Rebecca Conway para The New York Times
Rebecca Conway para The New York Times

Ideologia de Modi é posta à prova em seu distrito eleitoral

Embora se apresente como proponente do nacionalismo hindu, o líder indiano enfrenta opiniões conflitantes entre religiosos

Mujib Mashal, The New York Times

29 de maio de 2019 | 06h00

VARANASI, ÍNDIA - Eram 4h da manhã na casa da família Yadav em Varanasi, distrito eleitoral do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Vijay Yadav, 30 anos, cortou os pães e os assou um a um em um fogão a gás.

 

Yadav é um firme defensor de Modi, e os lanches foram para cerca de cem observadores do partido nos pontos de contagem de votos para o que viria a ser uma vitória esmagadora de Modi e seu partido, Bharatiya Janata - ambos proponentes do nacionalismo hindu em um país que é aproximadamente 15% muçulmano.

 

Cinco anos atrás, quando Modi formalizou sua antiga ambição de liderar a Índia, ele escolheu como palco o distrito eleitoral de Varanasi, uma cidade de templos e deuses às margens do rio Ganges. No dia 23 de maio, Modi foi reeleito para esse cargo, com uma margem de vitória de quase meio milhão de votos.

 

Modi cresceu por meio da ala nacionalista hindu de seu partido para se tornar o ministro-chefe mais antigo de Gujarat, um dos maiores estados da Índia. Ele era conhecido por uma mistura de políticas que aceleraram o desenvolvimento e a promoção da ideologia nacionalista hindu.

 

O líder indiano definiu sua decisão de escolher Varanasi, onde milhões de visitantes chegam a cada ano, como um chamado religioso, entrelaçando seu nome com o lugar sagrado. "Não sinto nem que alguém me enviou, nem que eu tenha vindo sozinho. Foi Maa Ganga quem me chamou", disse Modi, referindo-se ao rio como mãe Ganges.

 

Sua mistura de chauvinismo e desenvolvimento trouxe-lhe um sólido bloco de votos entre hindus em todo o país, o que lhe faz parecer infalível, mesmo quando seu partido está em um período difícil.

 

"Ele não dá amor nem à própria família, qual é então a diferença entre ele e o resto dos políticos?", questionou Yadav. "Deveria ser assim, deixar para trás e colocar o país em primeiro lugar".

 

O culto à personalidade de Modi cresceu tanto que seus seguidores construíram um templo em seu nome e uma estátua do primeiro-ministro. Uma campanha para arrecadar dinheiro para um segundo templo está em andamento.

 

Mas sua mistura de desenvolvimento e nacionalismo hindu tem sido inquietante em Varanasi, e algumas vezes resultou em perigoso aumento nas tensões.

 

Talvez o projeto mais polêmico tenha sido a construção de um corredor do famoso templo de Kashi Vishwanath até o rio Ganges. Centenas de famílias tiveram de ser removidas da área e suas casas, postas abaixo, prejudicando tanto hindus quanto muçulmanos.

 

Líderes hindus reclamam que muitos templos menores foram destruídos para fazer o projeto dos sonhos de Modi acontecer. Os líderes muçulmanos têm outra preocupação: o templo de Vishwanath divide uma parede com uma mesquita local que se sente cada vez mais vulnerável à expansão do templo.

 

Swami Avimukteshwaranand, chefe do Sri Vidya Math, uma escola hindu em Varanasi, comparou a suposta destruição dos templos para construir o corredor de Vishwanath à destruição de ícones hindus por imperadores muçulmanos. Quando questionado sobre o motivo pelo qual Modi, um hindu, iria destruir os templos, Swami perdeu a paciência.

 

"Pare", ele gritou, na frente de uma plateia de seguidores e um smartphone que parecia estar transmitindo ao vivo. "Um hindu destrói templos? Um hindu destrói ícones? Ele não é hindu. Ele não pode ser hindu".

 

S. M. Yasin, secretário-geral da associação local de mesquitas, disse que a invasão na área da mesquita e outras incitações nos últimos cinco anos quase eclodiram em sangrentos confrontos em várias ocasiões.

 

Yasin disse que hindus e muçulmanos viveram pacificamente em Varanasi por um longo período, mas que o governo de Modi quebrou essa confiança. "Hoje ninguém está pronto para ouvir", disse Yasin. "Se ele voltar ao poder, virá com confiança".

 

Para Yadav, o jovem fanático, é a dedicação de Modi e a facilidade com que ele se conecta com as pessoas que o atraem. Ele também gosta de como Modi abraça abertamente o Hindutva - nacionalismo hindu.

 

"Antes de Modi, parecia que o Hindutva estava morto por aqui", disse ele. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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