Joe Buglewicz para The New York Times
Joe Buglewicz para The New York Times

Hyperloop: tubo transporta os sonhos de um trânsito mais rápido

Nos EUA, empresas testam sistema que colocaria passageiros em casulos acionados por tubos de vácuo

Eric A. Taub, The New York Times

26 de fevereiro de 2019 | 06h00

MOAPA, NEVADA - A Califórnia decidiu reduzir drasticamente os seus projetos de uma ferrovia de alta velocidade destinada a revolucionar as viagens no estado. Mas no deserto em torno de Las Vegas, as ambições em matéria de transportes parecem ainda ilimitadas.

Aqui, os engenheiros que trabalham para a Virgin Hyperloop One estão testando um tipo radicalmente novo de transporte de massa, destinado a movimentar pessoas e cargas em pequenas cápsulas desprovidas de rodas em um tubo de vácuo a velocidades que poderão superar os 965 quilômetros por hora.

A companhia, que tem o Virgin Group de Sir Richard Branson como investidor minoritário, é uma das várias nos Estados Unidos, Canadá e em outros países, que estão desenvolvendo a tecnologia hyperloop. O conceito foi promovido por Elon Musk, famoso pelos carros elétricos e pelos foguetes particulares, e depois oferecido por uma das suas companhias como tecnologia de fonte aberta, disponível a todos.

Ele funciona impulsionando cápsulas por levitação magnética no interior de um tubo de baixa pressão em quase vácuo. A baixa pressão minimiza o atrito e a resistência do ar, permitindo reduzir de maneira considerável a energia necessária. E como as cápsulas viajam em um tubo, não estão sujeitas a fechamentos por causa do mau tempo.

Já vimos este conceito. As bibliotecas enviam os pedidos de livros aos depósitos em tubos pneumáticos. Até 1984, uma rede semelhante transportou cartas em Paris. O conceito foi tentado inclusive por três anos no metrô de Nova York. Desde 1870, a Beach Pneumatic Transit, a empresa que o desenvolveu, utilizava uma cápsula para passageiros movida por energia pneumática embaixo da Broadway em Manhattan.

A Virgin Hyperloop One, sediada em Los Angeles, começou a realizar os testes aqui, em 2017, e agora experimenta um trilho de teste em grande escala; seus principais concorrentes, a Hyperloop Transportation Technologies, também de Los Angeles, e a TransPod, com sede em Toronto, esperam construir  seus próprios trilhos de teste este ano. Até o momento, ambas trabalham com simulações de computador.

No árido deserto a 55 quilômetros ao norte de Las Vegas Strip, o tubo de 500 metros de comprimento e três de altura da Virgin foi usado para centenas de viagens com uma cápsula vazia, em um teste acelerado a até 386 quilômetros por hora. Segundo os planos, o sistema comercializado deverá atingir os 820 quilômetros por hora contínuos, com a possibilidade de chegar a 1.078 quilômetros por hora.

A fim de evitar que alguém enjoe, o sistema levaria três minutos para acelerar até essa velocidade, e o trem precisaria percorrer 10 quilômetros até virar a 90 graus, disse Ismaeel Babur, um dos engenheiros da companhia. Graças à sua lenta velocidade de arranque, “as pessoas sentirão de 30 a 40% da aceleração em comparação à do avião”, afirmou. A viagem será tão suave que “o café não irá derramar”.

Cada uma das três companhias captou centenas de milhões de dólares e desenvolveu sua própria estratégia patenteada para o transporte de massa em longas distâncias. A TransPod, com capital de $ 52 milhões, tem acordos preliminares para a construção de um trilho de teste de dez quilômetros em uma rota, que poderá aumentar até cobrir os 290 quilômetros entre Calgary e Edmonton, no estado de Alberta, e um trilho menor, nas proximidades de Limoges, na França, para uma das várias rotas francesas que estão em estudo.

A Hyperloop Transportation Technologies, que captou $ 42 milhões, está em fase de projeto de um trilho de teste de um trecho de 1.005 metros em Abu Dhabi, e se prepara para construir um trilho de teste de 310 metros em Toulouse, na França. A Virgin, que captou $ 295 milhões, se encontra em fase de desenvolvimento com projetos na Índia e Ohio.

Em janeiro, o estado indiano de Maharashtra declarou o sistema hyperloop proposto pela companhia entre Pune e Mumbai ‘um projeto oficial de infreaestrutura’. A construção de um trilho de testes de 11 quilômetros poderá começar este ano, informou Jay Walder, principal executivo da companhia.

As operações com passageiros poderão começar em meados da próxima década, reduzindo o tempo de viagem entre as cidades a 30 minutos, um quinto da duração atual. As três companhias afirmam que, em razão das vantagens de custo da energia em relação a outras formas de transporte, um sistema conseguirá equilibrar custos e ganhos em dez anos, depois do início de operações em larga escala.

Para preservar a integridade estrutural do tubo de quase vácuo, não haverá janelas. “As pessoas ficariam enjoadas olhando as árvores” passando a uma velocidade de 965 quilômetros horários, disse Sébastien Gendron, diretor executivo da TransPod. Em vez disso, os desenvolvedores estão considerando várias simulações externas que poderão ser projetadas em grandes telas em toda a cápsula. “Poderíamos criar um efeito de profundidade por meio de projeção de vídeo”, disse Gendron. Poderão ser exibidos inclusive filmes.

Mas antes que estes sonhos se tornem realidade, os proponentes do hyperloop devem provar que os seus sistemas funcionam, não apresentam riscos para pessoas e cargas e são acessíveis. “Do ponto de vista da física, o hyperloop é viável”, afirmou Garrett Reisman, professor de engenhaira astronáutica da University of Southern Califórnia e ex-astronauta da Estação Espacial Internacional.

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