Lam Yik Fei para The New York Times
Lam Yik Fei para The New York Times

Em 'limbo jurídico', jovens de Hong Kong fogem para Taiwan

Crescente clima de desconfiança está levando alguns manifestantes a deixarem Hong Kong. Eles temem não receber tratamento justo nos tribunais

Cora Engelbrecht, The New York Times

14 de dezembro de 2019 | 06h00

TAIPEI, TAIWAN - Usando camiseta, o trio de jovens de cabelo amassado e mochila se sentou em uma mesa da praça de alimentação do refeitório do aeroporto de Taipei parecendo estudantes perdidos, e não manifestantes em fuga. Poucas noites antes, eles arremessavam coquetéis molotov nos protestos contra o governo que agitam Hong Kong há meses. Mas, depois que a polícia deteve dois de seus amigos, eles temeram que seriam os próximos.

Desesperados, enviaram um pedido de ajuda a um grupo privado na internet conhecido por ajudar as pessoas interessadas em fugir para Taiwan. Em questão de horas, estavam em um avião com destino à capital, Taipei. “Estamos fugindo da lei", disse um dos manifestantes. “Não havia muito tempo para entender o que estava acontecendo.”

Eles estão entre os mais de 200 jovens manifestantes que fugiram para Taiwan desde o início dos protestos por democracia em Hong Kong este ano, de acordo com advogados, pastores e outros colaboradores que os ajudaram a fugir. Os advogados disseram que dezenas de manifestantes chegaram nas semanas mais recentes, depois de ficarem presos em campi universitários sitiados pela polícia.

A fuga é motivada pelo medo. Os manifestantes costumam enfrentar gás lacrimogêneo, cassetetes e canhões d’água nas mãos da polícia. Frustrados com a falta de resultado das táticas pacíficas, alguns manifestantes se tornaram mais agressivos, vandalizando edifícios e arremessando tijolos na polícia. Desde o início das manifestações, em junho, mais de cinco mil pessoas foram detidas, e centenas foram acusadas, podendo receber pesadas sentenças.

Ainda que muitos prometam resistir indefinidamente, um crescente clima de desconfiança está levando alguns manifestantes a deixarem Hong Kong. Eles temem não receber tratamento justo nos tribunais. Ou temem ser vítimas de abusos durante a detenção, citando alegações de abuso sexual e boatos de tortura.

Outros buscam atendimento médico em Taiwan depois de saberem de apreensões ocorridas nos hospitais de Hong Kong. “Eles sabem que podem receber penas de 10 anos de prisão por arremessar um tijolo", disse o advogado Chris Ng, que defende manifestantes detidos. “Perderam a fé no sistema judiciário de Hong Kong.”

De Hong Kong a Taiwan, uma rede clandestina de simpatizantes entrou em ação, operando esconderijos seguros e orquestrando as fugas. Doadores ricos e grupos humanitários pagam pelas passagens aéreas. Voluntários trazem manifestantes até os aeroporto e do aeroporto à cidade. Pescadores oferecem seus barcos como transporte cobrando até US$ 10 mil por pessoa. Pastores determinam rotas seguras de contrabando para manifestantes detidos que tiveram o passaporte apreendido.

Como Hong Kong, Taiwan tem um histórico de refúgio para os dissidentes do continente. Pequim considera Taiwan parte da China, mas líderes taiwaneses afirmam sua soberania. Muitos taiwaneses defenderam os protestos, preocupados com o avanço das autoridades chinesas em Hong Kong e o significado disso para o futuro de sua ilha democrática. Ainda assim, o governo avança com calma, temendo provocar Pequim com a aprovação de leis de asilo mais permissivas. Muitos daqueles que chegam buscando refúgio se descobrem em um limbo jurídico, recebendo apenas vistos temporários.

A manifestante Ali, estudante do último ano na Universidade Hang Seng, foi detida duas vezes, recebendo acusações que podem resultar em até 10 anos de prisão. De acordo com ela, na segunda ocasião, ela foi mantida em um estacionamento por 48 horas na companhia de 70 outros manifestantes.

“Não havia privacidade", disse Ali. Ela contou que policiais entravam no banheiro sem avisar, e disse que ouvia enquanto outros manifestantes eram interrogados. Detida, ela perdeu o primeiro dia de trabalho como professora-assistente em uma escola do ensino fundamental, e foi demitida. Enquanto aguarda julgamento, o sonho de se tornar professora parece cada vez mais distante. “É como imaginar uma vida anterior", disse ela.

“Meu futuro foi arruinado", disse Ali na casa da avó, onde mora. Depois que teve o passaporte confiscado, ela teria que apostar em contrabandistas para chegar de barco a Taiwan. Mesmo assim, ela não quer deixar para trás a avó de 80 anos. “Ela não consegue mais se cuidar", disse a jovem. “E não sei se eu conseguiria voltar um dia.” / Vivien Wong contribuiu com a reportagem. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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