Ronald Wittek/European Pressphoto Agency
Ronald Wittek/European Pressphoto Agency

Relações homoafetivas no reino animal sob nova perspectivas

Biólogos evolucionários sugerem que o comportamento homossexual persiste porque ajuda bichos sociais a manterem comunidades

Asher Elbein, The New York Times

24 de dezembro de 2019 | 06h00

Os grilos-do-campo machos dançam e cantam em rituais de acasalamento entre si. As fêmeas do macaco-japonês formam casais temporários, mas exclusivamente sexuais. Ocasionalmente, os caranguejos-marrons machos se dedicam a sessões de sexo que duram dias. Mais de 1.500 espécies da maioria das principais famílias de animais foram observadas em atividade sexual com indivíduos do mesmo sexo. Mas as origens desse comportamento há muito desafiam os biólogos evolucionários. Como esse comportamento teria nascido e persistido em tantas linhagens, por mais que não facilite diretamente a reprodução?

Talvez essa seja a pergunta errada, de acordo com um grupo de pesquisadores envolvidos em um estudo publicado recentemente na revista Nature Ecology and Evolution. “A expectativa é de que o comportamento sexual entre o mesmo gênero tenha evoluído independentemente em diferentes espécies, em meio ao contexto padrão do sexo heterossexual", diz a pesquisadora Ambika Kamath, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e coautora do estudo. “O que estamos dizendo é que o comportamento que consideramos padrão não é necessariamente o padrão observado na natureza.”

Alguns biólogos evolucionários sugeriram que o comportamento homossexual persiste porque ajuda animais sociais a manterem comunidades, de acordo com o biólogo Max Lambert, de Berkeley, outro coautor do estudo. A maioria concorda que deve haver algum benefício evolucionário.

Nenhuma dessas explicações satisfez Julia Monk, doutoranda pela Universidade Yale e principal autora do estudo. Julia e seus colegas sugerem que o comportamento homossexual estaria presente nas partes mais antigas da árvore genealógica animal. É possível que os primeiros animais de reprodução sexual mantivessem relações com qualquer indivíduo que encontrassem, independentemente do gênero.

De acordo com Julia, com o tempo, os indicadores de gênero evoluíram, permitindo que os diferentes gêneros procurassem mais diretamente um ao outro para a reprodução. Mas o comportamento homossexual prosseguiu em alguns organismos, levando a comportamentos e estratégias sexuais variados no reino animal. Ainda que o comportamento sexual traga alguns benefícios evolutivos, uma origem ancestral significaria que esses benefícios não teriam sido necessários para a existência do comportamento.

Segundo Lambert, um dos problemas das pesquisas anteriores era o fato de projeções culturais inconscientes resultarem em uma grande dificuldade de muitos pesquisadores em documentar de maneira precisa o que estavam observando. “Estamos nos deparando com muitas novas observações de comportamento sexual porque as pessoas que as analisavam no passado pensavam estar diante de uma anormalidade, com base em uma noção prévia de como o mundo deveria funcionar", explicou o biólogo.

Julia e seus colegas dizem que inverter as suposições culturais pode render melhores resultados nas pesquisas. “Para nós, é importante reconhecer enquanto cientistas que, embora adoraríamos pensar no nosso trabalho como algo objetivo, tudo está inserido no contexto na nossa cultura", argumentou Julia. “Às vezes, temos uma visão muito exclusiva do que seria uma vantagem evolutiva, e podemos adotar uma visão mais inclusiva.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
animalhomossexualidade

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.