Akos Stiller / The New York Times
Akos Stiller / The New York Times

Na Hungria, o foco é no futebol, não na saúde

No governo Orban, a Arena Pancho tem campo aquecido, museu e clínica médica; enquanto isso, profissionais da saúde deixam o país

Patrick Kingsley e Benjamin Novak, The New York Times

31 de outubro de 2019 | 06h00

FELCSUT, HUNGRIA – A Arena Pancho fica a cerca de 20 metros do país de Viktor Orban, o primeiro-ministro da Hungria. No estádio de futebol profissional , o campo é aquecido, há um museu, uma clínica médica imaculada e 3.814 assentos – o dobro da população da aldeia ao redor.

No mesmo condado, o maior hospital público, o São George, está em más condições. Uma noite, recentemente, no pronto socorro, o banheiro das mulheres ficou sem sabão e o dos homens não tinha  urinóis. Dois médicos lutavam para tratar de um grande número de pacientes, e depois da meia-noite, ainda havia 30 pessoas na fila de espera.

Estádios de futebol espetaculares, mas hospitais decrépitos. O contraste reflete as prioridades de Orban, atualmente um dos mais poderosos líderes europeus de extrema direita que se apresenta como um campeão dos cidadãos comuns e o flagelo das elites europeias.

Os húngaros comuns sofrem tremendamente enquanto o país despenca nas classificações europeias na saúde e muitos médicos emigraram desde que Orban subiu ao cargo, em 2010. A assistência médica foi mal administrada nas administrações anteriores, mas Orban supervisionou a queda dos recursos destinados à saúde, em relação à produção econômica nacional.

Ao mesmo tempo, Orban forçou a aprovação de um programa que permitiu que as empresas desviassem pelo menos US$ 1,5 bilhão em impostos corporativos diretamente para instituições esportivas.  O maior beneficiário é a seleção de futebol profissional que Orban ajudou a fundar. Ele usa o setor de luxo do estádio para entreter autoridades e líderes empresariais – o que suscita questionamentos quanto a possíveis conflitos de interesse e corrupção.

O próprio promotor geral da Hungria, que decide quais são os políticos que devem ser investigados por corrupção, às vezes joga com Orban. “Qualquer pessoa que queira aproximar-se de Orban tenta fazê-lo por meio do futebol”, afirmou Attila Juhas, analista do Political Capital, grupo de pesquisa de Budapeste. O boom da construção de estádios esportivos é alimentado pela reforma fiscal, ele disse, e é ali que prolifera a corrupção. Há quantidades enormes de dinheiro  que podem ser roubadas. 

Tanto na saúde quanto nas receitas do país, o governo de Orban reduziu a responsabilidade financeira e a transparência, e ao mesmo tempo restringiu a liberdade da imprensa e dos tribunais, criando o que os críticos chamam de uma semi-autocracia no seio da própria União Europeia. “O sistema de pesos e contrapesos foi desmantelado”, segundo Ferenc Falus, ex-chefe da equipe médica.

Hoje, os húngaros morrem de doenças que poderiam ser tratadas no país que detém a quinta pior classificação da União Europeia.  A taxa de mortalidade por câncer só poderá crescer. Por sua vez, o governo se recusa a divulgar o número de infecções contraídas nos hospitais públicos, temendo, segundo suas próprias palavras, “espalhar o pânico.”

Condições de trabalho de profissionais da saúde

Médicos mais antigos calculam que mais de 10%  dos profissionais de saúde húngaros - aproximadamente 5 mil – emigraram  por causa dos baixos salários e das condições de trabalho muito ruins.

Embora Orban tenha aumentado os salários dos médicos, o profissional desta área ganha duas vezes menos do que o húngaro médio, um das piores taxas da Europa. Muitas clínicas não têm um número suficiente de médicos e as esperas são enormes, o que leva os pacientes a procurarem em desespero o pronto socorro. Gabor Zacher disse que a sua emergência em Budapeste tem 25 médicos em lugar dos 50 necessários, além de 14 leitos na ala de terapia intensiva em lugar de 40.

Miklos Szocska, funcionário do governo, informou que foram construídos novos hospitais e a administração hospitalar melhorou. Entretanto, médicos e diretores de hospitais públicos são impedidos de falar dos problemas. Ao contrário, foram instruídos a divulgar semanalmente exemplos de eventos positivos.

O partido de Orban, Fidesz, tirou recursos destinados à saúde  os destinou a empresas particulares que mantêm vínculos com o governo, como de resto acontece em todas os setores da administração. Orban defende a “atenção especial” que ele dá aos esportes. “Estou convencido”, afirmou em janeiro, “de que para criar filhos, cuidar das famílias e da sua união, e para a saúde, os esportes são a área mais importante na Hungria, hoje”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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