J. Zilhão
J. Zilhão

Homem de Neandertal, o primeiro artista incompreendido do mundo

Arqueologistas descobrem que pinturas em uma caverna na Espanha foram feitas por neandertais, não pelo homem moderno

Carl Zimmer, The New York Times

10 Março 2018 | 10h00

Faz tempo que ser chamado de homem de Neanderthal é um insulto. Mas, quando mais estudamos este primo misterioso e desaparecido do homem, mais aprendemos a respeitá-lo.

No mês passado, os pesquisadores ofereceram provas convincentes de que o homem de Neandertal apresentava um dos principais indícios da sofisticação mental: eram capazes de pintar na parede das cavernas. Esse talento indica que os neandertais eram capazes de pensar em símbolos e talvez tenham alcançado outros marcos que não ficam evidentes na análise dos fósseis.

“Quando encontramos símbolos, temos uma linguagem", disse João Zilhão, arqueólogo da Universidade de Barcelona e coautor do novo estudo.

Quando fósseis do homem de Neanderthal vieram à tona em meados do século 19, os pesquisadores ficaram surpresos com a fronte espessa de seus crânios. Descobertas posteriores mostraram que os neandertais tinham cérebros tão grandes quando o nosso, mas seus corpos eram menores e mais fortes. 

No início do século 20, os cientistas descreviam os neandertais como feras semelhantes aos gorilas, um ramo extinto da humanidade que não conseguiu concorrer com os humanos mais brilhantes e esguios. Mas as evidências encontradas nos fósseis e no DNA indicam que os neandertais e os humanos de hoje são descendentes de um ancestral comum que viveu há cerca de 600 mil anos. Nosso ramo provavelmente habitava a África.

Durante algumas centenas de milhares de anos após a formação das espécies diferentes, os ancestrais dos humanos deixaram para trás ferramentas como machados de pedra para cortar carcaças e lanças pontiagudas para a caça. Mas, há 70 mil anos, os humanos na África começaram a apresentar sinais de pensamento abstrato. Coloriam e furavam conchas marinhas, talvez para usá-las como adornos.

Os humanos de hoje começaram a se expandir a partir da África, chegando à Europa há cerca de 45 mil anos. Tinham se tornado capazes de esculpir o marfim e produzir pinturas extravagantes nas paredes de cavernas.

O homem de Neanderthal desapareceu abruptamente depois disso, há cerca de 40 mil anos, deixando para trás um rastro de fósseis da Espanha até a Sibéria. Inicialmente, os pesquisadores não encontraram sinais de pensamento simbólico. Mas, nos anos mais recentes, esse quadro mudou.

Os arqueólogos descobriram que os neandertais eram capazes de usar penas e garras de pássaros como adornos. Mas alguns cientistas se mostraram céticos, dizendo que os neandertais talvez fossem espertos o bastante para imitar os ornamentos, mas não para criá-los.

Zilhão se juntou aos arqueólogos Alistair G.W. Pike, da Universidade de Southampton, e Dirk L. Hoffmann, agora no Instituto de Antropologia Evolutiva Max Planck, na Alemanha, para ver se a pré-história da arte europeia poderia ser enxergada com mais clareza.

Em vez de estudos de radiocarbono, eles estudaram outro elemento químico. Quando a água entra nas cavernas, ela pode depositar uma camada leitosa de minerais nas paredes. Nestas encontramos pequenas quantias de urânio, que se degradam em tório. Quanto mais essa camada envelhece, maior a presença de tório nela.

Nas cavernas da Espanha, onde pinturas antigas foram descobertas nos cem anos mais recentes, os pesquisadores encontraram essas camadas minerais cobrindo partes da arte, e recolheram amostras para efeito de datação. Em três cavernas, algumas das artes tinham mais de 64 mil anos, cerca de 20 mil anos mais antigas que a primeira evidência da presença do homo sapiens sapiens na Europa. "Devem ter sido criadas por neandertais", disse Pike.

Um segundo estudo, publicado por João Zilhão e seus colegas no dia 22 de fevereiro na revista Science Advances, indica que os neandertais podem ter começado a pintar há muito mais que 64 mil anos.

Os cientistas viajaram para uma caverna na costa da Espanha, onde Zilhão descobrira conchas que tinham sido furadas e pintadas. Ele voltou à caverna para o procedimento de datação com urânio, modo como ele e os colegas descobriram uma camada de sedimento químico repousando na rocha onde eles tinham encontrado os adornos de conchas. A camada química foi datada como sendo de aproximadamente 115 mil anos atrás. As conchas furadas e coloridas não devem ser muito mais antigas do que isso. Essa descoberta revela fortes indícios de que as conchas foram feitas por neandertais.

Os estudos definem que os neandertais sabiam fazer coisas muito antes dos humanos, derrubando a ideia segundo a qual teriam apenas imitado os primos.

"Para todos os efeitos práticos, eles também eram humanos modernos", disse Zilhão.

Muitos pesquisadores alegaram que diferenças mentais entre os humanos modernos e os neandertais seriam o motivo por trás do desaparecimento da população do Homo neanderthalensis. Já se disse que nossos próprios ancestrais teriam criado soluções criativas para a sobrevivência. Mas a cultura dos homem de Neandertal se desenvolveu paralelamente àquela dos humanos modernos na África. Seu desaparecimento não é uma prova de inferioridade, mas apenas da mecânica inexorável da evolução.

"Os neandertais desapareceram", disse Zilhão. "Mas o mesmo vale para os índios Fueguinos. O mesmo ocorreu com os vikings da Groenlândia. A extinção de populações sempre fez parte da história humana".

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