Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

Pandemia coloca hotéis de Nova York à beira do precipício

As paralisações deveriam ser temporárias, mas seis meses depois, uma onda de fechamentos começou

Patrick McGeehan, The New York Times - Life/Style

18 de outubro de 2020 | 05h00

NOVA YORK - Muitos dos maiores hotéis da cidade de Nova York fecharam suas portas em março, quando o novo coronavírus acabou com o turismo e as viagens de negócios. As paralisações deveriam ser temporárias, mas seis meses depois, sem nenhum fluxo potencial de visitantes à vista, uma onda de fechamentos permanentes foi iniciada.

Afundando sob o peso de pagamentos de hipotecas e impostos sobre propriedades em atraso, alguns hotéis já fecharam para sempre e muitos outros estão lutando para sobreviver. Nas últimas duas semanas, o Hilton Times Square de 478 quartos e dois hotéis Courtyard by Marriott, em Manhattan, disseram que não iriam reabrir, juntando-se a vários outros que já haviam fechado para sempre, incluindo o Omni Berkshire Place de 399 quartos no centro da cidade.

Ao todo, mais de 25 mil funcionários de hotéis estão sem trabalho há mais de seis meses, tornando a indústria uma das mais atingidas na cidade e emblemática dos desafios que Nova York enfrenta ao tentar se recuperar da crise econômica provocada pelo surto do novo coronavírus.

Especialistas financeiros dizem que esperam que o ritmo de falências de hotéis se acelere à medida que os credores perdem a paciência após meio ano de pandemia. “Em Nova York, o outono é realmente a estação mais forte do ano para os hotéis”, disse Douglas Hercher, diretor-gerente do Robert Douglas, um banco de investimentos especializado em hotéis. “Começa com a Assembleia Geral das Nações Unidas, convenções, feriados, os Rockettes. Toda aquela temporada basicamente será aniquilada”.

Vijay Dandapani, presidente da Associação de Hotéis da cidade de Nova York, que representa 300 dos hotéis da cidade, estava igualmente taciturno em relação às perspectivas do setor. “O ano está acabando”, disse ele em uma entrevista. “É uma destruição completa”. Dandapani disse que, no final do verão [no hemisfério norte], apenas 7% dos cerca de 120 mil quartos de hotel da cidade estavam ocupados por hóspedes tradicionais.

A taxa de ocupação geral dos hotéis da cidade ficou perto de 40%, ante mais de 80% um ano antes, de acordo com a STR, que acompanha a indústria hoteleira. Quando praticamente todas as viagens de negócios e lazer foram paralisadas em março, os hotéis rapidamente dispensaram seus funcionários e fecharam suas portas. Mais de 30 mil trabalhadores sindicalizados de hotéis foram mandados para casa.

No início, a expectativa geral do setor era de que o lockdown imposto pelo estado fosse amenizado muito antes e as paralisações de atividades durassem apenas alguns meses. Então, no final de junho, o governador Andrew Cuomo anunciou que os visitantes de uma lista de estados com altas taxas de infecção teriam que ficar em quarentena por 14 dias após a chegada em Nova York.

Essa lista cresceu para incluir até 34 estados, cortando qualquer esperança real de negócios domésticos, enquanto as viagens internacionais foram essencialmente interrompidas depois que os Estados Unidos proibiram a entrada de viajantes de muitas partes do mundo, incluindo a maior parte da Europa, China e Brasil. “Esta quarentena realmente colocou a faca no pescoço”, disse Dandapani.

A quarentena, combinada com as restrições às reuniões públicas, deixou os hotéis com poucos clientes para disputar. O torneio de tênis US Open é o maior evento esportivo do ano para hotéis normalmente, disse Dandapani. Mas este ano, sem torcedores nas arquibancadas, ocupou apenas um hotel, aquele onde ficaram hospedados todos os jogadores e funcionários do torneio, disse ele.

As maiores fontes de hóspedes neste verão foram os profissionais da saúde e os sem-teto que a cidade colocou em hotéis para limitar a propagação do vírus, disse Dandapani. Cerca de 180 hotéis atendem a esses grupos, disse ele. Cristina Marino trabalhava como garçonete no bar da cobertura do Hyatt Centric Times Square desde sua inauguração, há cerca de cinco anos. Ela e o marido, um barman do mesmo hotel, foram despedidos e começaram a receber seguro-desemprego.

Eles estão aguardando ansiosamente uma ligação para voltar ao trabalho. Cristina disse que seus gerentes estavam ansiosos para reabrir e estabeleceram três datas diferentes de reabertura: um plano de reabertura em agosto foi adiado para setembro, depois para outubro e, mais recentemente, até novembro. “Isso é difícil e realmente frustrante porque estamos morrendo de vontade de voltar a trabalhar”, disse Cristina, que contou estar grávida de quatro meses de seu primeiro filho.

“Amamos nossos empregos”. Cristina disse que ela e seu marido, residentes do bairro de Riverdale, no Bronx, tinham se saído bem com o seguro-desemprego, incluindo os US$ 600 de benefícios semanais suplementares do governo federal que acabaram em julho. Eles estavam esperando o valor de três semanas dos pagamentos de US$ 300 da Agência Federal de Gestão de Emergências que o presidente Donald Trump planejou.

Os benefícios de saúde tinham sido programados para expirar no final de agosto, mas os dirigentes sindicais conseguiram uma prorrogação, paga pelos hotéis, até o final do ano. Esse acordo poupou duas das clínicas que o fundo de saúde do sindicato opera, uma no Harlem e outra no Brooklyn, que deveriam ser fechadas em outubro.

“Precisamos de cuidados de saúde”, disse Cristina. Tom Blundell, gerente geral do Hyatt Centric, disse que tem tomado uma decisão no final de cada mês em relação a quando uma reabertura parece viável. “É uma espécie de alvo móvel”, disse ele. Ele recentemente definiu 10 de novembro como a data, mas disse em uma entrevista que a reabertura dependeria de um relaxamento das regras de quarentena do estado, para começar.

Acabar com a proibição de viajantes internacionais também é fundamental para restaurar a lucratividade do hotel, acrescentou. “Isso nos levaria de volta a um lugar onde poderíamos realmente lutar pela sobrevivência”, disse ele. “Com todas essas coisas no lugar, não há realmente uma luta para lutar”. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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