Amy Harrity para The New York Times
Amy Harrity para The New York Times

Histórias sobre perdas inspiram outras pessoas

Ann Lamott narrou suas próprias histórias de mágoa, vício e perda - por mais de três décadas

Penelope Green, The New York Times

09 Novembro 2018 | 06h00

FAIRFAX, CALIFÓRNIA - Ann Lamott achou que “Doomed” (Amaldiçoado) seria um bom título para o seu último livro, mas foi difícil vendê-lo à Riverhead, a sua editora, então escolheu a outro menos apocalíptico, que ela mesma não conseguiu lembrar na tarde da entrevista. “Something... Anything?” indagou.

Não é bem assim. “Almost Everything: Notes on Hope”, que saiu no mês passado - é o 18º livro de Anne - e o 15º mais vendido - e a sua nona coletânea de artigos, em geral de conteúdo espiritual. Como um C.S. Lewis feminista, ela fala de Deus, de política e de outros tópicos impronunciáveis, e estimula os seus leitores a buscarem a alegria.

“Uma das coisas que eu quis dizer no meu novo”, parou de novo, “último livro cujo nome não consigo lembrar, é que todos estão perdidos, se consideram impostores e só se dão conta disso depois dos 40. 

Eu quero dizer agora que as pessoas não fiquem comparando o que elas têm por dentro com o que os outros têm por dentro”.

Anne Lamott, 64, estava na casa que divide com Neal Allen, um ex-jornalista que é o seu namorado há dois anos. Ela estava espremida entre dois cachorros, Lady Bird, que é grande, e Gizmo, um misto de chihuahua com terrier que pertence a seu filho, Sam. Ela tem grandes olhos verdes, cabelos rasta curtos e a uma rosa de Saron tatuada com as palavras: “Trust the Captain, trust the Crew”, escritas no caule. É uma frase de “The West Wing”, o drama político de televisão, que ela ouviu nos dias sombrios, como explicou, do “primeiro mandato de Bush-Cheney”.

Há décadas, ela narra histórias de dependência química e de perda em livros de memórias em quadrinhos e romances. Mas não planejava ser uma autora de obras que servissem de inspiração. “Tenho o conhecimento teológico de uma criança da terceira série”, disse. “Mas ocorre que há espaço para uma pessoa como eu que não sabe nada. Ocorre que as pessoas estão ansiosas por falar de espiritualidade de um ponto de vista realmente ecumênico”.

Os aforismos de Anne agora enchem a internet. Sua Red Talk 2017 foi vista mais de 2,8 milhões de vezes. Ela tem seguidores que a apoiam, embora comentários ocasionais critiquem sua inclinação para a esquerda.

Aos 35 anos, Anne era uma romancista bem conceituada com três anos de sobriedade e uma fé profunda - ela foi atraída pela música gospel, e pelos sermões sobre a injustiça social, em uma pequena igreja presbiteriana de Marin County - quando teve Sam.

Seu livro de memórias de 1993, “Operating Instructions: A Journal of My Son’s First Year”, o seu primeiro best-seller, falava da vida de mãe solteira. Havia algumas duras verdades, como o desejo de deixar o bebê na varanda por uma noite. Ela disse: “Falei sobre a raiva que a gente experimenta quando está além da exaustão e se dá conta de que não gosta de crianças”.

Quando a namorada de Sam engravidou, mãe e filhos escreveram “Some Assembly Required: A Journal of My Son’s First Son”. Também foi best-seller. (Jax hoje tem 9 anos, e mora a metade do tempo com o pai e Anne.)

Pouco mais de dois anos atrás, Anne vasculhava um site de namoro quando viu uma foto de Allen. Ela havia esquecido que o rejeitara anteriormente porque era alérgico a gatos. “O meu gato era a minha vida, por isso não seu certo”, ela disse. Quando Allen prometeu um remédio contra a alergia, ela concordou em tomar uma xícara de café.

Anne escreveu que ele era escritor e tinha medo de que ele pedisse para ela ler um dos seus manuscritos. Allen só havia lido exatamente uma coisa que ela escrevera, um ensaio sobre o ano infeliz que ela passou no site de namoro. 

Eles não se separaram um dia sequer.

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