erupções vulcânicas são as melhores equivalentes dos efeitos da geoengenharia", disse Trouet. A análise de anéis de árvores de cinco regiões vulcânicas do mundo mostram que, após uma erupção em 1568, o clima global teve dois anos de resfriamento.

Esses anéis nas árvores também mostraram que, por seis décadas, entre 1568 e 1634, a expansão subtropical empurrou os climas desérticos para o norte. Por causa da expansão das zonas de clima quente e seco, o Império Otomano entrou em declínio, a dinastia Ming teve um colapso e a colônia de Jamestown, na Virgínia, foi abandonada, indicando que esses eventos estariam ao menos em parte ligados ao clima.

Até as estrelas revelam alguns dos seus segredos às árvores. As estrelas emitem radiação que reage com o nitrogênio na atmosfera e altera os níveis de carbono 14, que é absorvido pelos seres vivos e se torna indicativo dos níveis de raios cósmicos. Altas anteriores nos raios cósmicos são em geral um mistério, mas atraíram o interesse dos pesquisadores, pois podem acabar com os satélites de comunicação e outras tecnologias. “Estamos quebrando novos recordes todos os anos", disse Meko. “É um pouco preocupante ver que os anos mais extremos foram bem perto do presente.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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