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Iate, Monet e piano caro: EUA apreende 'farras' de compra de um foragido da Justiça

Jho Low ajudou a desviar bilhões de dólares de um fundo de investimento do governo da Malásia

Elizabeth A. Harris e Alexandra Stevenson, The New York Times

15 de dezembro de 2018 | 06h00

O Van Gogh e o Monet estão seguros na Suíça. O Oscar que pertenceu a Marlon Brando se encontra em um depósito federal no Texas. Estes foram fáceis de juntar. Mas, quando o iate de 250 milhões de dólares finalmente foi apreendido em Bali, o governo dos Estados Unidos não podia deixá-lo na água sem supervisão, por isso teve de contratar uma tripulação. O jato de 35 milhões de dólares da Bombardier não saiu do chão, mas precisou de um teste de motor que custou 25 mil dólares.

E ninguém sabe ao certo o que fazer com o piano de cauda transparente que agora está na casa de uma supermodelo em Malibu, na Califórnia. Não vai passar pela porta. Todos esses itens - e muitos outros - foram comprados por um extravagante financista malaio chamado Jho Low, que, segundo os promotores, ajudou a desviar bilhões de dólares de um fundo de investimento do governo da Malásia e, depois, entrou em uma onda de compras colossais. É um dos maiores casos de cleptocracia internacional em que os Estados Unidos já trabalharam.

Entrevistas e documentos judiciais descrevem um esforço de recuperação que envolve meia dúzia de agências dos Estados Unidos, um monte de escritórios contratados e investigadores em países como Suíça, Luxemburgo e Malásia.

Seus alvos incluem mais de uma dúzia de propriedades, entre as quais se encontram um apartamento de 31 milhões de dólares em Nova York, o hotel Viceroy L’Ermitage Beverly Hills e uma mansão de 17,5 milhões de dólares em Beverly Hills, com direito a uma pirâmide dourada flutuando sobre um espelho d’água.

O processo vem se arrastando devido a um caso criminal pendente, que, por sua vez, está atrasado porque Low, de 37 anos, está foragido e, ao que se acredita, escondido na China. Existem também questões jurídicas espinhosas, porque Low e alguns dos outros réus negaram irregularidades e estão questionando os confiscos.

Os Estados Unidos assumiram a liderança da investigação porque vêm coibindo o fluxo de dinheiro ilegal por meio de seu sistema financeiro e porque, até recentemente, o governo da Malásia estava nas mãos das mesmas pessoas acusadas de roubá-lo. O fundo no centro da investigação, chamado 1Malaysia Development Berhad, ou 1MDB, deveria beneficiar os cidadãos malaios. Levantou bilhões de dólares junto a bancos e investidores, sob a alegação de financiar projetos como a joint venture com uma companhia de petróleo saudita e a compra de usinas elétricas.

Mas os promotores dizem que o 1MDB se transformou em um esquema “flagrante, desavergonhado e gigantesco” de lavagem de dinheiro, no qual bilhões foram desviados para contas bancárias de altos funcionários, incluindo o ex-primeiro-ministro Najib Razak, sua família, seus sócios e Low.

O escândalo provocou a queda de Najib. E também envolveu o Goldman Sachs, que ajudou o 1MDB a levantar dinheiro; um funcionário do Departamento de Justiça que confessou ter ajudado Low a canalizar dinheiro para os Estados Unidos; e Elliott Broidy, um dos principais arrecadadores de fundos para o presidente Donald Trump, pago para pressionar o governo a impedir a investigação. (Broidy não é acusado de nenhum crime.)

A lavagem de dinheiro, dizem os promotores, mobilizou uma complexa rede de contas bancárias e empresas-fantasmas. Mas a ideia era simples: usar o 1MDB para ganhar muito dinheiro. E depois gastar tudo. Cerca de 200 milhões de dólares serviram para comprar obras de arte. Havia um colar de diamantes de 22 quilates, no valor de 27,3 milhões de dólares, que teria sido dado de presente para a esposa de Najib. (Seus advogados dizem que, embora ela tenha visto o colar, nunca chegou a recebê-lo. Agora o colar desapareceu.)

Dezenas de milhões de dólares foram direcionados para o financiamento de filmes de Hollywood, entre eles ‘O Lobo de Wall Street’, por meio de uma produtora chamada Red Granite Pictures, propriedade de Riza Aziz, enteado de Najib.

Um quarto de bilhão foi gasto em um mega-iate, com sala de cinema, heliponto e espaço suficiente para dezenas de tripulantes. O iate, chamado Equanimity [Equanimidade], foi finalmente apreendido em Bali este ano. Low, que se vangloriava por ter gosto para as melhores coisas da vida, também usou parte do dinheiro para dar presentes a celebridades como Leonardo DiCaprio e a supermodelo australiana Miranda Kerr, dizem os promotores.

Em 2014, Low comprou um piano de cauda de acrílico transparente e mandou entregá-lo na casa da modelo em Malibu. Mark Fabiani, advogado de Kerr, disse que ela adoraria devolver o piano. Mas ninguém sabe se valeria a pena tirá-lo de onde está. “Se você movimentar o piano, vai acabar por danificá-lo e, aí, terá que fazer a restauração”, disse Michael Case, coordenador de confisco de bens do Serviço de Delegados dos Estados Unidos, em Manhattan.

De início, o piano ficou em um deque externo e, depois, paredes foram construídas em torno dele. Mas essas novas paredes são um problema para o governo, que acredita que teria de fazer alguma demolição para tirar o piano. E, então, teria de fazer reparos em uma casa muito cara.

Por enquanto, o piano fica onde está.

Kerr, no entanto, já entregou as joias, entre elas um diamante em forma de coração de 11,71 quilates e um par de brincos de diamante de 11 quilates. DiCaprio também abriu mão de seus presentes, inclusive do quadro ‘Natureza-morta com crânio de touro’, de Pablo Picasso, e de uma colagem chamada ‘Redman One’, de Jean-Michel Basquiat. Ele também devolveu o Oscar que Marlon Brando recebeu em 1954 pelo filme ‘Sindicato de Ladrões’.

Na Malásia, o "assalto" foi imenso. Poucos dias depois da queda de Najib, a polícia invadiu seis residências ligadas ao ex-primeiro-ministro. Os policiais apreenderam 35 sacos de dinheiro em 26 diferentes moedas. Foram necessários 22 policiais e três dias para determinar seu valor total: cerca de 30 milhões de dólares. Havia sacos de ouro (25), bolsas Hermes (272) e relógios (423). Tudo está guardado no banco central da Malásia, em Kuala Lumpur.

Najib negou irregularidades, e Farhan Shafee, membro de sua equipe jurídica, disse: “Até onde podemos ver e até onde os documentos fornecidos mostram, os ativos que foram apreendidos não têm nada a ver com as acusações”. Vickey Barron, corretora de imóveis que vendeu uma cobertura de 51 milhões de dólares em Nova York para Khadem al-Qubaisi, outro nome que depois apareceu nas acusações do caso 1MDB, não se lembra direito da transação.

Meia dúzia de pessoas fizeram uma visita rápida ao apartamento e, no mesmo dia, um representante ligou para dizer que ficariam com ele. Barron disse que foi um dos negócios mais estranhos que já fez. “Levo mais tempo para comprar um par de tênis”, disse, “do que ele levou para comprar o apartamento”.

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