Giulia Marchi para The New York Times
Giulia Marchi para The New York Times

Histórias do submundo chinês vencem censura e agradam leitores

Os romances de Zhou Haohui já bateram a marca de 1 milhão de exemplares vendidos

Steven Lee Myers, The New York Times

27 Julho 2018 | 15h30

YANGZHOU, CHINA - Zhou Haohui, mais recente autor a surfar a onda de romances policiais chineses que inunda as praias internacionais, tinha um emprego frustrante de professor em 2007 quando começou a publicar (na internet) os romances que lhe valeriam um culto de seguidores na China.

Esses livros, uma trilogia relatando uma caçada policial em busca de um assassino vingativo, foram publicados dois anos mais tarde e venderam mais de 1,2 milhão de exemplares. Eles inspiraram uma série que já foi assistida via streaming 2,4 bilhões de vezes, de acordo com seu agente. Um longa-metragem começou a ser produzido em abril.

Agora, o primeiro livro da trilogia de Zhou, "Death Notice" (Obituário), está disponível nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. A editora americana, Doubleday, espera que a obra alce o autor ao rol de outros romancistas chineses contemporâneos, como Qiu Xiaolong, He Jiahong e A Yi, que alcançaram um público global com histórias do submundo do crime na China.

Para Zhou, as histórias policiais são um tema universal, motivo pelo qual os thrillers conseguem transcender as barreiras culturais com mais facilidade do que a ficção histórica, por exemplo.

"Quando falamos de crime - casos criminosos, a polícia das cidades grandes, essa sensação de suspense e mistério -, me parece que os leitores do mundo todo gostam desse tipo de coisa", disse ele numa entrevista em sua cidade natal, Yangzhou, uma cidade imperial histórica de 2 milhões de habitantes às margens do Rio Yang-tsé.

Em "Death Notice", o responsável pela morte de dois cadetes da academia de polícia num atentado a bomba volta à atividade 18 anos depois, agora orquestrando a morte de um sargento da polícia que teve a carreira assombrada pelo fracasso em solucionar o caso original.

A censura molda os romances policiais na China, e Zhou reconheceu que os censores trouxeram problemas, obrigando-o a fazer mudanças em seus livros. No entanto, ele contou que os romances têm mais liberdade criativa do que os filmes ou o conteúdo na internet.

"Ao escrever romances policiais, sabemos que não devemos criar nada muito negativo", disse Zhou, "mas é impossível saber onde os problemas começam". A solução, segundo ele, era procurar um bom editor, que tivesse uma ideia daquilo que seria considerável aceitável.

A Doubleday tem preferência na publicação da segunda e terceira partes da trilogia, mas ainda não fechou o acordo final, talvez porque a primeira obra de Zhou a ser lida pelo público anglófono, um romance chamado "Valley of Terror", publicado no ano passado pela Amazon Crossing, tenha feito pouco sucesso.

Por questões muito mais comerciais do que políticas, o agente literário de Zhou sugeriu que ele fizesse mudanças na versão do livro em inglês, com tradução de Zac Haluza. Agora, a ação ocorre em Chengdu, e não em Yangzhou ou na vizinha Nanjing, cidades nas quais o autor pensou ao escrever a história. A lógica por trás da decisão seria de que Chengdu é mais conhecida por causa dos pandas e da comida apimentada, ajudando o leitor estrangeiro a se situar e conferindo ao drama um estilo mais visceral, disse por e-mail Rob Bloom, editor de Zhou na Doubleday.

Ao ser indagado a respeito da mudança, Zhou deu risada e revelou que também se perguntou por que eles decidiram mudar a cidade.

Mais conteúdo sobre:
China [Ásia]literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.