Anna Liminowicz / The New York Times
Anna Liminowicz / The New York Times

Homofobia tem sido praxe em discursos políticos na Polônia

O partido que governa o país, Lei e Justiça, criminaliza sexualidades diferentes da heteronormativa por ser uma 'ameaça à civilização' 

Marc Santora, The New York Times

18 de abril de 2019 | 06h00

VARSÓVIA - Durante a infância em uma cidadezinha no sul da Polônia, disseram a Maciej Gosniowski que havia algo de errado com ele. “Seria melhor se eu mudasse meu jeito de ser", aconselhavam os professores. “Seria melhor se eu me comportasse mais como um menino. Minha vida seria mais fácil”.

Gosniowski foi espancado por outros alunos, que usavam ofensas homofóbicas. Ele não quer que outros jovens sofram como ele e, assim, foi favorável à decisão do prefeito de Varsóvia apresentando uma declaração voltada à promoção da tolerância. Mas a reação a essa declaração o deixou abalado. O partido que governa a Polônia, Lei e Justiça, se concentrou na questão dos direitos de gays na sua campanha para as eleições da União Europeia, em maio, e as eleições nacionais no segundo semestre.

Isso é parte de uma crescente tendência no leste e no centro da Europa, onde a sigla LGBT é ridicularizada como parte de uma campanha mais ampla contra aquilo que nacionalistas e populistas chamam de “valores europeus". 

O líder do Lei e Justiça, Jaroslaw Kaczynski, o político mais poderoso da Polônia, declarou que essa era uma guerra que a Polônia tem de vencer.“Como sabemos hoje, é tudo uma questão de sexualizar as crianças desde a primeira infância", disse. “Temos de defender a família polonesa. Temos de defendê-la furiosamente porque se trata de uma ameaça à civilização, não apenas à Polônia, mas a toda Europa”.

O reverendo Marek Dziewiecki, um conhecido padre católico, supôs recentemente a uma estação de rádio que o símbolo de mais na sigla “LGBTQ+” representava “pedófilos, zoófilos, necrófilos”, e seu objetivo final seria “transformar todos em tarados estéreis".

O prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, se disse preocupado com o tipo de propaganda que os veículos do estado produziram em resposta à declaração. “Estão criando políticas públicas com base no medo", afirmou. “Eles começaram há alguns anos, com os refugiados, apresentando um quadro apocalíptico no qual seríamos inundados por centenas de milhares de imigrantes que vão estuprar nossas mulheres e trazer doenças à Polônia. Agora, estão fazendo exatamente a mesma coisa.”

Trzaskowski disse não acreditar que os ataques contra gays terão um resultado tão eficaz quanto a campanha contra imigrantes. Uma pesquisa recente de opinião pública revelou que 56% dos poloneses não se opõem a uniões civis; dois anos atrás, essa proporção era de 52%. Mas, ao mesmo tempo, os poloneses ainda são contrários à adoção por casais gays, ideia que só tem apoio de 18% da população.

A declaração de Varsóvia pede que as escolas tenham educação sexual seguindo os parâmetros definidos pela Organização Mundial da Saúde, e a criação de um abrigo na cidade para receber pessoas que tenham sido banidas pela família ou pela comunidade.

Gosniowski, que se assumiu gay pouco depois do ensino médio e trabalha como uma das poucas drag queens do país, disse agora sentir-se seguro em relação à sua sexualidade. Os jovens costumam perguntar a ele a respeito de maneiras seguras de "sair do armário". “Sinto que sou necessário aqui", orgulhou-se.

De acordo com ele, por mais alarmantes que sejam as ofensas dirigidas a gays, ele também ficou surpreso com as numerosas manifestações de apoio. “Os dois extremos da sociedade parecem estar cada vez mais distantes", analisou. “Recebi mais apoio do que nunca. Mas também encontrei as pessoas mais odiosas de todos os tempos”. / JOANNA BERENDT CONTRIBUIU COM A REPORTAGEM

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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