Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

Historiador tenta desvendar arquivos secretos da China

O chinês Shen Zhihua desafia o Partido Comunista na tentativa de trazer à tona informações sobre a relação do país com EUA e Coreia do Norte

Jane Perlez, The New York Times

11 Abril 2018 | 15h15

PEQUIM - Shen Zhihua, o mais destacado historiador chinês da Guerra Fria, se impôs uma tarefa quase impossível. Ele quer que a China revele seus segredos, abra seus arquivos e conte a seus cidadãos o que ocorreu entre a China e os Estados Unidos, entre a China e a Coreia do Norte, e vários outros fatos.

Muito antes da era da linha-dura do presidente Xi Jinping, o Partido Comunista já impedia que historiadores como Shen fossem a fundo em suas investigações. Diversos documentos foram destruídos, roubados ou mantidos sob sete chaves por bibliotecários especializados em desviar as indagações de pesquisadores perseverantes.

“Os líderes chineses têm uma ampla bagagem histórica”, afirmou Shen. “O partido era popular, mas depois de 1949 cometeu uma série de erros: a reforma agrária, a Revolução Cultural, o Grande Salto Adiante. As pessoas poderão perguntar: “Se vocês cometeram tantos erros, como é possível que ainda estejam no poder?”.

O partido está desnecessariamente preocupado, ele afirma. “Se olharmos para a história chinesa, veremos que ninguém pode substituir o Partido Comunista. A maior parte da elite está no partido. O partido não deveria se preocupar em ser contestado. Se eu chefiasse o Departamento de Propaganda, diria: ‘Estes erros foram cometidos no passado, não agora, nós precisamos aprender com os nossos erros’”.

O Partido Comunista está tão preocupado que Shen nem sequer pode ter acesso a documentos liberados por uma lei aprovada em 1996, segundo a qual os documentos estariam abertos ao público depois de 30 anos. A lei nunca foi levada em consideração.

A versão da China sobre a visita do presidente americano Richard M. Nixon, em 1972, e os seus relatos das viagens pioneiras por Henry Kissinger, o Secretário de Estado de Nixon, continuam em grande parte desconhecidos. O que aconteceu entre o presidente chinês Mao Zedong e o norte-coreano Kim Il-sung durante a Guerra da Coreia só é conhecido de maneira incompleta do ponto de vista chinês.

Com Xia Yafeng, da Universidade de Long Island, em Nova York, Shen é o autor de uma obra de referência sobre as relações da China com a Coreia do Norte, “A Misaunderstood Friendship: Mao Zedong, Kim Il-sung and Sino-North Korean relations 1949-1976” ("Uma Amizade Incompreendida: Mao Zedong, Kim Il-sung e as relações sino-coreanas entre 1949 e 1976", em tradução livre).

O livro se baseia fundamentalmente nos arquivos de Moscou e da Europa Central que se tornaram acessíveis depois do colapso da União Soviética. Mas Chen também fez algumas descobertas em bibliotecas no nordeste da China, e, graças ao seu relacionamento com altos funcionários do partido, obteve acesso a um memorando de conversações entre Mao e o líder norte-coreano, uma preciosa descoberta a respeito de fatos dos quais o público nunca teve notícia.

Shen derruba o mito de que a China e a Coreia do Norte fossem aliadas. Ele mostra que, mesmo antes do início da Guerra da Coreia, em 1950, as relações entre os dois partidos comunistas recém-instalados no poder eram tensas. Kim, avô do atual líder norte-coreano, Kim Jong-un, invadiu a Coreia do Sul sem notificar Mao. Os chineses foram do fato informados três dias depois.

Apesar das divergências de Shen com o sistema comunista, ele tem um pedigree quase perfeito no Partido Comunista: durante a guerra civil, seu pai unira-se a Mao em sua base do exército em Yan’am, e seu sogro era um bom amigo do pai do atual líder, Xi.

Seu Instituto de Pesquisa para Estudos sobre a Vizinhança Asiática, financiado pelo governo, em Xangai, permite a Shen e aos seus discípulos viajar para os países unipartidários da Ásia e do Leste Europeu e reunir documentos que são então copiados e catalogados no instituto.

Em uma visita a Pequim, um alto funcionário norte-coreano convidou Shen a visitar Pyongyang com a finalidade de utilizar os arquivos, com viagem e estadia pagos, mas ele declinou. “Eu temi que, se fosse, não pudesse voltar”.

Ele não hesita em manifestar as próprias opiniões. No ano passado, ele provocou certa inquietação ao afirmar em um seminário a portas fechadas que seria melhor para a China se ela se aliasse à Coreia do Sul do que à do Norte (a conferência posteriormente circulou na internet).

Shen informou que o Partido Comunista Chinês tem bem menos registros do que o partido na União Soviética. “A Rússia mantém tradicionalmente os registros”, disse. “O Partido Comunista Chinês surgiu de uma operação clandestina, era muito cioso de seus segredos e não registrava muitas coisas. Por exemplo, o pouco que resta sobre as reuniões do Politburo nos anos 1950. Eles nunca documentavam os fatos”.

Segundo Shen, suas conexões políticas ajudaram-no a ter acesso a importantes arquivos chineses, e ele é grato a isso, mas estar por dentro muitas vezes não basta.

Ele contou que um amigo burocrata certa vez explicou o problema: “Você conhece a lei de 1996”, teria dito o amigo, “mas não está a par das dez proibições. Não é permitido procurar coisas que se refiram a religião, diplomacia ou a assuntos pessoais dos líderes do Estado". Shen, então, respondeu,"O que posso pesquisar, então?". A resposta:"Basicamente nada”.

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