Ilvy Njiokiktjien para The New York Times
Ilvy Njiokiktjien para The New York Times

Holandeses adotam estratégias incomuns para lidar com a demência

Médicos do país exploram o poder do relaxamento e das memórias de infância para acalmar e estimular pacientes

Christopher F. Schuetze, The New York Times

12 Outubro 2018 | 06h00

DOETINCHEM, HOLANDA - “Estamos perdidos”, afirmou Truus Ooms, de 81 anos, à sua amiga Annie Arendsen, de 83, enquanto elas andavam de ônibus juntas. “Como motorista, o sr. deveria realmente saber onde estamos”, disse Arensen a Rudi ten Brink, de 63 anos, que estava ao volante. Mas era tudo brincadeira.

Os três recebem tratamento para demência em uma unidade de tratamento na Holanda. O passeio de ônibus - numa rota por uma estrada delineada por árvores na zona rural holandesa - era uma simulação, que é executada várias vezes ao dia em três telas de vídeo.

Isso é parte de uma abordagem pouco ortodoxa ao tratamento de demência na qual médicos e cuidadores de toda a Holanda são pioneiros: explorar o poder do relaxamento, das memórias de infância, do apoio sensorial, da música tranquila, da estrutura familiar e de outras ferramentas para curar, acalmar e estimular os pacientes, em vez de se fiar na antiga prescrição de descanso na cama, medicação e, em alguns casos, restrições físicas. 

“Quanto mais o estresse é reduzido, melhor”, afirmou Erik Scherder, neuropsicólogo da Vrije Universiteit de Amsterdã. “Se você consegue reduzir o estresse e o desconforto, isso tem um efeito psicológico direto”.

Simulações de viagens de ônibus ou de idas à praia criam um ponto de reunião para os pacientes. As experiências compartilhadas permitem que eles falem sobre viagens que fizeram e representam pequenas férias de seu cotidiano.

A demência, que é um grupo de síndromes relacionadas, manifesta-se como um acentuado declínio nas funções cerebrais, condição que furta memórias e personalidades. Ela rouba das famílias seus entes amados e consome recursos, paciência e dinheiro.

Até 270 mil holandeses - praticamente 8,4% dos 3,2 milhões de habitantes com mais de 64 anos - têm demência, e o governo prevê que esse número dobre nos próximos 25 anos.

Nos anos 1990, os holandeses começaram a pensar de maneira diferente sobre como tratar a doença, afastando-se de uma abordagem medicamentosa.

“Na década de 1980, as pessoas eram tratadas como pacientes em um hospital”, afirmou Ilse Achterberg, ex-terapeuta ocupacional que foi uma das pioneiras dos quartos “snoezel”, que, com luzes, aromas, massagens e terapias sonoras, permitem aos pacientes relaxar e acessar emoções que ficam frequentemente bloqueadas em instalações clínicas estressantes.

Esses quartos foram precursores de algumas das técnicas encontradas atualmente em muitas unidades de tratamento na Holanda. No asilo Amstelring Leo Polak, por exemplo, há uma reprodução de um ponto de ônibus urbano onde Jan Post, um paciente de 98 anos, frequentemente se senta e beija sua mulher, Catharina Post, quando ela o visita.

“Setenta anos casados e ainda estamos apaixonados”, disse Catharina, de 92 anos, que visita o marido várias vezes por semana.

Recentemente, o casal Post esteve bebendo e conversando no Bolle Jan, uma recriação de um café real de Amsterdã, em uma área comum do asilo. Se o ambiente era falso, as bebidas alcoólicas eram reais, e as piadas, repetidas com frequência, arrancavam gargalhadas reais. A cantoria, por vezes trêmula, era entusiasmada.

Enquanto cuidadores e acadêmicos acreditam que esses ambientes auxiliam os pacientes de demência a viver melhor, a prova concreta de sua eficiência duradoura é difícil de obter, em parte porque não há cura para demência.

Mas Katja Ebben, que trabalha como gerente de terapia intensiva do asilo Vitalis Peppelrode, em Eindhoven, afirmou ter notado que, com a aplicação das novas técnicas, os pacientes têm precisado de menos medicação e menos restrições físicas.

Dos 210 residentes do asilo Eindhoven, 90 têm demência e ficam restritos a certos andares especialmente preparados para manter sua segurança. O edifício de tijolos e vidro tem pisos de linóleo, tetos baixos e amplas portas para acomodar camas com rodas. Apesar do estilo hospitalar, sua decoração tem ecos de uma época passada. Os quartos são decorados com mobiliário antiquado, livros, telefones de disco e máquinas de escrever. As mesas do refeitório são cobertas por toalhas e flores recém-colhidas.

Ao repensar em como lidar com pacientes de demência, muitas unidades de acolhimento têm se concentrado nos ambientes. Outra tática tem sido criar núcleos "familiares" com 6 a 10 residentes. Os residentes de muitas unidades de acolhimento holandesas têm seus próprios quartos, que eles são incentivados a considerar seus espaços próprios. Frequentemente há uma sala de estar comunitária e uma cozinha, onde os residentes auxiliam em tarefas como descascar batatas.

No combate à depressão e à passividade, que são sintomas frequentes da demência, cuidadores também tentam estimular os residentes com atividades como a dança.

“Isso trata realmente de todas pequenas coisas que compõem uma vida normal”, afirmou Pamela Grootjans, enfermeira da unidade que oferece o passeio de ônibus simulado.

“A ideia é desafiar o paciente de uma maneira positiva”, afirmou Scherder. “Deixá-los em uma cadeira, passivos, faz a doença progredir muito mais rapidamente”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.