Thomas Samson/AFP
Thomas Samson/AFP

Ícone da extrema-direita francesa, Jean-Marie Le Pen lança livro de memórias

Fundador do partido Frente Nacional é visto como personagem controverso

Adam Nossiter, The New York Times

26 Abril 2018 | 10h15

SAINT-CLOUD, França - Ele é ainda o “Demônio da República”, como diz o seu apelido, um político nacional que assombra a imaginação francesa como nenhum outro.

Prova disso é o novo livro de memórias de Jean-Marie Le Pen, um best-seller. Embora o patriarca da extrema direita da França nunca tenha chegado sequer perto de altos cargos públicos, tem quase 90 anos, foi expulso da Frente Nacional pela própria filha, Marine, cerca de 50 anos depois de ele ter fundado o partido.

O seu extremismo contumaz - a respeito da raça, da Segunda Guerra Mundial, do Holocausto, gênero, tortura, imigrantes - levou Marine a expulsá-lo. Seus pontos de vista ainda são chocantes, e os seus compatriotas os estão aceitando.

“O fenômeno da migração”, começou Le Pen em uma entrevista na antiga mansão nos arredores de Paris que ele herdou, anos atrás, de um rico simpatizante, “é um tsunami”.  E acrescentou com ar preocupado: “Eles têm uma taxa de fertilidade que é o triplo da nossa”.

“Fils de La Nation (Filho da nação), o primeiro dos dois volumes de memórias  que ele tem em mente, com uma tiragem de 50 mil exemplares, já se esgotou, diz a Muller, uma pequena casa editora de direita que pegou o livro depois que editoras francesas de maior prestígio o recusaram.

Le Pen perdeu as eleições durante mais de meio século, mas agora acha que é ele quem ri por último. E não está minimamente surpreso com o sucesso do livro. “Eu fui um homem de boa vontade que jamais conheceu o sucesso político”, afirmou.

“Mas as minhas ideias fizeram progressos, ainda que nos programas dos maus adversários. É por isso que a minha luta nunca deixou de ter valor”, prosseguiu La Pen, sorrindo levemente. Na realidade, a política intransigente do atual presidente francês, Emmanuel Macron, a respeito da imigração, é um eco distante daquela do patriarca da extrema direita.

Ali estão suas posições muito conhecidas - sua admiração pelo líder colaboracionista da França na Segunda Guerra Mundial, o marechal Pétain, o seu ódio pelo libertador do país, Charles de Gaulle; o seu antissemitismo, o racismo; a aprovação da tortura na guerra da Argélia - mas é o fato de a longa vida de Le Pen abarcar toda a história do pós-guerra francês, embora de uma maneira funesta, que justifica em parte o seu atual triunfo editorial.

Le Pen escreve em uma prosa vividamente coloquial sobre a sua vida em uma série de capítulos fascinantes: como órfão de guerra, pois perdeu o pai pescador por causa da explosão de uma mina, em 1942, quando ele tinha 14 anos, o que o tornou o “pupilo da Nação”, como eram designados então; o exaltado estudante de direito na Paris do pós-guerra, já militando à margem da extrema direita; o paraquedista da Legião Estrangeira que se alistou como voluntário para combater no Vietnã em uma guerra colonial que já estava perdida, em 1953, por “patriotismo”; o deputado, em 1956, o mais jovem da França, atirando mesquinhos insultos antissemitas ao reverenciado primeiro-ministro Pierre Mendès France; o paraquedista de afirmações duras na batalha de Argel, defendendo o uso da tortura pelos colegas, embora negando-se a tomar parte nela; e finalmente, marginalmente empregado, o agitador de extrema direita que, juntamente com um colega que havia sido colaborador nazista na época da guerra, François Brigneau, fundara a Frente Nacional em 1972, como Le Pen disse, “a maior aventura francesa desde a Segunda Guerra Mundial”.

Então, espontaneamente, virou-se contra o Holocausto, o tema que acabou com o futuro da Frente Nacional. Reiteradas vezes, ele definiu as câmaras de gás um “detalhe” da história da Segunda Guerra Mundial.

“Olhe, quanto às câmaras de gás, eu não vi nenhuma pessoalmente”, afirmou. E irritando-se: “E isto me custou 30 mil euros” - em multas, cerca de $ 37 mil, por negar o Holocausto, o que é considerado crime na França.

“Bom, em todo caso, foi um belo pretexto para me ostracizarem”, concluiu.

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