Frans Hals Museum
Frans Hals Museum

História viva com Rembrandt ao lado de Frans Hals

Separados pelos séculos, mas próximos na mostra

Nina Siegal, The New York Times

02 Maio 2018 | 10h00

HAARLEM, HOLANDA – Frans Hals, um retratista da Idade do Ouro da arte flamenga, povoada por ricos comerciantes e alegres vagabundos, foi um pintor popular e bem-sucedido em vida, mas saiu de moda antes de morrer. Suas pinceladas livres e audaciosas eram demasiado ásperas para o século 18. Mas os impressionistas o redescobriram no século 19, e ressuscitaram Hals como um mestre moderno.

Hoje, Hals está ao lado dos seus compatriotas Rembrandt e Vermeer no panteão da história da arte, mas Ann Demeester, diretora do Museu Frans Hals em Haarlem, prefere vê-lo como uma figura “transhistórica”, cuja influência salta através do tempo e se aproxima da arte contemporânea.

É por isso que ela pendurou as principais obras de Hals da coleção permanente do museu, e de outros pintores da Era de Ouro, ao lado de artista vivos como Nina Katchadourian, Shezad Dawood e Anton Henning para o “Rendezvous com Frans Hals”, a mostra que irá até o final de setembro. Ela espera demonstrar que os artistas dos nossos dias ainda se inspiram no legado de Hals de 350 anos atrás.

“Transhistórico é um termo hoje da moda nos círculos curatoriais, enquanto os museus buscam novas maneiras de despertar o interesse na arte mais antiga. A mescla de antigo e novo atraiu colecionadores nas feiras de arte, e as casas de leilões estão fazendo isto também: no ano passado, a casa de leilões Christie’s se desfez da obra “Salvator Mundi”, de Leonardo da Vinci, por US$ 450 milhões em uma venda de arte contemporânea.

“O que ela tenta fazer é afirmar que a história vive”, observou Sheena Wagstaff, do Metropolitan Museum of Art de Nova York, referindo-se à tendência transhistórica.

“Com esta mescla de arte contemporânea e história, podemos revelar alguns dos enigmas nos centros da grande arte”, afirmou Sheena Wagstaff, que supervisiona o Met Breur, o ramo de arte moderna e contemporânea do museu.

A mostra “Like Life; Sculpture, Color and the Body (1300-Now)”, até 22 de julho, lança um olhar que abandona a cronologia sobre 700 anos de esculturas do corpo humano.

Incluindo não apenas a Grande Arte, mas também imagens e modelos anatômicos, a mostra abre com uma escultura hiperrealista de Duane Hanson de 1984, salta de uma escultura de Donatello do século 15 para uma obra da Renascença espanhola de El Greco, e justapõe um moderno androide a uma imagem de Jeremy Bentham, do século 19, feita com os ossos do filósofo britânico.

“A ideia desta mostra é abri-la e expandir o cânone, com obras que possam ser vistas de uma maneira mais populista”, afirmou Sheena.

James Bradburne, diretor da Galeria Brera de Milão, disse que a tendência transhistórica foi apenas um termo novo para definir o que os curadores sempre fizeram: “Tentar levar as pessoas de volta ao momento em que a arte era contemporânea”.

“Nós somos sempre obrigados a voltar a expor a arte que temos em nossas coleções de uma maneira contemporânea” ele disse, “assim como o ator, quando leva Shakespeare ao palco, precisa reapresentá-lo para um público contemporâneo, tanto nas vestes da máfia quanto nas de uma drag”.

O Kunsthistorische Museum de Viena, cuja coleção permanente apresenta a arte do antigo Egito até 1800, tomou emprestadas 22 obras de arte contemporânea para a exposição “The Shape of Time”, que vai até 8 de julho. Um nu que se cobre parcialmente, de Peter Rubens, 1936-38, por exemplo, é apresentado ao lado de um retrato com um nu frontal completo do início dos anos 70, de Maria Lassnig.

“Gostaria de pensar que nós estamos desenredando todas as ideias e preocupações, sonhos e pesadelos enterrados em todas as obras histórias que temos”, afirmou Jasper Sharp, curador do programa de arte moderna e contemporânea do museu.

Entretanto, algumas escolhas mostraram-se arriscadas. Os amantes da arte responderam no Instagram à justaposição do museu de um retrato de Rembrandt ao lado de uma pintura de um campo florido de Mark Tothko. “A metade deles estava dizendo: ‘Isto é absolutamente absurdo’, ou ‘Rembrandt deve estar se revirando no túmulo’”, disse Sharp. “Algumas das conexões se estabelecem instantaneamente; outras merecem um olhar mais demorado”.

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