Ben Stansall/Agence France-Presse
Ben Stansall/Agence France-Presse

Igreja na Inglaterra utiliza mini golfe e escorregador para atrair fiéis

Iniciativa é para tornar a imagem do templo menos proibitiva e para motivar participação de religiosos, após anos de declínio

Megan Specia, The New York Times

13 de setembro de 2019 | 06h00

LONDRES – O ambiente sagrado de uma igreja medieval, com seus vitrais e arcos elevados, costuma ser considerado um lugar de oração e de silenciosa reflexão. Recentemente, porém, nela funcionou também um escorregador da altura de quatro andares. No verão, visitantes de algumas das mais imponentes e antigas catedrais da Inglaterra depararam-se no seu interior com um parque de diversões, um campo de mini golfe e uma paisagem lunar.

Na Catedral de Norwich, no leste da Inglaterra, foi instalado entre colunas do século 12 um escorregador de 15 metros de altura – também conhecido como tobogã em espiral. O reverendo Andy Bryant, cônego da Missão da Catedral de Norwich, explicou que estava oferecendo aos visitantes uma nova perspectiva dos tetos com suas pinturas elaboradas. “É uma tentativa deliberada de ajudar as pessoas a se envolverem com a ação da nossa catedral,” explicou. “Existe esta ideia de que o escorregador cria um ambiente ruidoso, turbulento, mesmo assim as pessoas verão a catedral em toda a sua glória”.

Após anos de declínio da participação dos fiéis na Igreja da Inglaterra, a atmosfera de um parque de diversões mostrou a dimensão dos esforços do templo para projetar uma imagem mais aberta a todos, menos proibitiva. Em agosto, a torre fez parte do evento Uma maneira diferente de ver a Igreja, de 11 dias de duração, na catedral, que incluiu diversas instalações que permitiam a interação dos visitantes.

Os serviços da igreja continuaram normalmente. O de domingo foi dado do alto do escorregador. E os hóspedes puderam usá-lo pagandoUS$ 2,5 a descida. “Estamos compartilhando do nosso edifício com muita gente nova e podemos conversar sobre a fé”, disse Bryant. “A catedral está repleta de pessoas sorridentes, felizes”, acrescentou.

Declínio de participação

O número de britânicos que se identificam como membros da Igreja da Inglaterra caíu mais de 50% nos últimos anos, de 31% em 2002, para 14%, segundo dados do NatCen, um instituto de pesquisas sociais. O comparecimento normal aos domingos nas igrejas anglicanas da Grã-Bretanha declinou 15% de 2007 a 2017, informa a Igreja da Inglaterra.

O decano da Catedral de Lichfield, Adrian Dorber, disse à BBC que os eventos não foram “truques baratos de marketing”, mas decisões “tomadas em razão de graves preocupações pastorais”. Na catedral de Lichfeild, na região de West Midlands na Inglaterra, foi erguida uma instalação sobre o tema do espaço, lembrando o 50º aniversário da chegada da Apollo 11 na Lua.

No mês passado, visitantes da Catedral de Rochester, no sudeste da Inglaterra, puderam jogar mini-golfe na nave da catedral medieval. O campo de nove buracos tinha como tema uma ponte, que, como explicaram os líderes da igreja, tinha como objetivo incentivar as discussões sobre a construção de pontes espiritais.

Alguns definiram a ideia uma falta de respeito, e afirmaram que, por causa disso, a adoração se tornou impossível. O reverendo Gavin Ashenden, ex-clérigo anglicano que já foi capelão da Rainha, fez dura críticas às exibições que definiu como “zombaria”. “Na vida de todos os dias, experimentamos uma saturação de estímulos e de distrações”, escreveu em um blog. "É quase como se o ritmo e o prazer da vida tivessem a finalidade de tornar a reflexão e a oração impossíveis. O único lugar em que o indivíduo pode estar livre de tudo isto, pode ser, deve ser, a catedral”, criticou.

Mas Bryant afirmou que as igrejas devem ser lugares para “a vida em sua totalidade”. “Aqui, acontecem coisas sérias e solenes, e coisas trágicas. Mas podemos também assistir a coisas alegres”, destacou. “E é certo celebrarmos tudo isto no espaço de Deus. Precisamos celebrar toda a humanidade”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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