Rogério Assis|Estadão
Rogério Assis|Estadão

Hobbies que alimentam a alma

Redescobrindo a fé e a realização por meio do aprendizado

Tom Brady, The New York Times

22 Julho 2018 | 10h00

Com as crescentes preocupações a respeito do tempo que passamos olhando para telas, algumas pessoas têm buscado satisfação em outras atividades, dedicando-se a hobbies e cultivando seu lado criativo.

Aulas de artes para pessoas de meia idade têm sido populares, assim como os livros dedicados ao planejamento de anos bem vividos durante a aposentadoria, informou Laura Holson no Times.

“As pessoas têm visto a criatividade como solução para a crise da meia idade", disse Julia Cameron.

O livro dela, “The Artist’s Way: A Spiritual Path to Creativity” [O caminho do artista: uma trilha espiritual para a criatividade], vendeu mais de 4 milhões de exemplares desde 1992, e sua agenda de oficinas ficou duas vezes mais cheia ao longo dos 12 meses mais recentes.

“As pessoas se perguntam, ‘Isso é tudo?’”, disse Julia. “E a resposta é, ‘Não. Tem que haver mais.’”

Lee Weinstein, ex-gerente de relações públicas da Nike, começou a deixar registrados seus sonhos e objetivos 20 anos atrás. Ele e a mulher compartilharam suas sessões de planejamento no Facebook, e os amigos pediram conselhos.

Weinstein começou a oferecer oficinas e publicou em dezembro um livro intitulado “Write. Open. Act: An Intentional Life Planning Workbook” [Escreva. Abra. Aja: um planejamento intencional para a vida].

Um cliente decidiu aprender a tocar violão, o que o fez sentir-se mais jovem e estimulou partes diferentes do seu cérebro.

“Não ouço ninguém dizendo, ‘Preciso comprar mais uma coisa’”, disse Weinstein.

Margit Wittig optou por um caminho diferente, transformando o hobby de fazer luminárias num negócio.

Tudo começou com visitas ao Instituto de Arte de Chicago com a filha pequena, que se interessou pelas esculturas de Brancusi e Giacometti. Ela se inscreveu em cursos de escultura e artesanato com metais depois de se mudar para Londres em 2001. Um segundo bebê e o divórcio a colocaram num rumo diferente.

“[O hobby] era como uma válvula de escape para minha criatividade num momento em que eu era mãe solteira em tempo integral", disse Margit a respeito das formas que esculpiu num estúdio londrino.

Então, um dia, ela começou a montar as cabeças esculpidas em luminárias de chão com outras formas em resina e vidro. Os amigos começaram a comprá-las.

“Mas, então, uma pessoa desconhecida quis comprar uma luminária minha", disse ela ao Times.

Atualmente, há luminárias dela no Hotel Whitby, em Manhattan, e numa suíte do Hotel Berkeley, de Londres. As luminárias são vendidas por valores a partir de 4,9 mil dólares, e as luminárias de mesa estão disponíveis por 3,5 mil dólares.

É improvável que Farhad Manjoo decida vender as peças de argila que tem produzido, mas o colunista de tecnologia do Times escreveu que a atividade funciona como um refúgio das ansiedades modernas, com excesso de trabalho e negatividade nas redes sociais.

“Quando suas mãos estão sujas de barro", escreveu Manjoo, “não se pode mexer no celular".

No processo de aprendizado do trabalho com a cerâmica, ele descobriu outra coisa que o surpreendeu: aquilo restaurou sua fé na humanidade na internet. A cerâmica o ajudou a descobrir uma experiência online mais saudável e positiva.

A internet daqueles que se dedicam a hobbies é voltada para objetivos como a criação do melhor hambúrguer ou o cultivo do tomate perfeito - ou, no caso de Manjoo, como centralizar o bloco de argila (“centralização", no jargão dos ceramistas).

Em vez de desligar os dispositivos e limitar o tempo passado na internet, a comunidade dos ceramistas amadores o incentivou a mergulhar mais fundo, pois há especialistas dispostos a compartilhar seu conhecimento.

Nesse ambiente, as disputas políticas perdem espaço e o foco é a tarefa que os interessados buscam aperfeiçoar.

“Percebo que a conversa costuma ser muito mais produtiva quando estamos fazendo arte", disse Leah Kohlenberg ao Times. Ela é uma pintora de Portland, Oregon, e ensina desenho para adultos e adolescentes de todo o mundo via Skype. Alguns deles são eleitores do presidente Donald J. Trump, coisa que ela certamente não é.

Mas, quando as pessoas alcançam juntas um avanço no trabalho artístico, as diferenças parecem menos importantes, disse ela.

“A arte nos dá muito poder", disse Leah. “A maioria das pessoas não se considera capaz de fazer arte e, quando elas percebem que conseguem produzir uma obra, é incrível - um novo mundo se abre, e esse mundo não tem muito tempo para brigas e disputas.”

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