Elizabeth D. Herman/The New York Times
Elizabeth D. Herman/The New York Times

Idosos solteiros encontraram uma nova maneira de ter parceiros: morando separados

Temendo que uma ligação romântica tardia na vida resulte em cuidados em tempo integral, muitos casais estão optando por um compromisso sem dividir um lar

Francine Russo, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2021 | 05h00

Cerca de três anos após ficar viúva em 2016, a psicoterapeuta Linda Randall, de Chicago, então com 78 anos, sentiu que sua amizade com um viúvo se tornou romântica. Ela namorou com ele na faixa dos 20 anos, depois de seguir o conselho de sua mãe e ser voluntária em um hospital para que pudesse conhecer um médico. Em 2015, ela se reconectou com ele como amiga. Mas agora, diante do romance com este homem seis anos mais velho, ela refletiu.

“Ele não estava muito bem”, ela disse. “Teve dois ataques cardíacos e tinha dois stents. Pensei muito no que fazer.” Coincidentemente, ele morava do outro lado de sua rua, e eles passavam a maioria das noites em seu apartamento. Depois de namorar por mais de um ano, eles manifestaram amor mútuo. No entanto, quando ele pediu para morar com ela, ela disse que não. “Ele ficou magoado no começo”, ela lembrou, “mas eu disse: ‘Gosto do meu espaço e somos diferentes na forma que vivemos ’”.

Cerca de seis meses atrás, ele fez uma cirurgia e precisava de cuidados para se recuperar, Randall, atendendo seus desejos e usando as economias dele, contratou um cuidador residente para ele. Até que ele estivesse bem o suficiente, o cuidador o levava até a casa dela. Agora ele anda sozinho com seu andador e passa os fins de semana com ela quando seu cuidador está de folga. A intimidade deles continua.

Com uma longevidade maior, a duplicação da taxa de divórcio desde a década de 1990 para pessoas com mais de 50 anos e a evolução das normas sociais, pessoas mais velhas como Randall estão cada vez mais buscando parceiros de várias formas. A coabitação, por exemplo, substitui com mais frequência o novo casamento após o divórcio ou a viuvez, disse Susan L. Brown, socióloga da Bowling Green State University, em Ohio.

Esses idosos estão procurando (e encontrando) amor, apoio emocional e um antídoto para a solidão. Mas muitas mulheres idosas, em particular, temem que uma ligação romântica tardia na vida leve rapidamente a ser uma cuidadora em tempo integral. Para evitar esse papel, algumas procuram atender às suas necessidades sociais apenas por meio de relacionamentos com familiares e amigos. Margaret Widuckel, uma enfermeira viúva, 75, de Melbourne, Austrália, disse que às vezes sente falta de um parceiro íntimo, mas teme tornar-se uma cuidadora. “Também vejo minhas amigas com maridos frágeis, incapazes de realizar suas próprias atividades, e todas as suas conversas são sobre o que o médico disse ou não”.

Conforme os pesquisadores estudam aqueles que têm parceiros, no entanto, eles descobrem que um número cada vez maior de pessoas está escolhendo um tipo de relacionamento conhecido como LAT (“living apart together”), que significa "vivendo separados juntos". São relacionamentos românticos de longo prazo, sem compartilhar (ou com a intenção de compartilhar) um lar.

“Uma grande vantagem do LAT é evitar a potencial responsabilidade de se tornar um cuidador em tempo integral”, disse Ingrid Arnet Connidis, professora emérita de sociologia da Western University em London, Ontário. “As mulheres cuidam de seus filhos, pais e cônjuges e querem evitar entrar nesses papéis tradicionais de gênero.”

Embora os pesquisadores ainda não tenham investigado profundamente a demografia daqueles em relacionamentos LAT, informalmente ele parece ser mais prevalente entre pessoas de níveis socioeconômicos altos o suficiente para poderem manter casas separadas. Em geral, há evidências de que pessoas mais ricas que são solteiras tardias são mais propensas a terem parceiros novamente.

Jill Spoon, 73, e John Backe, 74, um casal LAT em Nova York durante quase uma década, ilustram a complexidade deste laço emocional. Quando Spoon, uma administradora aposentada, e Backe, um pastor aposentado, se conheceram e se apaixonaram, ambos tinham 64 anos e não pensaram na questão dos cuidados. No entanto, optaram por viver nos seus próprios apartamentos, reunindo-se cerca de quatro vezes por semana. Spoon, em particular, após trabalhar em tempo integral e ter uma vida social ativa, queria manter a sua independência e ao mesmo tempo aproveitar a intimidade dos dois.

Três anos depois, a questão dos cuidados surgiu quando Backe passou por uma grande cirurgia cardíaca e precisou de vários meses convalescendo em casa; ele se mudou para o apartamento dela durante aqueles meses. Spoon disse que coordenou os cuidados com suas duas “filhas incríveis”, apoiadas por uma enfermeira visitante e amigos, enquanto ela continuava trabalhando. Este trabalho em equipe agora é o modelo para quaisquer necessidades futuras de cuidado. Nenhum deles quer que o outro se torne seu cuidador principal. “Eu gostaria que John mantivesse um estilo de vida tão vital quanto possível”, ela disse, e ele disse que deseja o mesmo para ela. Ela não tem filhos, mas contaria com seu plano de saúde de longo prazo para contratar ajuda. Para os cuidados com seu parceiro, ela disse: “Eu gostaria de estar envolvida o suficiente porque me importo e o amo, mas não 24 horas por dia, sete dias por semana. Eu não tenho energia para isso”, o que significa “Eu não poderia fazer mais nada ”.

Randall, agora com 81 anos, acha que é mérito seu o fato de criar um relacionamento que satisfaça suas necessidades sem sobrecarregá-la com as de seu parceiro. “Tenho amigos que dizem que nunca querem conhecer ninguém, a menos que sejam 10 ou 15 anos mais jovens, porque entendem que teriam que morar juntos e se tornar o único cuidador”, ela disse. “Eu não ia fazer isso. Acho que tenho o melhor de dois mundos. Ele é um homem doce e amoroso, e acrescenta muito à minha vida. ” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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