Gordon Welters para The New York Times
Gordon Welters para The New York Times

Homens do leste da Alemanha incentivam guinada para a extrema direita

Um país novamente dividido pode ser um dos piores legados da chanceler Angela Merkel

Katrin Bennhold, The New York Times

18 de novembro de 2018 | 06h00

EBERSBACH-NEUGERSDSORF, ALEMANHA - Frank Dehmel estava nas ruas da Alemanha Oriental em 1989. Todas as segundas-feiras, saía em passeatas contra o regime comunista, exigindo liberdade e democracia e gritava com a multidão: "Nós somos o povo!" Trinta anos mais tarde, Dehmel está novamente nas ruas, mais velho e mais revoltado, e gritando o mesmo slogan - desta vez pela extrema direita.

Há 29 anos, no dia 9 de novembro, quando o Muro de Berlim caiu, ele ganhou a liberdade e a democracia. Mas perdeu todo o resto: seu emprego, sua condição social, seu país - e sua esposa. Como tantas outras mulheres do lado oriental, ele foi para o lado ocidental em busca de trabalho, e nunca mais voltou.

Entender a razão pela qual a extrema direita volta a protestar hoje na Alemanha ajuda a compreender as inúmeras reivindicações da maioria de seus leais defensores: os homens da antiga Alemanha Oriental.

O surgimento do "Homem do Leste" como força política desencadeadora de cisões é um dos principais legados dos 13 anos durante os quais a chanceler Angela Merkel permaneceu no poder. Recentemente, enquanto ela preparava a Alemanha para sua eventual saída política, alguns observaram que a Alemanha da chanceler está mais dividida entre os lados oriental e ocidental do que em qualquer outro momento desde a reunificação.

Não há dúvidas quanto ao considerável avanço da extrema direita na Alemanha. Nas eleições do ano passado, o partido Alternativa para a Alemanha, AfD na sigla em alemão, obteve 13% dos votos, o suficiente para tornar-se a principal voz da oposição no Parlamento. Agora é representado em todas as 16 legislaturas estaduais.

Mas o apoio à AfD no lado Oriental, em média, mais do que o dobro do que no Oeste. Entre os homens do lado Oriental, o partido é a força política mais forte, com 28% dos votos favoráveis à AfD no ano passado.

O homem do lado oriental, uma figura há muito tratada com condescendência, com comiseração ou apenas ignorada no lado ocidental, está prestes a reformular a política alemã.

Ninguém personifica mais as frustrações dos homens do Leste - ou tem sido mais o objeto de sua ira - do que Angela Merkel, uma mulher do Leste que ascendeu ao pináculo do poder e é o lembrete vivo de seus fracassos.

Ela nunca se tornou a embaixatriz do lado oriental pela qual o povo ansiava: o padrão de vida na região ainda é inferior ao do ocidental, mesmo depois de uma retomada econômica considerada traumática. Dehmel a chama de "traidora" e coisas ainda piores.

Depois da reunificação, lembra Dehmel, homens de terno do lado ocidental e a bordo de Mercedes-Benz foram à Saxônia, no Leste, e logo passaram a gerir negócios, dirigir universidades e ocupar postos no governo regional, "tomando conta da administração".

E isso aconteceu antes de mais de um milhão de homens, na maioria jovens, chegarem à Alemanha em busca de asilo em 2015.

"Eu não arrisquei minha pele naquela época para me tornar um cidadão de terceira classe", declarou Dehmel, hoje com 57 anos, contando nos dedos os degraus da hierarquia: "Em primeiro lugar estão os alemães ocidentais, depois os que vieram pedindo asilo, e então nós".

Um terço dos eleitores de sexo masculino da Saxônia votou na extrema direita no ano passado - muito mais do que em qualquer outro lugar do país.

"Temos uma crise de masculinidade no Leste e ela sustenta a extrema direita", afirmou Petra Köpping, ministra da Integração na Saxônia.

Quando a ministra assumiu o cargo, em 2014, achou que sua função seria cuidar da integração dos imigrantes. Mas quando centenas de milhares de pessoas em busca de asilo começaram a chegar na Alemanha um ano mais tarde, um homem branco, de meia idade, postou-se na frente dela em um encontro com a comunidade.

"Por que você não integra a gente antes de mais nada?", ele gritou.

A pergunta levou Köpping a percorrer seu estado de origem e a entrevistar homens enfurecidos. As esperanças frustradas e as humilhações de 1989, segundo ela, ainda são muito fortes.

Cerca de 3 milhões de empregos, a maioria deles em setores tradicionalmente masculinos, foram perdidos em dois anos. Os heróis da classe trabalhadora do socialismo tornaram-se os fracassados da classe trabalhadora do capitalismo.

Os homens da Alemanha Oriental foram abandonados por seu país reunificado praticamente da noite para o dia, afirmou a ministra. 

Além disso, eles foram deixados para trás pelas mulheres. O comunismo criou uma classe de mulheres independentes, muitas vezes com um alto grau de escolaridade, e que trabalhavam em empregos mais adaptáveis no setor de serviços do que os homens do Leste.

Depois da queda do muro, o lado Oriental perdeu mais de 10% de sua população. Dois terços dos que partiram e não voltaram eram mulheres jovens. Foi o caso mais agudo de fuga de mão de obra feminina da Europa, afirmou Reiner Klingholz, do Instituto para a População e o Desenvolvimento de Berlim.

Nas regiões rurais da Alemanha Oriental, os homens são mais numerosos do que as mulheres, e aquelas das quais as mulheres desapareceram coincidem quase exatamente com as que votaram pela Alternativa para a Alemanha.

"Na ascensão da extrema direita há um componente de gênero", afirmou Klingholz.

Apenas 16% dos membros registrados da AfD são mulheres. E apenas 9% das eleitoras femininas votaram no partido no ano passado, em comparação com 16% dos homens.

A cidade natal de Dehmel, Ebersbach, outrora um florescente centro da indústria têxtil na fronteira checa, perdeu sete em cada dez empregos e quase a metade de sua população depois de 1989. Escolas fecharam e os serviços de trem foram cortados. Para deter o declínio, ela foi fundida à vizinha Neugershof.

Havia duas mulheres para cada três homens entre 22 e 35 anos quando Klingholz e sua equipe visitaram a cidade em 2007. Esta geração é 11 anos mais velha - o grosso dos eleitores da Alternativa para a Alemanha.

Oliver Graf é um deles. Ele trabalha na construção e como voluntário no corpo de bombeiros local. Ele afirma que quase não conhece mínguem "que não tenha votado na AfD", o partido mais forte da cidade. Aos 37 anos, Graf diz que está pronto para começar uma família, mas é solteiro, como vários de seus amigos. Este é um dos temas de suas conversas, afirmou. Na sua opinião: "É difícil encontrar alguém".

Recentemente, Dehmel estava comprando munição para seu fuzil na loja de armas da cidade. Gunther Fritz, o dono da loja, disse que não por acaso os slogans nas ruas em 2018 são os mesmos de 1989.

"Naquela época, tínhamos uma sensação de poder, e não vamos deixar que ninguém o tire de nós", afirmou. "O Ocidente recebeu a democracia depois da guerra; no Leste, tivemos de buscá-la nós mesmos. Veja bem, nós derrubamos um sistema. Podemos fazer isso de novo". / Christopher F. Schuetze contribuiu para a reportagem.

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