John Wilson/Universal Pictures and Amblin Entertainment via The New York Times
John Wilson/Universal Pictures and Amblin Entertainment via The New York Times

'Nós somos as cobaias': Hollywood retoma gravações no exterior

'Jurassic World: Dominion', que está sendo filmado na Inglaterra, servirá de laboratório para protocolos de segurança na indústria do cinema

Nicole Sperling e Brooks Barnes, The New York Times - Life/Style

25 de agosto de 2020 | 05h00

Como a maioria dos atores, Bryce Dallas Howard está acostumada a aparecer nos sets de filmagem com suas falas decoradas, sabendo quando deverá dizê-las, e frequentemente não muito mais do que isto.

Mas as coisas são muito diferentes em Jurassic World: Dominion, um dos primeiros filmes de Hollywood a recomeçar a produção desde que a pandemia do coronavírus provocou o fechamento global em março. Antes de concordar em retornar aos estúdios de Pinewood, nos arredores de Londres, Bryce e outros integrantes do elenco encheram de perguntas os produtores e os executivos do estúdio, a Universal, com um bombardeio de  mensagens e conversas na Zoom e por e-mails sobre as precauções que estavam sendo tomadas.

Bryce agora sabe tudo, desde como colocar o microfone antes da filmagem - do lado de fora, com a ajuda da camareira, enquanto um operador de som, que usa uma máscara e um escudo dá as instruções às duas - até a pessoa que arruma a sua cama no hotel de luxo que a Universal alugou por 20 semanas para o elenco e a equipe técnica.

“Até agora, os atores não participavam da preparação”, disse Bryce em uma entrevista por telefone, sobre o processo de produção do filme em que eles costumam ser informados apenas do estritamente necessário. “Mas para que nós entrássemos em um avião, tínhamos de estar plenamente a par dos protocolos, saber quem cuidaria disso, e ouvir segundas ou mesmo terceiras opiniões. Nós somos as cobaias que vão dar o salto”.

Hollywood não pôde recomeçar a produção em seus estúdios na Califórnia por causa do aumento do contágio no estado, das negociações lentas com os sindicatos a respeito dos protocolos e do tempo que levaria para obter os resultados dos testes. Por isso, os grandes estúdios cinematográficos, pressionados para  que suas linhas de produção recomeçassem a andar, decidiram filmar no exterior. As continuações de Avatar estão sendo filmadas na Nova Zelândia. A Sony Pictures tem Uncharted, sua adaptação de um videogame popular, rodando em Berlim.

O primeiro da fila é a Universal com Jurassic World e um manual de segurança de 107 páginas que detalha tudo, dos sensores de temperatura que o elenco e a equipe encontraram à chegada, às refeições embrulhadas a vácuo fornecidas por funcionários de máscara que ficam atrás de divisórias de plástico na lanchonete, onde só são servidas refeições para levar; Seus protocolos de segurança estão sendo utilizados como modelo por outros estúdios, mostrando à Marvel, por exemplo, como retomar a filmagem de Shang-Chi, na Austrália.

Cerca de 750 pessoas participam da produção de US$ 200 milhões de Jurassic World, que recomeçou no dia 6 de julho, e o set voltaria a ser normalmente uma colmeia de atividade. Mas desta vez a Universal dividiu a produção em duas categorias. A maior é constituída por dois departamentos que não precisam ter acesso ao set durante as filmagens, como a construção e os adereços. A categoria mais exclusiva, chamada  de Zona Verde, inclui o diretor, o elenco e somente a equipe essencial, como operadores de câmera e o departamento de som.

O resultado, disse Bryce, é comparável a um “set fechado”, que antes da pandemia era usado somente pela equipe essencial para as cenas fisicamente íntimas.

O objetivo é manter todo mundo saudável - e pensando menos no coronavírus e mais em conviver na Terra com dinossauros.

“Por este limitado momento, nós podemos estar no universo que criamos e esquecer do resto do mundo”, explicou o diretor, Colin Trevorrow, em entrevista por telefone.

Jurassic World: Dominium, previsto para ser lançado em junho, é mais do que a sexta parte de uma franquia que ganhou perto de US$ 2 bilhões de bilheteria mundialmente. Para Hollywood, é a chance de deixar para trás os inúmeros problemas da indústria que com a pandemia ficaram em aberto - desde os cinemas fechados ao público, que se sente cada vez mais confortável assistindo a filmes de grande qualidade do sofá.

Os estúdios de Hollywood mantiveram os lucros dos últimos anos concentrando-se em potenciais sucessos baseados em propriedade intelectual conhecida, em grande parte porque estes filmes movimentam vários negócios auxiliares que praticamente garantem a presença do público no cinema. Jurassic World é um exemplo perfeito. Ele é uma máquina de merchandising, e a NBCUniversal conta com isto para reanimar os seus parques temáticos que enfrentam dificuldades financeiras; uma montanha russa, o “Velocicoaster”, está em construção no resort da Universal em Orlando, na Flórida.

O número de casos continua muito elevado no Condado de Los Angeles - e o de testes e de laboratórios disponíveis para processá-los muito escasso para que as grandes produções pudessem avançar. Um filme estrelado por Ben Affleck já rodava há cinco semanas, quando foi fechado pelo vírus. Os produtores pensaram em Austin, Texas, antes que lá também se registrasse um aumento dos casos.

Agora, o produtor, Mark Gill, está em Londres. “Neste momento, é praticamente impossível rodar filmes onde quer que seja nos EUA,” afirmou. A Universal optou por ir em frente com Jurassic World porque, apesar de ser um grande filme de ação e aventura, exigia poucas locações reais, um mínimo de extras e um elenco relativamente reduzido. Por outro lado, o filme tinha começado a produção na Inglaterra pouco antes que a pandemia fechasse tudo, o que tornou mais fácil recomeçá-la.

Tentar criar um ambiente saudável exigia também cerca de 18 mil testes de covid e 150 estações de desinfecção das mãos. Os custos dos protocolos de segurança totalizam cerca de US$ 9 milhões e incluem os gastos do aluguel de um hotel inteiro, disseram pessoas da produção.  

“Para Laura Dern, Sam Neill, Jeff Goldblum e todos os nossos atores, eles tomaram todas as cautelas”, disse Trevorrow. “Mas saber que nós todos estaríamos seguros juntos foi o que realmente encorajou o reinício. Se eles não estivessem dispostos a vir, nada teria acontecido”.

Na chegada, os integrantes da produção foram submetidos a uma quarentena de 14 dias. Depois disso, puderam andar pelo hotel. As máscaras são opcionais, e não se exige nenhum distanciamento social. (Todos os membros da equipe do hotel foram testados três vezes em uma semana.) As pessoas tomam o café da manhã juntas, têm acesso à academia (com um treinador virtual) e à piscina, e todos os domingos jogam Frisbee nos gramados do hotel. Alguns integrantes do elenco viajaram com sua maquiadora e cabeleireira. Goldblum levou a esposa, dois bebês e duas babás.

“No domingo, depois do Frisbee, ensaiamos todas as cenas que serão filmadas ao longo da semana”, disse Trevorrow, o autor do roteiro com Emily Carmichael. “Trabalhamos o diálogo juntos. Todas as questões que surgem no set - “Por que o meu personagem diria isto?” - tudo é tratado de antemão,

Quatro membros da equipe técnica da Grã-Bretanha testaram positivo para o coronavírus desde o início de julho. Dois ainda não haviam estado no set. Ficaram de quarentena por duas semanas e, depois de três testes negativos, tiveram a permissão para voltar ao trabalho. Os outros dois também foram isolados, assim como todos os que estiveram em contato com eles. Ninguém ficou gravemente doente, informou o estúdio. (Dos membros da equipe técnica enviados de antemão a Malta, quatro testaram positivo, e foram isolados.)

“Depois das filmagens, todos nós atores esperamos que estes protocolos continuem em vigor”, disse Bryce. “Porque se trata de melhorias. Não há redundância; nada que aborreça.

“De certo modo, é o reconhecimento de que estas medidas de segurança ainda poderão ser úteis em um mundo pós-vacina contra o covid”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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