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Gianfranco Tripodo/The New York Times
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Uma aposta de 20 anos atrás transformou essa empresa na Exxon da energia verde

Iberdrola é líder em energia eólica e solar, em grande parte graças a uma aposta e visão de longo prazo de seu CEO

Stanley Reed e Raphael Minder / The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2021 | 05h00

MADRI – Em 2015, três diretores de uma companhia elétrica de Connecticut reuniram-se com um comprador em potencial: um determinado diretor executivo de uma empresa espanhola, José Ignacio Sánchez Galán, que os surpreendeu com uma ousada visão para o setor nos Estados Unidos.

“Ele deixou muito claro, na época, que via um enorme potencial para a energia renovável nos EUA”, afirmou John Lahey, que era o presidente da companhia, a United Illuminating. “Este homem, há seis anos, já estava enxergando muito além do momento em que os EUA se encontravam”.

Galán fechou o acordo para a aquisição da Illuminating por US$ 3 bilhões. Sua empresa, a Iberdrola, agora está preparada para, junto com uma parceira dinamarquesa, começar a construção da primeira fazenda eólica offshore em grande escala dos Estados Unidos, ao largo da costa de Massachusetts. Ao todo, a Iberdrola e suas subsidiárias atendem 24 estados americanos e têm investimentos em países como Grã-Bretanha, Brasil e Austrália.

Nos últimos 20 anos, desde que assumiu a direção da Iberdrola, sediada em Bilbao, na Espanha, com 37 mil funcionários, Galán se impôs como missão revolucionar o setor de energia elétrica, uma coleção fragmentada de companhias presas a velhos geradores movidos a carvão e a óleo.

Com um apetite voraz para a aquisição destes serviços e a realização de grandes investimentos em energia renovável, a Iberdrola agora é líder mundial em energia eólica e solar fora da China, segundo a Bernstein, uma empresa de pesquisa de mercado.

E parece bem posicionada para aproveitar o que será provavelmente um boom da energia limpa nos próximos anos, enquanto o governo Biden nos Estados Unidos e os países europeus endurecem as regulamentações e fornecem incentivos para estimular os investimentos em energia verde.

“Indubitavelmente, Galán foi o primeiro diretor executivo de uma companhia de serviços públicos que compreendeu que a transição dos combustíveis fósseis para a energia limpa era inevitável e que ocorreria muito rapidamente”, disse Miguel Arias Cañete, um político espanhol, ex-comissário europeu para o campo da energia e do clima.

As mudanças da Iberdrola estão acontecendo em toda parte porque o setor de energia elétrica está sendo reconfigurado não apenas por leis mais rigorosas em relação ao meio ambiente, mas também pelas vantagens de uma imensa escala na compra de turbinas eólicas ou painéis solares.

A Iberdrola faz parte de um grupo seleto de empresas – que inclui a Enel na Itália, Orsted na Dinamarca e NextEra Energy nos EUA – que vários analistas consideram as líderes de uma nova geração das “maiorais em energia renovável”, comparáveis às maiorais do petróleo como Exxon Mobil e Royal Dutch Shell quando passaram a exercer uma enorme influência sobre o uso da energia no mundo.

“Todo isto aponta para um setor em que existe um número relativamente pequeno de atores muito grandes, que alcançam imensas escalas em produtos renováveis e baixam cada vez mais os custos”, afirmou Sam Arie, um analista da UBS em Londres.

A Iberdrola era fundamentalmente uma companhia elétrica espanhola, em 2001, quando Galán se tornou CEO. Poucos anos antes, fora assinado o Protocolo de Kyoto de 1997, o primeiro grande acordo internacional que instava aos países a reduzir gases do efeito estufa com a finalidade de prevenir o aquecimento global.

Muitas gigantes do setor empenharam-se em combater as leis que endureciam as emissões, mas Galán se sentiu incentivado. Em uma entrevista, ele afirmou que considerou o acordo uma abertura para as empresas dispostas a investir em tecnologias – como a energia eólica e a energia solar – que contribuiriam para reduzir as emissões dos gases do efeito estufa.

“Em lugar de considerá-lo um problema, eu o vi como uma oportunidade”, ele disse. As tendências geopolíticas representadas por Kyoto estavam “se movendo na minha direção”.

No âmbito de um plano de reestruturação de 12 bilhões de euros, tido como radical na época, a Iberdrola vendeu grande parte do sua carteira de usinas elétricas e carvão e óleo que cuspiam emissões, para investir em renováveis e em redes da distribuição de eletricidade.

Galán admite que suas propostas pareciam arriscadas, dado que coincidiam com o espetacular colapso da Enron, outra ambiciosa companhia elétrica.

Mas ele pressionou para expandir, principalmente no exterior. Ele contou que se sentiu atraído para investir nos Estados Unidos quando, durante uma visita, ele foi informado da quantidade dos postes de madeira que carregavam as linhas elétricas. Se um país de tamanho destaque no campo da tecnologia ainda precisava de postes de madeira para transportar a sua eletricidade, pensou, haverá muito espaço para uma companhia como a Iberdrola.

“Ele transformou a companhia acostumada a ser uma seguidora a líder não só no setor elétrico, mas no energético em geral”, disse Oscar Fanjul, ex-presidente da Repsol, uma companhia espanhola de energia.

Galán agora planeja dobrar praticamente a capacidade da Iberdrola na geração de energia limpa nos próximos cinco anos, investindo mais 35 bilhões de euro, não apenas em energia eólica e solar, mas também em setores emergentes como o de hidrogênio, que, segundo disse a companhia, poderá estar pronto para decolar como a energia eólica estava há 20 anos.

Quase 80% dos investimentos planejados vêm de fora do seu mercado interno, segundo a Iberdrola, que registrou um lucro líquido de 3,5 bilhões de euros sobre investimentos de 36,4 bilhões de euros em 2020.

A geração de eletricidade é apenas uma parte dos negócios da Iberdrola. Ela também constrói e gere redes de energia elétrica, e esta área deverá registrar um aumento dos investimentos. A eletricidade está se tornando essencial para automóveis e caminhões, bem como para calefação das habitações; portanto, os sistemas de redes necessários para a produção dos elétrons para as casas exigirão importantes upgrades.

O campo provavelmente se tornará mais competitivo, uma vez que as gigantes do petróleo, principalmente na Europa, despejam bilhões de dólares em energia renovável para ajudar a reduzir o teor global de carbono dos seus produtos. Em fevereiro, as grandes do petróleo participaram da licitação para opções para a construção de fazendas eólicas ao largo da costa da Grã-Bretanha, e os preços pagos foram criticados por algumas operadoras que as consideraram excessivamente elevados.

Na entrevista, Galán excluiu qualquer ameaça competitiva representada pelas “Grandes do Petróleo” como uma confirmação das realizações da Iberdrola nas últimas décadas. “Estou feliz por elas estarem usando uma cópia” da estratégia detalhada pela Iberdrola há 20 anos, afirmou. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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