Daniel Leal-Olivas/Agence France-Presse - Getty Images
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Europa resiste aos esforços americanos para excluir a Huawei

A Alemanha parece preparada para seguir a Grã-Bretanha ao permitir que a fabricante chinesa construa redes de próxima geração, apesar dos últimos apelos dos Estados Unidos

David E. Sanger e David McCabe, The New York Times

24 de fevereiro de 2020 | 06h00

WASHINGTON - A campanha global dos Estados Unidos para impedir que seus aliados mais próximos usem os serviços da gigante chinesa das telecomunicações Huawei na próxima geração de equipamentos sem fio fracassou, com líderes estrangeiros recusando a argumentação americana segundo a qual a empresa representaria uma ameaça à segurança.

As autoridades americanas alertaram para os riscos de permitir a entrada de uma empresa chinesa nas redes que controlam a comunicação, dizendo que isso daria aos chineses a capacidade de espionar o tráfego ou desativar essas redes. De acordo com eles, o risco é tão grave que os EUA deixariam de compartilhar informações de espionagem com qualquer país que use a Huawei em suas redes.

Mas a Grã-Bretanha desmascarou o blefe do governo Trump, e parece que a Alemanha está disposta a seguir o mesmo rumo, apesar das ameaças de funcionários do governo americano em uma conferência de segurança global realizada recentemente em Munique.

Os americanos acreditam que os constantes alerta estão perdendo o impacto na Europa e, por isso, o governo está mudando sua abordagem. Os EUA buscam agora conter a Huawei limitando seu acesso à tecnologia americana da qual a empresa necessita, e criar uma alternativa americana e europeia viável para concorrer com ela.

A disputa com a Huawei é parte do enfrentamento maior entre EUA e China, em um momento em que Washington tenta impedir que a segunda maior economia do mundo venha a dominar indústrias avançadas. Isso inclui as novas redes de telecomunicação 5G, que vão controlar as comunicações, elementos centrais da infraestrutura e os dispositivos conectados à “internet das coisas” que já controlam fábricas, veículos autônomos e as operações cotidianas das bases militares.

Os EUA buscam também limitar o acesso chinês à sua tecnologia de maneira geral, e pensa em restringir a venda de microchips, inteligência artificial, robôs e software, além de evitar que empresas de tecnologia formem parcerias com empresas chinesas ou compartilhes suas pesquisas com elas. Espera-se que o governo tente pressionar a Huawei fechando uma brecha que permitia à empresa seguir comprando peças e produtos de empresas americanas, apesar de uma proibição do governo Trump às vendas à Huawei. 

Mas os esforços foram complicados pela falta de alternativas à empresa chinesa, que oferece equipamento de telecomunicação a preços baixos, parcialmente subsidiados pelo governo chinês. As únicas concorrentes sérias são Nokia e Ericsson, duas empresas europeias que dizem ter implantado mais redes 5G que a Huawei, mas têm dificuldade em bater seus preços. A disputa deixou muitos países europeus em posição de derrota certa, obrigando-os a abrir mão dos importantes alertas de espionagem de um aliado fundamental, ou afastar a China, uma parceira comercial essencial.

Ainda que os diretores de espionagem da Alemanha partilhem da avaliação dos americanos segundo a qual a Huawei representaria um risco para a segurança nacional, autoridades europeias disseram que os alemães provavelmente usarão a Huawei na sua rede 5G.

Essa decisão seria uma imensa derrota para os EUA. Alemanha e Grã-Bretanha são os dois principais parceiros de espionagem dos EUA, e os dois países se situam em pontos críticos do cabeamento de fibra ótica usado para interceptar comunicações da Rússia e do Oriente Médio. Autoridades americanas se mostraram preocupadas com a possibilidade de Pequim interceptar essas comunicações.

Os EUA tiveram algum sucesso na exclusão da Huawei de outras redes. A Austrália proibiu a Huawei e o Japão o fez de maneira indireta. A Polônia, que anseia por aprofundar a aliança com os americanos, deve manter a Huawei sob controle. A Itália, atraída pela promessa de um investimento de US$ 3 bilhões da Huawei nos seus sistemas de telecomunicações, anunciou primeiro que contrataria a Huawei para a instalação das antenas e estações de transmissão que conectam os celulares e outros dispositivos à rede. Depois, indicou que os detalhes do acordo seriam revistos.

Um grupo das principais operadoras de celular pensou em uma abordagem permitindo que um maior número de empresas desafie a Huawei. O grupo pressiona pela adoção de uma arquitetura comum para o software e o hardware usados nas redes 5G. Um sistema desse tipo permitiria que empresas menores produzissem peças individuais de equipamento de rede que interagissem entre si, rompendo o domínio da Huawei nesse mercado. “Sempre me preocupei mais com a possibilidade de uma manipulação da rede”, disse Norbert Röttgen, presidente da comissão de assuntos estrangeiros do parlamento alemão, durante a conferência em Munique.

“Quem controlar a rede não precisa nem sequer adotar essa medida. A ciência dessa possibilidade confere poder em si.” Röttgen disse: “Até que pontos seríamos livres em nossas escolhas ligadas à proteção aos direitos humanos e outras questões se soubéssemos que o funcionamento de partes essenciais da nossa economia depende da boa vontade de uma potência estrangeira?”/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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