Chang W. Lee/The New York Times
Chang W. Lee/The New York Times
Jane Margolies, The New York Times

24 de fevereiro de 2019 | 06h00

Desde a estreia do musical de sucesso Hamilton, um grande número de turistas tem procurado a Trinity Church (Igreja da Trindade), parte de uma paróquia episcopal em Lower Manhattan que remonta ao século 17. Alexander Hamilton e a mulher, Eliza Schuyler Hamilton, estão enterrados no cemitério daqui.

Os anos mais recentes foram prósperos para a igreja. A Capela de São Paulo reluz após nova pintura. Depois de uma limpeza em setembro, o obelisco de mármore branco de Hamilton também reluz. Logo a igreja inteira - e uma nova torre de vidro de US$ 350 milhões sendo construída atrás dela - terão esse mesmo brilho.

Enquanto muitos santuários religiosos afastam as incorporadoras enquanto lutam para manter seus edifícios e congregações, a Trinity é ela própria uma incorporadora. A igreja sempre foi rica em terras. E faz tempo que ela mantém um braço imobiliário, que controla o arrendamento de terras e a locação de escritórios nos edifícios que lhe pertencem. Agora, ela se vê diante de um portfólio de US$ 6 bilhões, de acordo com o pastor William Lupfer.

A Trinity Real Estate entrou numa parceria que lhe confere participação majoritária em 12 edifícios com 560 mil metros quadrados de espaço comercial. E, com a construção da torre de vidro - que deve abrigar escritórios, espaços públicos de reunião e inquilinos comerciais - a Trinity está também reformando o interior de sua igreja histórica, que deve custar US$ 110 milhões.

A Trinity foi capaz de fazer tudo isso porque administrou com sabedoria seus recursos. Além disso, sendo uma igreja, ela é isenta do pagamento de impostos. Mas alguns questionam se é ético ter uma instituição religiosa como uma importante entidade do ramo imobiliário nova-iorquino. A riqueza da Trinity remonta a uma dádiva de 215 acres feita pela rainha Anne em 1705. A Trinity ainda é dona de 15 acres. Na época em que a Trinity recebeu as terras, não havia separação entre igreja e estado. 

“Eles eram de uma religião favorecida, e receberam uma ajuda considerável", disse a professora de economia Rachel M. McCleary, da Universidade Harvard, e coautora do livro “The Wealth of Religions: The Political Economy of Believing and Belonging”, a ser lançado em breve. “A pergunta passa a ser: como eles são vistos num mercado pluralista em termos de religião, e qual é sua resposta neste mercado hoje?”

Uma porta-voz da igreja, Patti Walsh, disse que a Trinity lida com esse mercado trabalhando com outras organizações. “No momento, trabalhamos com muitos parceiros em Nova York e no mundo para construir bairros, desenvolver lideranças comunitárias no clero e fora dele, e ajudar nossos parceiros a manter suas paróquias bem abastecidas dos serviços de que necessitam.”

A encarnação atual da Trinity é a terceira igreja construída na esquina da Broadway com Wall Street. Projetada no estilo neogótico por Richard Upjohn e concluída em 1846, o edifício de pedra foi, durante décadas, a estrutura mais alta da cidade, e uma das primeiras a ser tombada.

Agora que a igreja está no centro de um boom imobiliário em Lower Manhattan, ela parece menos um oásis de tranquilidade e mais um fator que contribui para o ruído e a distração. A nova torre e a reforma do interior da Trinity formam um contraste radical com outros santuários da cidade, muitos deles com um número cada vez menor de fiéis, dificuldade para pagar as contas mais básicas e fazer reparos elementares.

Ainda que nos anos mais recentes as atenções tenham se concentrado no fechamento de igrejas por parte da Arquidiocese de Nova York, o problema afeta todas as denominações, disse Peg Breen, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico de Nova York. Muitos fiéis acabam realizando os reparos por conta própria. A saúde financeira da Trinity permite que ela sustente outras igrejas.

Ela vem doando US$ 10 milhões por ano, de acordo com Patti. A igreja também financia suas próprias iniciativas humanitárias, incluindo um edifício residencial de 325 unidades para idosos e portadores de deficiência, além de refeições para 35 mil pessoas por ano.

Será que as grandes igrejas podem se tornar o tipo mais comum em Nova York com o desaparecimento das igrejas menores? A pastora Donna Schaper, da Igreja Judson Memorial, em West Village, espera que as coisas não sejam assim. Os santuários menores não oferecem apenas a beleza de suas estruturas históricas, mas também serviços sociais como sopões, despensas coletivas e locais de reunião.

Ela deu início a um movimento chamado Bricks and Mortals, com o objetivo de desenvolver soluções coletivas para que nenhuma igreja tenha de enfrentar dificuldades sozinha. Uma das ideias seria a criação de um banco de direitos de incorporação permitindo que eles “sejam explorados comercialmente, mas não abusados” - para a construção de moradias acessíveis, por exemplo.

“Temo que a característica que torna Nova York tão agradável e interessante - a variedade da nossa cultura - seja ameaçada pela transformação dos santuários e paróquias em restaurantes e apartamentos de alto padrão", disse a pastora. “É quase tão trágico quanto a perda dos belos edifícios.”

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