Laura Boushnak/The New York Times
Laura Boushnak/The New York Times

Após documentário, equipe de filmagem segue envolvida com seus personagens

Indicado para dois Oscars, 'Honeyland' traçou as tensões entre uma apicultora eremita e seus vizinhos desordeiros

Patrick Kingsley, The New York Times - Life/Style

30 de setembro de 2020 | 05h00

BEKIRLIJA, MACEDÔNIA DO NORTE - Quando o produtor e os dois diretores de Honeyland retornaram ao set de filmagem do seu documentário, na Macedônia do Norte, pela primeira vez desde que conquistaram duas indicações ao Oscar em fevereiro, algo fundamental havia mudado.

O filme relata as tensões entre Hatidze Muratova, uma apicultora local e um fazendeiro na remota aldeia de Bekirlija. Comprimido entre duas colinas rochosas e cercado por águias imperiais, o vilarejo só pode ser acessado com um veículo 4x4 seguindo uma estrada íngreme e esburacada.

Muitas casas em ruínas estão sendo lentamente tomadas pela vegetação. Muratova, uma das últimas residentes da aldeia, e estrela de Honeyland, ainda esperava os cineastas com um sorriso e um café. Mas a sala de estar escura e desconfortável da casa, local da cena mais comovente do filme, não mais era habitável.

“Agora o local e as pessoas são diferentes”, disse Ljubomir Stefanov, um dos codiretores do filme, sentado no jardim da casa. “E posso entender o que ela sente por esta não ser mais sua única casa”. E isto graças amplamente a Stefanov e seus colegas. Usando dinheiro de prêmio conquistado pelo filme, ele e seus demais colaboradores compraram uma nova casa para ela em Dorfulijia, um vilarejo maior e mais rico a cerca de uma hora de carro dali.

Ela hoje divide seu tempo entre os dois locais. E essa mudança mostra um problema ético ainda maior que Stefanov e seus colegas vêm enfrentando desde que concluíram a filmagem – e com o qual os produtores de documentários deparam há muito tempo: como observadores, devem ajudar as pessoas retratadas em seu filme? E como humanos, como não podem ajudar? Alguns produtores e equipe costumam manter uma distância profissional das pessoas dos seus filmes depois deles serem concluídos.

“Mas decidimos quebrar a regra”, disse Atanas Georgiev, que produziu o documentário. “O filme retrata como Muratova e Hussein Sam, um fazendeiro seminômade, procuram coexistir num dos bolsões mais pobres da Macedônia do Norte. Por ocasião das filmagens, Muratova já vivia o ano todo em Bekirlija, ao passo que a caótica família de Sam apenas visitava o local, perturbando a existência tranquila da apicultora.

O filme foi produzido com um orçamento apertado, mas teve uma bilheteria de mais de US$ 1 milhão, transformando os produtores em queridinhos entre os documentaristas. E talvez tenha tornado Muratova uma das mais famosas apicultoras do mundo. O documentário conquistou três prêmios no Sundance Film Festival e foi indicado ao Oscar de melhor documentário e melhor filme internacional pela Academia de Cinema.

A. O. Scott, crítico de cinema do The New York Times, qualificou-o como filme número um de 2019. Num mundo mais simples, Georgiev, Stefanov e a codiretora Tamara Kotwvska estariam desfrutando do sucesso e se concentrando em novos projetos. Mas os diretores de Honeyland, junto com dois cinegrafistas, passaram três anos indo e voltando em visita a essas famílias. Esse processo intenso no final empurrou Muratova e Sam, pessoas vulneráveis que nunca entraram num cinema, para os holofotes da mídia.

E as complexidades desta transição criou um choque entre os deveres profissionais dos cineastas como observadores realistas e as expectativas emocionais das pessoas representadas nos seus filmes como humanos e amigos. Agora eles não conseguem deixar inteiramente essas pessoas, servindo como mediadores, e ocasionalmente protagonistas, das tensões locais das quais foram somente testemunhas.

“Para a equipe do filme, tem sido mais difícil lidar conosco depois de concluído o trabalho do que durante as próprias filmagens”, disse a apicultora. Ambos membros da minoria turca da Macedônia do Norte, Muratova, de 56 anos, e Sam, de 70, têm raízes similares, mas enfoques de vida totalmente diferentes. Calma e gentil, ela tem uma profunda relação de respeito com a natureza, tratando suas abelhas quase como colaboradoras. Sam encara de maneira mais casuística suas vacas, vendo-as quase como antagonistas.

Muratova nunca se casou, ao passo que Sam tem oito filhos irrequietos. No filme, as relações entre os dois são péssimas. Sam ignorou o aviso dela sobre como começar sua própria colônia de abelhas, levando as suas a atacarem as dela e arruinando todo o meio de sobrevivência de Muratova. Mas o período retratado no filme provou ter uma fase rara de calma num conflito que havia começado bem antes das filmagens serem iniciadas e que se intensificou desde que o filme foi concluído. Durante a pós-produção, os dois ficaram presos numa disputa sobre um poço comum em Bekirlija.

Sam queria a água do poço para suas vacas e ela dizia que ele era apenas para consumo humano. Em seguida, houve uma disputa legal sobre um incidente ocorrido antes do filme em que ela foi atacada por cães de Sam. Envolvida na disputa, a equipe procurou se manter neutra, fornecendo assistência jurídica para as duas partes e depois intermediando um acordo com base no qual Muratova retiraria sua queixa em troca da promessa de Sam de adotar um comportamento futuro baseado num conjunto de princípios.

Para aplacar a pressão sobre ele mesmo ao servir de árbitro no caso, Georgiev criou uma fundação que trabalha com as famílias de modo independente. Uma assistente social voluntária hoje ajuda ambas as famílias a superarem a lista sem fim de problemas logísticos e sociais, incluindo a criação de contas bancárias e se matricularem no órgão de previdência social.

Este tipo de envolvimento em parte é um ato egoísta, disse Georgiev – um meio de salvar a consciência da equipe de produção por obter benefícios profissionais com as vidas de Sam e Muratova e repelir as críticas públicas. Mas também é “uma espécie de retorno”. “Normalmente não interferimos com nossos protagonistas, mas quando percebemos que Honeyland seria um grande sucesso, achamos que tínhamos de fazer alguma coisa.

Mas a transformação da vida de Muratova não é necessariamente algo a lamentar, disse Stefanov. “A vida não é um processo infinito. Tem fases. E esta é a sua vontade”. E mesmo como a nova fama, Muratova diz que ainda continua fiel à sua vocação. E em sua velha casa em Bekirlija exibiu seu mais recente balde de mel líquido. Mas não atendeu ao pedido para abrir suas colmeias, escondidas nos penhascos de uma montanha vizinha, temendo que o calor do sol do meio dia prejudicasse os favos. “Mesmo estando num filme ainda vou cuidar das minhas abelhas”, disse ela. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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