Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times

Hotel Chelsea, que recebeu nomes como Mark Twain e Bob Dylan, tem portas leiloadas

As valiosas relíquias do hotel foram recuperadas por um antigo hóspede, que as resgatou do lixo

James Barron, The New York Times

11 Maio 2018 | 15h45

Antes elegantemente envelhecido, hoje em reforma, o Chelsea Hotel foi chamado de muitas coisas ao longo dos anos: ponto de encontro (escritores como Mark Twain, Tom Wolfe e Jack Kerouac o chamavam de lar); cena de crime (depois que o roqueiro punk Sid Vicious foi acusado de esfaquear a namorada até a morte em seu quarto, em 1978); inspiração para futuros pais (Bill e Hillary Clinton deram à filha o nome de Chelsea por causa da música “Chelsea Morning”).

Agora, 52 portas do hotel foram leiloadas pela casa de leilões Guernsey’s, em Nova York.

E com algumas justaposições desnorteantes: Iggy Pop e Bette Davis dividiram o quarto 126, com décadas de intervalo. Tennessee Williams e Jon Bon Jovi viveram em um mesmo quarto do quinto andar, em momentos diferentes. Alguns preços também foram desnorteantes: a porta de Janis Joplin / Leonard Cohen foi vendida por US$ 106 mil; a de Andy Warhol / Edie Sedgwick ficou por US$ 65 mil, de acordo com a casa de leilões.

As portas foram resgatadas por Jim Georgiou, um ex-inquilino que visitou o prédio depois que as reformas começaram e se deparou com os pedreiros. “Eu falei: ‘Vocês têm ideia do que estão fazendo aqui? Isto é história’”.

Georgiou levantou todo o material sobre as portas pesquisando a história do hotel, lendo e conversando com pessoas cujas memórias avançavam décadas no passado. As portas “se abrem para o meu coração”, disse ele. Parte da renda foi para uma instituição de caridade da cidade.

O hotel já teve inquilinos de longo prazo e também hóspedes de passagem (como Humphrey Bogart, que chegou bêbado em uma noite de 1951, deu entrada no hotel, destruiu o quarto, desmaiou e foi embora no dia seguinte). O hotel parou de fazer reservas para hóspedes em 2011 e cancelou as estadias que estavam agendadas.

Georgiou disse que ocupou o quarto 225, que, é claro, também tem história. “Eu morava no quarto de Bob Dylan”, contou. Ou, pelo menos, em um dos quartos de Dylan. “Ele morou em três quartos diferentes: 211, 215 e 225”. A porta de Bob Dylan foi vendida por US$ 125 mil.

Ele ligou para a Guernsey’s, que já encontrou compradores para tudo, de Rembrandt e Renoir a artigos de beisebol por US$ 3 milhões. “As portas são tudo, menos bonitas”, disse Arlan Ettinger, presidente da Guernsey’s. “São objetos icônicos, mas, como acontece em muitos outros casos, o importante não é sua presença física, e sim o que eles representam”.

Georgiou disse que morou no Chelsea de setembro de 2002 a abril de 2011. Antes, era diretor de uma start-up de internet e morava no centro, de onde testemunhou os ataques de 11 de setembro. Ele se mudou por causa de problemas de saúde e de um revés financeiro. E acabou no Chelsea. O hotel tinha o que ele chamou de “espírito utópico”.

“Era um negócio como qualquer outro, claro, mas havia uma excentricidade, uma estranheza, uma escuridão, uma luz, tudo se juntando para fazer do hotel um lugar muito interessante”.

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