Dmitry Kostyukov para The New York Times
Dmitry Kostyukov para The New York Times

Ícones parisienses buscam reconhecimento da Unesco

Iniciativa quer transformar os bistrôs da capital francesa em patrimônio cultural após ataques em 2015

Claire Mufson, The New York Times

23 de junho de 2018 | 10h30

PARIS - Nos dias seguintes aos atos terroristas que massacraram dezenas de pessoas que se divertiam nos cafés de Paris, em uma noite de novembro de 2015, em uma atitude de desafio, os parisienses voltaram a frequentar os bistrôs dos bairros para mostrar que o seu espírito não seria derrotado.

As hashtags #jesuisenterrace, que significam “Estou na calçada”, e #tousaubistrot, ou “todo mundo para o bistrô”, explodiram na mídia social, enquanto as pessoas se reuniam para levantar um copo de vinho em uma demonstração de que a sua maneira de viver iria continuar. “Foi um sinal do seu poder e de sua resistência”, afirmou Olivia Polski, prefeito assistente para o comércio de Paris.

Agora, uma coalizão de proprietários de bistrôs, sindicatos e organizações comerciais pressiona para conseguir que a Unesco conceda aos bistrôs e cafés das calçadas de Paris, o status oficial de “patrimônio cultural intangível” da França.

Para muitos, Paris não seria Paris sem seus bistrôs e cafés nas calçadas. Eles são inseparáveis da imagem icônica da cidade - imortalizados em muitos filmes de Hollywood e novelas. Mas será que eles fazem parte do patrimônio cultural intangível do mundo? Para Alain Fontaine, proprietário de bistrô e presidente da associação que levou a ideia à Unesco, a resposta é “sim”.

“Há séculos, eles são locais de misturas de culturas, lugares onde as pessoas de diferentes etnias, profissões e classes sociais costumam se mesclar”, afirmou Fontaine, dono do Le Mesturet, um bistrô à moda antiga.

Apoiaram esta causa atores, escritores e moradores para quem os cafés locais e bistrôs representam uma maneira de viver. Eles não são apenas lugares para bebericar  um expresso ou fazer uma refeição. Para muitos que vivem nos apartamentos apertados da cidade, são uma extensão da casa - a sala de estar na esquina, um espaço ao mesmo tempo público e privado.

A denominação “patrimônio cultural intangível” é uma adição relativamente recente aos títulos concedidos pela Unesco, a organização cultural das Nações Unidas. A designação tinha o objetivo de reconhecer as práticas, eventos e expressões artísticas que não são lugares físicos, mas mesmo assim são uma manifestação única do patrimônio cultural de um país.

Desde 2008, quando o programa começou, a Unesco designou cerca de 451 entidades ‘patrimônio cultural intangível’ no mundo todo, 15 estão na França. Entre elas: uma elaborada técnica de rendado da Normandia, a festa com fogos de artifícios do solstício de verão nos Pirineus e as danças folclóricas da Bretanha.

Os candidatos franceses precisam ser pré-selecionados pelo Ministério da Cultura antes de serem apresentados à Unesco para uma análise.

A designação da Unesco ocasionalmente provocou críticas por causa do termo demasiado vago e porque, de certa maneira, é usado para promover o turismo e o consumo em lugar de encorajar a preservação das tradições e as práticas locais.

Fontaine e os que o apoiam, bem como a prefeitura de Paris, que financia a iniciativa, destacam o papel fundamental que os bistrôs e os cafés exerceram depois dos ataques de 2015.

“Os bistrôs foram atacados porque são símbolos da cultura e da vida francesa”, afirmou Polski. “Isto nos atingiu profundamente, porque todos temos lembranças preciosas dos bistrôs”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.