Ashley Lane
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Culto na igreja inspirado por Beyoncé aborda raça e gênero

Distinto do feminismo, que historicamente está centrado na experiência das mulheres brancas, 'o womanism privilegia o espaço intelectual e íntimo das mulheres negras', afirma reverenda

Bill Friskics-Warren, The New York Times

06 de novembro de 2019 | 06h00

Em abril de 2018, 900 pessoas compareceram a um serviço religioso no meio da semana, que costuma atrair meros 50 participantes, na Catedral da Graça em San Francisco. Dias mais tarde, um vídeo do evento divulgado no YouTube tornou-se viral, seguido por pedidos de reprises em cidades como Los Angeles e Lisboa.

O que gerou este enorme interesse? Um fenômeno conhecido como a Missa de Beyoncé, serviço cristão inspirado pela vida e música de Beyoncé Knowles-Carter. De autoria da reverenda Yolanda Norton, estudiosa da Bíblia hebraica, e de H. Eugene Farlough, presidente do departamento de Estudos da Igreja Negra do Seminário Teológico de San Francisco, a Missa de Beyoncé explora o impacto das questões de raça e gênero na vida, no canto e nos corpos das mulheres afro-americanas.

“A Missa diz às jovens negras: ‘Você faz parte do projeto que Deus tinha em mente quando, na criação, ele disse: ‘É bom’”, explicou a reverenda Norton. “Fazendo com que as histórias e a realidade das jovens mulheres e meninas negras sejam as protagonistas desta arte litúrgica, reafirmamos as nossas realidades em um mundo que insiste e persiste em suas tentativas de rejeitá-las”.

Os que participam da Missa declaram que saíram com uma grande sensação de bem-estar. “Eu me senti aquecida e bonita, e saí com a sensação de ter sido curada”, afirmou Lydia Middleton, decana do departamento de Assuntos dos Estudantes Negros dos Claremont Colleges de Los Angeles.

A missa, em que mulheres negras são as cantoras, bailarinas e oficiantes, é um serviço religioso completo. A história e as canções de Beyoncé apresentadas refletem as histórias e as lutas das mulheres negras através dos Evangelhos cristãos e de sua mensagem de hospitalidade e inclusão radicais.

“Os artistas negros sempre foram fundamentais na luta pela liberdade dos negros, veja Nina Simone, Harry Belafonte, Bernice Johnson Reagon do conjunto Sweet Honey in the Rock”, disse a reverenda  Kelly Brown Douglas, decana da Escola Episcopal Divinity do Seminário Teológico da União de Nova York. “Beyoncé faz parte deste legado”.

Douglas e Norton consideram a Missa de Beyoncé como parte da tradição do pensamento e da prática womanist, como disse a escritora Alice Walker. Distinto do feminismo, que historicamente está centrado na experiência das mulheres brancas, “o womanism privilegia o espaço intelectual e íntimo das mulheres negras”, afirmou a reverenda. “Ele tem a ver com a necessidade das mulheres negras de participar de comunidades que ultrapassam os limites das suas, para o progresso de toda a humanidade.” A cantora ainda não comentou publicamente o evento.

Beyoncé é um veículo ideal, disse a reverenda Norton, porque as suas mensagens de autonomia nasceram das suas decepções e triunfos pessoais. “Isto é algo poderoso e libertador para nós que não somos Beyoncé”, acrescentou, “para nos permitirmos sentir o que sentimos, sabendo que esta pessoa que parece ter tudo, experimentou alguns dos mesmos traumas e sofrimentos que muitas de nós experimentamos”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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