Daro Sulakauri para The New York Times
Daro Sulakauri para The New York Times

Homem mais rico da Geórgia comanda maior projeto do país

Porto de águas profundas é oportunidade de capturar uma parcela maior do tráfego marítimo

David Segal, The New York Times

19 de julho de 2019 | 06h00

TBILISI, GEÓRGIA - O cidadão mais rico da república da Geórgia, Bidzina Ivanishvili, é um construtor nato. É dono daquela que pode ser facilmente considerada a estrutura privada mais chamativa de Tbilisi, um castelo futurista de aço e vidro de US$ 50 milhões apelidado de “castelo de vidro", situado em uma colina acima da cidade. Trata-se de um escritório particular de 10 mil metros quadrados, completo com heliporto, acero de arte moderna e tanque para tubarões.

Ivanishvili, 63 anos, também é um dos nomes mais poderosos da política da Geórgia e, em se tratando de construções de grande destaque, a aprovação dele é essencial, especialmente quando o dinheiro do contribuinte está envolvido. Nenhum projeto de construção atual recebe mais destaque do que o porto de águas profundas que pode ou não ser construído em Anaklia, cidade na costa do Mar Negro.

Apresentado aos investidores como oportunidade de capturar uma parcela maior do tráfego marítimo entre a Ásia Central e o Ocidente, o projeto do porto é promovido por um consórcio que inclui um grupo de investidores georgianos e empresas dos Estados Unidos e Grã-Bretanha.

Infelizmente para esses envolvidos, o projeto enfrenta seguidos obstáculos. Aparentemente, um deles é o próprio Ivanishvili. Publicamente, ele defendeu o porto. Mas o consórcio de Anaklia e vários críticos dizem que ele tem empreendido uma campanha pouco velada contra a construção.

Os boatos seriam apenas um exemplo de intriga política local, mas há para a Geórgia muito mais em jogo do que as aparências indicam. Durante anos, o país lutou para se livrar das raízes de república soviética e emergir da sombra da Rússia, sua vizinha e eterna antagonista.

Com sucesso esporádico, o país buscou uma verdadeira independência e a oportunidade de se reapresentar como um lugar amistoso para os investidores ocidentais, estrategicamente situado na intersecção entre Europa e Ásia. A construção do porto é planejada como um imenso salto nessa direção.

Mas, aqui, a história é difícil de ser superada. Em junho, foram convocadas muitas noites de protestos contra Moscou em Tbilisi, iniciados por um incidente diplomático e mantidos pela fúria em relação à Rússia e sua contínua ocupação de 20% do território georgiano perdidos após uma breve guerra em 2008.

O projeto do porto enfrentou problemas inexplicáveis. Em janeiro, o procurador-geral do país, que já foi advogado de Ivanishvili, anunciou uma investigação de lavagem de dinheiro envolvendo dois dos banqueiros do consórcio de Anaklia, citando transações realizadas há mais de dez anos. Não se sabe ao certo qual seria a vantagem de interromper o projeto, se é que este era de fato o objetivo. Mas líderes empresariais dizem que as acusações tiveram pouca relação com a justiça.

“O objetivo era desacreditar o projeto", disse Fady Asly, da Câmara Internacional do Comércio na Geórgia. “Munido de dois promotores, 48 horas e autoridade para investigar os 20 anos mais recentes, consigo colocar qualquer um na cadeia.” O porto de Anaklia se tornou um teste do lugar geopolítico ocupado pela Geórgia e seu governo no mundo.

O secretário de estado dos EUA, Mike Pompeo, mencionou o assunto durante coletiva de empresa com o primeiro-ministro georgiano em junho. Ele insistiu na conclusão do projeto, argumento que este “reforçaria as relações da Geórgia com as economias livres, evitando que a Geórgia se torne presa da influência econômica russa ou chinesa".

As dragas começaram a trabalhar em Anaklia, mas o projeto está atrasado. Descrita nominalmente como democracia parlamentar, a Geórgia tem muitas das características de um governo ocidental, incluindo eleições livres. Mas faz anos que o país é controlado por Ivanishvili, oligarca introvertido que nasceu pobre na Geórgia e, de acordo com os críticos, busca essencialmente ampliar sua fortuna.

Calculada em US$ 5 bilhões, essa fortuna é equivalente a aproximadamente um terço do PIB da Geórgia. Ganhou o dinheiro na Rússia durante a era de privatização descontrolada no país, vendendo computadores e telefones com botões e gerando capital suficiente para formar um dos primeiros bancos privados do país.

Posteriormente vieram os investimentos oportunos em bancos, imóveis e metais. Ivanishvili sempre manteve a discrição. Poucos georgianos conheciam a aparência dele quando fundou o Partido Sonho Georgiano, em 2011. Foi primeiro-ministro do país durante um ano após as eleições de 2012, mas seu único cargo público atual é o de líder do Partido Sonho.

Ele prefere exercer seu poder por meio de subordinados. O procurador-geral não é o único funcionário público de destaque que já trabalhou para ele. O chefe do aparato de segurança do estado já foi seu guarda-costas e, até o fim de junho, o ministro da saúde era seu médico pessoal.

Em Tbilisi, o grupo de combate à corrupção Transparência Internacional publicou no ano passado um estudo documentando dúzias de funcionários do alto escalão do governo, do judiciário, legislativo e executivo que já trabalharam para empresas ligadas a Ivanishvili. “Não temos mais casos de corrupção barata, como policiais pedindo subornos", disse Eka Gigauri, da organização de combate à corrupção. “Temos uma corrupção de elite.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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