Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Amarelo ou azul? Em Hong Kong, as empresas escolhem lados políticos

Restaurantes estão sendo rotulados de amarelo, como apoio ao movimento de protesto da cidade, ou azul, em defesa da polícia; mudança provoca grande impacto econômico

Hannah Beech, The New York Times

25 de janeiro de 2020 | 06h00

HONG KONG - As pérolas de tapioca da casa de chá de Fred Liu são macias e frescas, assim como as almôndegas de peixe da casa de massas de Elaine Lau. Mas esse não é o único motivo que traz os fregueses a esses endereços no distrito comercial de Hong Kong. Ambos fazem parte da economia amarela, estabelecimentos que apoiam abertamente o movimento em defesa da democracia que está reformando Hong Kong enquanto a cidade tenta preservar as liberdades que a diferenciam do restante da China.

Depois de mais de sete meses de protestos nas ruas contra o ataque de Pequim a essas liberdades, Hong Kong se tornou palco de uma divisão amarga, expressada em cores. Economia amarela é uma referência à cor dos guarda-chuvas inicialmente usados pelos manifestantes para se defender do gás lacrimogêneo e spray de pimenta. O outro lado dessa moeda é a economia azul, que defende a polícia.

Famílias e estabelecimentos comerciais se dividiram entre aqueles para quem Pequim deve levar a cabo as reformas prometidas e aqueles para quem a cruzada pela democracia está destruindo a reputação de Hong Kong enquanto capital financeira estável. É difícil encontrar um meio-termo entre esses posicionamentos. “Sou amarela, mas meus pais são azuis", disse Elaine, que vende macarrão com almôndegas de peixe. “Muitas famílias estão em situação parecida".

“Por sorte, controlo 90% do restaurante", acrescentou ela. “Assim, posso fazer o que quiser aqui". A casa de massas de Elaine e a casa de chá de Liu estão repletas de mensagens de incentivo para as forças que defendem a democracia. Mapas e aplicativos mostrando o lado defendido por cada estabelecimento ajudam a atrair os consumidores para as lojas desejadas.

“Queremos mostrar ao Partido Comunista Chinês que o povo de Hong Kong pode ser economicamente autossuficiente por meio do círculo da economia amarela", explicou Liu, acrescentando que, se dependesse dele, “os estabelecimentos azuis merecem fechar". Hong Kong prosperou por causa de sua população, em geral formada por imigrantes que deixaram a China em busca de perspectivas melhores na ex-colônia britânica.

Mas meses de instabilidade afetaram a economia de Hong Kong, que entrou em recessão no ano passado. Turistas da China continental, uma fonte de renda essencial, pararam de visitar a cidade por causa do caos. O varejo caiu muito. Os donos de pequenos negócios, cujas operações representam a maioria dos empreendimentos de Hong Kong, estão suportando os piores efeitos do declínio econômico.

Empresas de ambos os lados foram atacadas. Na mesma rua da casa de chá de Liu, vândalos jogaram tinta vermelha em uma banca de comida conhecida por defender os amarelos, enquanto uma lanchonete considerada pró-Pequim foi danificada. Rocky Siu observou enquanto os manifestantes marchavam em frente ao seu restaurante de lámen. Ele abriu as portas, oferecendo macarrão pela metade do preço.

O pai de Siu nasceu na China e veio a Hong Kong em busca de uma vida melhor. Mas ele é dono de uma fábrica de joias no continente e, de acordo com Siu, “o sangue dele é azul". “Eu digo a ele que não entendo: ‘Você fugiu da China e agora está apoiando o governo?’” questionou. “Para mim, não é questão de azul ou amarelo, e sim de preto ou branco, certo ou errado.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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