Julian Glander
Julian Glander

Home office? Trabalhar de casa é uma ideia superestimada

O espaço compartilhado do escritório promove a inovação e a criatividade

Kevin Roose, The New York Times

31 de março de 2020 | 06h00

Estou escrevendo de uma espécie de bunker de quarentena na minha sala de jantar – de moletom, e comendo minhas rações de emergência. Estou conseguindo trabalhar muito, mas começo a ficar desesperado com a falta de estímulo. Entre os vários efeitos do coronavírus está o boom de pessoas como eu que passaram a trabalhar de casa, dispensadas da presença na firma.

Embora a epidemia tenha criado problemas, tem sido um momento animador para os fãs do home office – os funcionários em quarentena poderão ter um vislumbre do nosso glorioso futuro sem escritórios. Matt Mullenweg, diretor executivo da Automattic, uma empresa de software, vê um aspecto positivo no coronavírus.

Em um blog recente, ele escreveu que esta solução poderia “oferecer uma oportunidade para muitas companhias construírem finalmente uma cultura que permita flexibilidade no trabalho, algo há tanto esperado”. Por um tempo, eu fui um defensor do trabalho em casa. Não precisar de transporte para me deslocar! Almoçar comida caseira! Ocorre que andei avaliando os prós e os contras do trabalho remoto para o meu próximo livro sobre a sobrevivência do ser humano na era da Inteligência Artificial.

E cheguei a uma conclusão muito diferente. A maioria das pessoas deveria trabalhar em um escritório e evitar o trabalho solitário em casa. Trabalhar em casa é uma boa opção para quem virou pai/mãe recentemente, pessoas com deficiência e outros que não se sentem bem em um ambiente tradicional de escritório.

E vejo com simpatia os professores, os trabalhadores de restaurantes e outros profissionais para os quais trabalhar em casa nunca foi uma opção viável. Fãs do trabalho remoto citam estudos como o que apareceu em 2014, de autoria de Nicholas Bloom, um professor da Universidade Stanford, da Califórnia.

O estudo analisou os trabalhadores remotos de uma agência de viagens chinesa e constatou que eram 13% mais eficientes do que seus colegas no escritório. Mas a pesquisa mostrou também que o que o trabalho à distância ganha em produtividade, perde em benefícios mais difíceis de medir como a criatividade e o pensamento inovador.

Outros estudos constataram que as pessoas que trabalham juntas na mesma sala costumam resolver problemas mais rapidamente do que os colaboradores remotos, e que a coesão da equipe fica prejudicada quando as pessoas trabalham de casa. Os trabalhadores remotos fazem pausas menores e faltam menos por doença do que os que estão no escritório, além do que, em alguns estudos, muitos afirmam que acham difícil separar o seu trabalho da sua vida doméstica.

Trabalhar no isolamento pode ser solitário, o que explica a popularidade dos espaços compartilhados como WeWork e The Wing. De fato, ter de deslocar-se para trabalhar sempre foi mostrado como algo que nos torna menos felizes, enquanto o escritório de espaço aberto, que enfatiza uma menor privacidade, torna a concentração quase impossível.

Mas estar perto de outras pessoas também permite expressar qualidades como empatia e colaboração. “A interação social é realmente importante,” disse Laszlo Bock, diretor executivo da Humu, uma startup de recursos humanos. Algumas companhias tentam criar a cultura do escritório a distância.

Na GitLab, uma plataforma de colaboração, os trabalhadores remotos têm “pausas virtuais para o café” – conferências sociais por vídeo – com colegas. Se o coronavírus continuar mantendo os trabalhadores em casa, um número maior de companhias poderá ter de tentar táticas como esta para ajudar a manter os seus funcionários conectados.

Entretanto, alguns talvez nunca se sentirão satisfeitos com o bebedouro de água gelada virtuais. “É uma decisão muito pessoal que funciona para alguns e não funciona para outros”, disse Julia Austin, professora da Harvard Business School. “Algumas pessoas não se sentem felizes trabalhando sozinhas. “Vou ficar em casa até quando os meus chefes decidirem. Mas honestamente, não vejo a hora de voltar a trabalhar”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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