Mark Pernice para The New York Times
Mark Pernice para The New York Times

Idade de ouro do terror joga com os medos dos adultos

Antes considerados filmes para crianças, películas de horror começaram a mudar no final dos anos 60, quando ressurgiram mais sombrias, realistas e maduras

Jason Zinoman, The New York Times

13 Junho 2018 | 10h00

Em “Hereditário”, insetos saem de cabeças decapitadas e fantasmas aparecem entre as sombras, mas o momento mais chocante desse novo filme é aquele em que Annie, interpretada por Toni Collett, conta ao filho que ela não o queria, e tentou provocar um aborto. No fim, ela acorda, transtornada. Aqui, o monstro real é a culpa dos pais.

Estamos em plena idade do ouro do horror para os adultos. Abafada e desencadeada pelo personagem, esta mescla de produto independente e campeão de bilheteria trata de maneira feroz as ansiedades dos adultos. Estes filmes enfrentam o racismo, os problemas econômicos e os desvios familiares. Se fosse preciso destacar o tema que os une a partir deste renascimento, seria o perigo de um sofrimento arrasador.

Um personagem que precisa superar a morte de um ente querido é o ponto de partida de “Hereditário”, “Boa noite, mamãe” e “Pyewacket”, para mencionar apenas algumas produções dos últimos três anos. Depois há o subgênero dos filmes apocalípticos (como “Ao cair da noite”), cuja narrativa gira em torno do desaparecimento não apenas de uma pessoa, mas possivelmente de todas.

“Um lugar silencioso”, o sucesso do gênero deste ano, pertence a ambas as categorias. Dirigido por John Krasinski, é um filme sobre o fim do mundo com monstros invencíveis que aparentemente acabaram com a maior parte da humanidade, mas o motor da história é a decisão insensata de uma irmã que leva ao assassinato do irmão, quebrando o elo de união da família.

“Corra!”, o triunfo de estreia de Jordan Peele em 2017, não começa com o luto, mas a incapacidade de administrar a dor é um tema crucial. Embora o racismo liberal seja a causa do terror do personagem principal, o que faz com que ele se torne uma pessoa fria e impotente é a lembrança da morte da mãe e a culpa que ele carrega por não ter feito mais para salvá-la.

Estes filmes tratam das preocupações comuns do horror - o mal sobrenatural, imagens de sangue, porões arrepiantes - mas também nos lembram da resposta da poetisa Anne Carson à pergunta: Por que existe a tragédia? “Porque você está com muita raiva. Por que você está com muita raiva? Porque a sua dor é muito grande”.

Na maior parte da sua história, o horror foi considerado coisa de criança. Os filmes de medo começaram a mudar no final dos anos 60 e 70, quando uma nova safra de realizadores passou a se preocupar em torná-los mais sombrios, mais realistas e maduros. (É o caso de “O exorcista” ou de “Inverno de sangue em Veneza”.) Nas décadas seguintes, o horror se tornou mais diversificado, e começou a ser mais respeitado  pelos críticos.

“Hereditário”, que estreia em todo o mundo este mês, é a apoteose desta tendência, uma história sobrenatural ambiciosa em termos visuais e impiedosamente assustadora, que é também uma intricada meditação sobre a dor pela morte de um ente querido.

Ela começa com uma família que se atrasa no funeral da matriarca. Depois de fazer uma homenagem um tanto fria à mãe morta, Annie pergunta ao marido (interpretado com grave desconforto por Gabriel Byrne): “Eu deveria estar mais triste?”

Quando o filho de Anne, um adolescente introvertido interpretado por Alex Wolff, testemunha um ato de indescritível violência, ele trava, vai para casa, para dormir e não conta a ninguém. “Hereditário” transforma a negação do adolescente do próprio tema do pavor, fazendo com que a falta de uma reação firme à morte pareça amedrontadora.

As desgraças que acontecem com esta família parecem ter algo inexorável. Annie é uma artista que cria  quadros em casas em miniatura, nos quais a câmera se demora, e a certa altura passa sem solução de continuidade para uma cena da casa real. A implicação é clara: Estas pessoas são atores menores em um drama que não conseguem controlar.

O voyeurismo e a exploração sexual há muito são a marca registrada do horror, mas estão relativamente ausentes do horror para adultos. “Corrente do Mal”, ambientado em um mundo de adolescentes, trabalha com a antiga fórmula do sexo que leva à morte. Mas o filme não tem nenhuma das excitações ou das mortes teatrais de uma película de terror; ele é deliberado, melancólico e enganadoramente estratificado.

Entre os aficionados do horror têm havido certa reação negativa a esta restrição conduzida pelo personagem. No seu Podcast, o romancista Bret Easton Ellis criticou o que chama de “horror do cinema independente”.

Em uma entrevista com Jason Blum, atualmente o produtor de cinema de horror mais importante (“Corra!”, “Fragmentado” e outros), Ellis disse que uma explicação excessivamente lógica pode pôr tudo a perder.)

Blum contestou, afirmando que os seus filmes precisam estar arraigados em uma realidade coerente.

Ellis acenou à preocupação de muitos fãs com a crescente respeitabilidade do gênero. Agora que o horror atrai atores melhores, orçamentos maiores e roteiros mais densos, parece que alguns filmes deixaram de certo modo de ser divertidos. O horror terá perdido parte do prazer que provocava, sua exclusiva determinação de aterrorizar?

H.P. Lovecraft escreveu certa vez que o medo mais profundo é o medo do desconhecido. Vampiros, lobisomens e zumbis não assustam tanto quanto faziam antigamente. Mas os fantasmas continuam assustando - quando eles nos lembram do que perdemos.

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