Remo Casilli/Reuters
Remo Casilli/Reuters

O destino do catolicismo conservador

Tratando de um aparente conflito entre a tradição e o poder papal

Ross Douthat*, The New York Times

17 de novembro de 2019 | 16h00

No mês passado, o Vaticano e o papa Francisco realizaram o Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, um encontro em que foram discutidos os desafios com que se depara a Amazônia, e a Igreja Católica que nela atua, conseguiu ser extremamente selvagem e previsível ao mesmo tempo.

A parte selvagem se encarregou não apenas dos debates sobre os padres casados e das mulheres no sacerdócio, mas o descalabro de uma estátua de madeira de uma mulher grávida, nua, ajoelhada, usada em um ritual no Vaticano, que poderia personificar a reverência indígena à Virgem Maria ou a adoração da natureza pelos índios. As autoridades do Vaticano pareciam determinadas a não esclarecer a questão, e um jovem tradicionalista roubou uma das estátuas e a atirou no Tibre.

Material excitante - mas também um pouco irrelevante para o resultado real do sínodo, que recebeu um pouco da resistência conservadora que caracterizou as batalhas sinodais anteriores em torno do divórcio e de um novo casamento, e acabou produzindo um documento de apoio ao importante projeto da era de Francisco. Os pontos centrais do projeto são a descentralização da doutrina e da disciplina, enquanto o celibato dos padres será última regra que provavelmente mudará, em breve, de uma região a outra.

À medida que a resistência a Francisco se torna mais intensa, também se tornou mais marginal. Há quatro anos escrevi um artigo descrevendo a era Francisco como uma crise do catolicismo conservador que acreditava que João Paulo II havia encerrado de maneira permanente os debates sobre o celibato, o divórcio, a intercomunhão e a ordenação de mulheres. A crise agora se agravou, e acho que estamos mais perto da resposta definitiva ao que acontece com o catolicismo conservador quando aparentemente deixa de ter o papado do seu lado.

Durante a realização do sínodo, fiz uma longa entrevista com um dos críticos mais conservadores e preeminentes do papa, o cardeal Raymond Burke. A sua crítica é simples. O ensinamento da Igreja em questões como a indissolubilidade do casamento supostamente não mudará, e é o que ele defende.

“Ainda ensino as mesmas coisas que sempre ensinei, e não são as minhas ideias”. O que é imutável não pode ser alterado por um pontífice. “O papa não é um revolucionário eleito para mudar o magistério da Igreja”. E portanto, se Francisco parece estar tacitamente encorajando mudanças por um processo de descentralização, significa que “há uma fratura na autoridade central do magistério do papa Romano”, e que o papa efetivamente “se recusou a exercer o (seu) ofício”.

Esta posição tem alguns precedentes. John Henry Newman, o vitoriano convertido, teólogo e cardeal recentemente santificado por Francisco, sugeriu que houve  uma “suspensão temporária” da autoridade do magistério da Igreja durante eras nas quais o papado não conseguiu ensinar definitivamente ou exercer a sua disciplina sobre temas controversos. E os santos destes períodos incluem bispos que defenderam a ortodoxia, às vezes contra a pressão papal.

Mas também podemos ver como é difícil sustentar um catolicismo que é ortodoxo contra o papa. O próprio Burke falou em um hipotético cenário em que Francisco apoia um documento que inclui algo que o cardeal considera uma heresia. “As pessoas dizem que se você não aceita isto, cai no cisma”, afirmou Burke, quando “a minha posição seria  que o documento é cismático, eu não sou”. Mas isto implica que o papa poderia levar a um cisma, embora o cisma, por definição, envolva o rompimento com o papa. E Burke admite o seguinte: Seria uma “contradição total”.

A influência destas ideias, entretanto, explica o motivo pelo qual basta dar apenas um passo além da posição de Burke para acabar como uma espécie de sedevacantista de fato, aquele que acredita que o papa não é realmente o papa, ou que a Igreja está tão comprometida com a modernidade que o papa poderia ser ainda tecnicamente o papa, mas a sua autoridade não importaria mais. Isto seria algo como um odor de tradicionalismo online, e é difícil perceber como não levaria (no final) muitos dos seus partidários a uma separação da Igreja como um todo.

Haverá alternativas à tênue posição de Burke ou à queda no cisma? No momento, há duas: uma é o catolicismo conservador que pressiona para interpretar todas as ações de Francisco em continuidade com as dos seus predecessores, enquanto afirma que os aliados liberalizantes do papa o estão de certa forma interpretando de maneira equivocada. Esta foi a posição conservadora básica no início do pontificado de Francisco; e desde então tornou-se mais difícil sustentá-la. Mas ela persiste na esperança em algum momento de reação agressiva, quando Francisco ou um sucessor decidir que os bispos católicos em países como a Alemanha estão levando as coisas longe demais, a ponto de poder haver uma espécie de restauração das linhas de batalha de João Paulo II, com o papado reinterpretado como tendo sempre estado do lado da ortodoxia.

Outra alternativa é um conservadorismo que resolve simplesmente o aparente conflito entre a tradição e o poder papal em favor deste último, submetendo seu julgamento privado à autoridade papal no estilo do século 19 - mesmo que a submissão exija a aceitação de mudanças a respeito do sexo, do casamento, do celibato e de outras questões que se assemelham tremendamente ao tipo de protestantismo liberal do século 19 ao qual os papas se opunham. Este seria um conservadorismo de estrutura mais do que de doutrina. Mas ainda precisaria de um esclarecimento de como a doutrina pode e não pode mudar além do decreto papal. Portanto, ele também espera esclarecimentos que o seu papado não notoriamente deu. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Ross Douthat é articulista de The Times desde 2009. É autor de vários livros, e mais recentemente, de Para mudar a Igreja: o papa Francisco e o futuro do catolicismo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.