Eric Long/Museu Aeroespacial Nacional, Instituição Smithsonian
Eric Long/Museu Aeroespacial Nacional, Instituição Smithsonian

História registrada em plástico está caindo aos pedaços

Pesquisadores buscam maneiras de preservar peças de arte e objetos históricos que estão se desintegrando

Xiaozhi Lim, The New York Times

11 Setembro 2018 | 10h15

LOS ANGELES - Os encarregados do traje espacial de Neil Armstrong no Museu Aeroespacial Nacional, em Washington, sabiam que este dia chegaria. Maravilha da engenharia humana, o traje é feito de 21 camadas de diferentes plásticos: náilon, neoprene, Mylar, Dacron, Kapton e Teflon.

Com textura semelhante à da borracha, a camada de neoprene seria o maior problema. Os responsáveis pela roupa sabiam que o neoprene acabaria enrijecendo com o tempo, tornando-se quebradiço e deixando o traje tão duro quanto um pedaço de pau. Em janeiro de 2006, o traje de Armstrong foi recolhido do expositor e armazenado para retardar a degradação.

Das cerca de 8.300 milhões de toneladas métricas de plástico que teriam sido produzidas até hoje, cerca de 60% estão flutuando no oceano ou preenchendo aterros sanitários. A maioria de nós preferiria que esse plástico desaparecesse. Mas, nos museus, onde se espera que os objetos durem para sempre, o plástico está sucumbindo ao tempo.

Diretor de preservação do museu, Malcolm Collum disse que a deterioração do traje de Armstrong foi detida bem a tempo. No entanto, em outros trajes espaciais considerados importantes para a história da aeronáutica, o neoprene endureceu a ponto de se partir em pequenas peças entre as camadas.

A arte também sofre a ação do tempo. Nos museus, o problema está se tornando mais aparente, segundo Georgina Rayner, cientista da preservação da Harvard Art Museums. "O plástico está chegando ao fim da sua vida útil mais ou menos agora", explicou.

De todos os materiais, o plástico está se revelando um dos mais desafiadores de preservar. Segundo Collum, por causa da imprevisibilidade do material e da grande variação de formas de sua deterioração, "temos um mundo completamente diferente".

Metal, pedra, cerâmica e papel sobreviveram milhares de anos, enquanto o plástico existe há pouco mais de 150 anos. Mas, nesse breve período, o material passou a dominar tudo o que usamos atualmente. E o plástico é usado com frequência cada vez maior em obras de arte e artefatos que desejamos preservar.

Um passeio pelos vários museus da Instituição Smithsonian deixa isso claro. Temos o lado artístico, é claro: pinturas de acrílico, lentes parabólicas de poliéster com uma superfície semelhante à de um espelho, uma escultura de fibra de vidro retratando uma mulher de meia idade prestes a devorar um banana split.

Temos os triunfos da engenhosidade humana: o primeiro coração artificial, os álbuns de Ella Fitzgerald, o computador Apple I, um dispositivo de etiquetagem digital para o acompanhamento de baleias.

E temos os objetos mundanos, que documentam a vida humana: um abridor de latas elétrico, um telefone de disco cor de rosa, uma série de tampas de copos de café, cada uma apresentando um desenho diferente.

Para os preservacionistas, o primeiro passo é simplesmente determinar qual o tipo de plástico do objeto. "Usamos a palavra 'plástico' de maneira monolítica, quando, na verdade, estamos nos referindo a muitas centenas e milhares de coisas diferentes", disse a preservacionista do Museu Smithsonian de Arte Americana, Gregory Bailey.

"Plástico" é simplesmente uma referência a algo que pode ser moldado. Os plásticos são uma mistura de polímeros - grandes moléculas de cadeia longa - e aditivos de pequenas moléculas.

Os plásticos mais antigos eram feitos a partir de polímeros naturais modificados, como a celulose, mas a maioria dos plásticos atuais é feita de polímeros sintéticos que duram muito mais. Os aditivos podem ser chamados de plastificantes, que aumentam a flexibilidade, ou de preenchimento, para endurecer a matéria.

Os cientistas da preservação utilizam técnicas analíticas avançadas, como microscopia e espectroscopia, para identificar os materiais. O encolhimento e a migração aditiva são duas formas de degradação do plástico. Com frequência, os preservacionistas tentam apenas encontrar as melhores condições para a conservação dos artefatos de plástico.

"Boa parte do trabalho de conservação envolve como administrar o ambiente de armazenamento ou exposição para retardar ao máximo a deterioração do material", disse Bailey.

Para tanto, pode ser necessário filtrar os raios ultravioleta para reduzir o rompimento aleatório dos elos moleculares do plástico, um desafio para o museu, repleto de janelas. A preservação de obras de arte de plástico também pode exigir que a temperatura seja mantida baixa, e a umidade, estável, para reduzir a migração de plastificantes, ou um ambiente livre de oxigênio para evitar a oxidação.

Collum e sua equipe estão construindo um expositor especial para o traje de Armstrong em condições cuidadosamente adaptadas para o 50.º aniversário da primeira aterrissagem na lua, no ano que vem.

Apesar de conhecidos como um dos principais grupos de poluentes, os plásticos têm importantes histórias para contar. "Acho que ainda precisamos da persistência da memória na cultura humana", disse Hugh Shockey, principal preservacionista do Museu de Arte de Saint Louis.

As garrafas plásticas ajudam a transportar água limpa até áreas remotas, compostos leves ajudam a poupar energia em carros e aviões e seringas descartáveis e embalagens de sangue ajudam a salvar vidas. Próteses ajudam a substituir partes do corpo ausentes.

De acordo com Odile Madden, cientista do Instituto de Conservação Getty, de Los Angeles, é "graças ao plástico que podemos viver mais do que nossos corpos permitiriam". Além disso, também levou o homem à lua.

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